Um dia na restrita aldeia dos Wajãpi

Amapá concentra as aldeias da tribo, onde você só pode entrar se for convidado

Bruna Tiussu, O Estado de S.Paulo

01 Maio 2012 | 03h07

Estava lá como convidada, mas a sensação era a de intrusa. Índios Wajãpi se reuniam na sede da aldeia para discutir questões de saúde, único quesito em que não se consideram mais autossustentáveis. Afinal, a sabedoria de um pajé, por mais surpreendente que seja, não dá conta das doenças de branco que lá chegaram.

Tudo o que era dito em português logo se traduzia em Wajãpi, língua tupi local, para que os mais velhos compreendessem. Estes, nem dirigiram o olhar para mim. Dos mais jovens, nenhum sinal de boas-vindas. Mulheres e crianças se espalhavam pelo ambiente, a maioria vestindo só um pano vermelho na cintura e curiosas pinturas kusiwa nas partes descobertas. Feita com uma mistura de jenipapo, óleo de copaíba e um fixador mantido em segredo, a arte é tão bonita e característica dali que foi declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco.

Foi elogiando este lado vaidoso delas que ganhei alguns sorrisos, e um primeiro contato. Me explicavam, em português às vezes truncado, como cuidavam das tarefas domésticas e do plantio. Algumas se perdiam na hora de enumerar quantos filhos tinham - a média por ali ultrapassa oito. E arregalavam os olhos quando devolviam a pergunta e eu respondia que, aos 27 anos, ainda não tinha filhos, por opção.

Homens Wajãpi podem ter duas esposas, como rege a tradição. Mas não está fácil pra ninguém, e hoje não há mulheres suficientes nas aldeias do Amapá. A solução é buscar futuras companheiras nos grupos que vivem em território vizinho, na Guiana Francesa.

Estima-se que os Wajãpi se instalaram no centro-oeste do Estado brasileiro, perto de Pedra Branca do Amapari, há cerca de cem anos. Vieram da cabeceira do Rio Xingu, norte do Mato Grosso, local que abandonaram para fugir do contato com os brancos. Hoje, ocupam mais de 600 mil hectares de terras - praticamente uma Brasília - demarcadas e homologadas em 1996. A população de aproximadamente mil pessoas se divide em mais de 40 aldeias que se espalham pela área. Para chegar até a sede naquele dia, alguns viajaram até oito dias, a pé ou de barco. Visitantes por ali (como eu), só mesmo com autorização.

Queria mesmo era conversar com as crianças. Encantadoras, com seus olhos ao mesmo tempo grandes e puxadinhos, os cabelos lisos e uma destreza absurda carregando os mais novos no colo. Mas até certa idade, elas não falam português, ensinado como segundo idioma. Já os maiorzinhos faziam uma cara de desconfiança quando me aproximava. As meninas, algumas saíam correndo; outras dirigiam o olhar para a mãe, como que aguardando um aval para expressar qualquer emoção. E os meninos continuavam simplesmente jogando nos seus celulares. Que ali só servem para isso.

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