Um convite para amanhã à noite

Nosso incorrigível viajante, que comemorou o Natal em tantos países diferentes e com tantos povos distintos, desta vez vai ficar em Londres, faça fog ou faça frio. Os motivos dessa decisão estão na crônica abaixo. Mas, "of course", ele deseja "all the best" a todos os seus leitores.

O Estado de S.Paulo

23 Dezembro 2014 | 02h05

Querido mr. Miles: estávamos conversando outro dia e decidimos que o senhor seria uma excelente companhia para a noite de Natal, com sua alegria, suas histórias e seu bom humor. Sei que está em cima da hora, mas gostaria muito que considerasse a possibilidade. No aguardo de sua resposta. Marta Venino Moura, por e-mail

"Dear Marta: estou extremamente honrado com seu convite e tenha certeza de que eu ficaria igualmente agradecido em poder partilhar a ceia com sua família. Unfortunately, como você mesma previu, eu já tinha elaborado outros planos para a véspera de Natal e sinto que, neste momento, teria grande dificuldade em desfazê-los.

Explico-me: essas datas referenciais, que são distintas em cada tipo de crença - não haverá festa, tomorrow, nas casas de islâmicos, budistas, judeus, hinduístas, xintoístas e taoistas, for instance -, são fortemente significativas do ponto de vista humano. Desde cedo aprendemos a ver, nesse dia singular, pessoas queridas reunidas comemorando a existência, o pertencimento, o amor, a amizade e a continuidade. Há, of course, os que enxergam religiosidade em tudo isso, os que acreditam, rezam e acendem velas. E é claro que estão todos certos! However - pude perceber em muitas dezenas de Natais ao redor do mundo -, o que importa mesmo é celebrar o fato de que aqui estamos, juntos, para além de qualquer mistério ou de qualquer explicação.

Lembro-me de alguns Natais que passei na Inglaterra, ainda pequeno, quase sempre na casa de tia Harriet, no condado de Dorset. Eram eventos peculiares. Em Christmas Eve - a noite de amanhã - não havia um banquete ao modo que vocês conhecem no Brasil. Saíamos todos, primos, tios, cunhados, avós para as ruas e cantávamos músicas tradicionais. Apesar do frio, a cidade ficava cheia de gente em festa, dançávamos uns com os outros e, by the way, quase todos os adultos ficavam embriagados. Em casa, tia Harriet pendurava as meias para os presentes e fazia mince pies (tortas de frutas) para o Papai Noel. Para ele também era sempre deixado um copo de sherry (e eu imaginava o quanto ele aguentava beber em uma noite só!).

Era tradição, também, deixar um prato de cenouras para as renas. A festa mesmo ocorria no dia 25, com a abertura dos presentes, uma visita à igreja e todos reunidos para o discurso do rei (mais tarde, da rainha) após o jantar.

Tenho boas lembranças de tia Agnes, que me presenteava (depois que eu deixei de acreditar em Papai Noel) com livros de Jules Verne e Karl May, os patronos de minha vida de viajante.

Esta noite, dear Marta, não estarei com você e com sua alegre família. Vou abrir um single malt e, junto com Trashie, vamos passar o Natal com minha velha amiga Adelia Jones, uma mulher cheia de atividades, vivaz e forte em seus 96 anos. Adelia, however, não tem mais familiares. Não teve filhos e sua última irmã morreu ainda no século passado. Therefore, Marta, ela fica muito triste com o clima do Natal. E, por isso, sempre que posso, tento ser o seu Papai Noel.

Certo de sua compreensão, desejo-lhe e à sua família um feliz Natal!"

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E

16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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