Ana Carolina Sacoman/AE
Ana Carolina Sacoman/AE

Um convite a chegar. E ficar

O jeito de receber hospitaleiro de quem investe todas as fichas no turismo mostra logo: da capital ao litoral, o país quer se firmar como mais que uma rota ao Adriático

Mônica Manir - O Estado de S. Paulo

14 Agosto 2012 | 11h22

ZAGREB - Li num guia turístico que é gafe ir para a Croácia e tocar no assunto da guerra contra a Sérvia. Não é verdade. Passados 17 anos de um conflito que matou 10 mil pessoas, o povo consegue resgatar o tema com uma majestade e um destemor que só fazem valorizar este país da Europa Central.

 

O que faz o croata desestabilizar um pouco é a iminência de entrar para a Comunidade Europeia. No dia 1.º de julho de 2013, a kuna deixará de ser a moeda corrente para dar lugar ao euro. Em tempos de occupies (série de protestos contra a política econômica de vários países), a Croácia ainda não sabe se é lucro fazer essa jogada. Para muitos, a natureza croata só é o que é - vigorosa, autêntica, preservada - porque o socialismo deixou certas estacas e o capitalismo ainda tem pudores para avançar. Aberta a porteira, sabe-se lá...

 

Assim sendo, a atualidade é o tempo ideal para visitar o país. Alguns destinos, como Dubrovnik, já parecem saturados, mas mesmo ali você encontra sombras generosas e água da fonte, regados à hospitalidade de quem investe todas as fichas no turismo.

 

Na costa estão belas pérolas. É um tanto de ilha recebendo cruzeiros e iates... Split é surpreendente, Cavtat também. Já Zagreb luta para ser lembrada primeiro como capital, depois como centro cultural dinâmico, com vida pulsante nos cafés e nos museus originais. Se não bastasse, tem a comida de inspiração mediterrânea pelo país todo, um recanto de sabores que você pensa: vou engordar de felicidade. Provavelmente, sim. A Croácia tempera a vida de um jeito diferente, talvez porque esteve perto de perder sua liberdade mais de uma vez - e retomou à unha o que lhe era mais sagrado.

 

Primeiros passos. "Às 5, embaixo do relógio", diz Damjan, meu guia em Zagreb. Ainda que fosse possível não enxergar alguém de blusa laranja e guarda-chuva amarelo, bastava saber que todas as ruas de Zagreb levam ao relógio da Praça Ban Josip Jelacic para se nortear. A praça é o coração da cidade. Além do marcador de tempo, ela esquadrinha uma estátua equestre do ban (vice-rei) e uma fonte da sorte. Ali já dá para perceber que a capital da Croácia tem pulso. Zagreb recebe cerca de 500 mil turistas por ano, a maioria austríacos, alemães e italianos. O povo vem atrás de arte, música, gastronomia e uma história medieval, que nasce na metade do século 16, da união de dois montes: o Kaptol e o Gradec.

 

Damjan mostra que a arquitetura mistura tendências austro-húngaras com o brutalismo socialista. Mas isso fica em segundo plano diante da ferradura verde, o conjunto de oito praças que estruturam a Cidade Baixa.

 

O cinturão nasce na praça Ban Josip Jelacic, passa pela Estação Ferroviária, pela Academia de Artes e Ciências, pelas faculdades, pela Biblioteca Universitária, pelo Teatro Nacional e pelo Jardim Botânico para, enfim, desembocar nas praças Marulic e Marshal Tito. Zagreb, portanto, tem sombra suficiente para um passeio a pé, mas há quem prefira pegar os trams, espécie de bondes que cortam a cidade. É mais um componente de charme para um lugar que quer deixar de ser apenas um corredor de turistas da Europa Central em direção ao Adriático.

 

Charmosa também é a Igreja de São Marcos, do século 13, com seu telhado xadrez "bordado" de um lado com o brasão de armas medieval da Croácia, Dalmácia e Eslovênia e, do outro, com o emblema de Zagreb. Em volta da igreja, o poder. Tanto o Parlamento quanto a Câmara Municipal e o Judiciário concentram-se ali, como que lhe pedindo a bênção.

 

Quase 90% dos croatas são católicos, mas o padroeiro da cidade não é o evangelista Marcos, e sim Nossa Senhora, cultuada num santuário no Portão de Pedra, a leste da medieval Gradec. Diz a lenda que um grande incêndio em 1731 arrasou toda a parte de madeira do portão, menos a pintura da Virgem com o Menino, cujo autor seria um artista desconhecido do século 17. Acreditando nos poderes do quadro, fiéis acendem velas em volta da imagem e pregam plaquinhas de agradecimento. Só vi uma em português, provavelmente de Portugal: "Muitíssima reconhecida / Clarice 1979".

 

Para quem é devoto das compras, o mais típico da cidade são as gravatas. No século, 17 os soldados croatas chamaram a atenção dos franceses com seus lenços elegantes no pescoço e daí a moda se espalhou.

 

Já a esferográfica é zagrebiana na raiz. Em 1907 o engenheiro Eduard Slavouljub Penkala patenteou a primeira caneta mecânica do mundo. Era ardiloso o Penkala. Fabricava a caneta em Zagreb e exportava para 70 países. Autografava, assim, um pedaço da história da cidade. O outro pedaço é ocupado pelos corações vermelhos, que estão em tudo: camisetas, agendas, ímãs, as próprias esferográficas. Foram inspirados no Licitar, pastel tradicional decorado com massa doce. Uma lembrança delicada. 

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