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Um dia desses a gente combina

O ano está acabando. Um ano de 365 dias de buscar um significado fora da rotina ou mesmo em outra vida

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2019 | 09h00

Você também já ouviu aquela velha novidade repetida: o ano está acabando.

Um ano inteiro de 365 dias. De 365 dias de “um dia a gente combina”. Uma temporada completa de “um dia a gente toma uma coisinha”.

São 365 dias desses esperando outro dia chegar. São 365 dias desses em que a gente morre de ansiedade pelo aviso de férias. São 365 dias para sonhar em conhecer o Japão ou a Rússia. 

São 365 dias querendo viajar, visitar lugares que ainda cabem no bolso da camisa e naquilo que nos resta de vida. São 365 dias de praia – sem que a gente possa molhar os pés no mar. São 365 dias de campo – sem que a gente consiga respirar o tal ar puro. 

São 365 dias para criar fantasias de pé na estrada, fantasias de vento na cara, fantasias que andam de moto, de barco ou caminham sozinhas por lugares ermos e românticos. Fantasias de sessão da tarde. Fantasias de cinema americano.

No mais, também são 365 dias para arrumar e desarrumar malas, para procurar “aquela” promoção em sites de busca, para reservar quartos de hotéis só pelo prazer de reservar – e depois, sem qualquer custo, cancelar a reserva como se um imprevisto tivesse invadido nossas vidas. 

Mas não acontece nada. Nada, nada é imprevisto. Nenhuma maravilha. Nenhuma tempestade no radar. No fim, são apenas mais 365 dias desses.

São 365 dias sonhando em reclamar da fila do check-in, da comida do avião ou do mau humor na imigração. São 365 dias querendo reclamar do excesso de turistas e dessa gente que só quer saber de selfie e de lotar restaurantes.

Dias de fazer listas, de atender pedidos, de procurar pelas promoções no free shop da vida. A gente se empolga, acaba levando o que não precisa, quase nunca vale a pena.

São 365 dias de procurar um significado fora do País, fora da rotina ou mesmo em outra vida. Dias de buscar o tal autoconhecimento de butique, maquiagens que saem com a água do banho.

São 365 dias para ganhar ímã de geladeira, são dias de assistir à vida dos outros passar no Instagram. Digo mais, são dias de mandar mensagens pelo WhatsApp e emular uma saudade que não sentimos. 

Dias para fingir que estamos juntos, mesmo sendo “encarniçadamente” sozinhos. Dias para se olhar no espelho e prometer “pegar pesado na academia”. São, claro, 365 dias para brigar contra o aparecimento de uma indiscreta barriga. Dias para comprar camisas com números maiores.

São, inevitavelmente, 365 dias de quem quer sempre estar em outro lugar. São 365 dia desses em que a gente corre atrás do que não vê.

Dias também de guias de viagem espalhados pelo chão, dias de fazer planos, roteiros, rascunhos e cálculos. São dias de usar a imaginação. Dias de não fazer por onde, mas, de novo, dias de imaginar.

Também são dias de jogar na loteria, de apostar em cavalos errados, de investir em conceitos abstratos. 

São 365 dias procurando alguém para culpar. Nem é tão difícil encontrar. Afinal, são 365 dias para apontar o dedo para o outro. 

São dias de inventar fantasmas, desculpas esfarrapadas e se preservar (pra quê?). Dias com tantos compromissos, outros tantos pra ser omisso ou simplesmente esquecer.

Dias desses de pagar umas contas, jogar pelas pontas e consertar os dentes. Dias desses de inventar parentes e levantar paredes que não se derrubam mais.

São dias desses de estancar no sofá. Mas “um dia a gente combina”, “um dia a gente combina de tomar uma coisinha”. 

São 365 dias desses em que a gente vai tocando o barco, tomando café amargo e esperando a nossa vez chegar. Dias em que de tanto se fingir de poste não saímos mais do lugar. Mas “um dia a gente combina”, “um dia a gente combina de tomar uma coisinha”. E de tanto esperar 365 dias desses, um dia há de vingar.

Um dia a gente combina. Um dia desses a gente toma uma coisinha. 

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