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Um esbarrão na Vênus de Milo

Seria Otávio um terrorista ou apenas um idiota?

Gilberto Amendola, O Estado de S. Paulo

08 Janeiro 2019 | 03h00

Quantos esbarrões você leva durante uma viagem? Pode apostar que são muitos. Coisa de quem anda distraído, olhando novos edifícios ou mesmo admirando o céu de uma cidade diferente. São esbarrões imperceptíveis, pequenos beliscões, choques de baixa voltagem, faíscas produzidas por uma vida tocando em outra vida. De leve... 

Esbarrões que se resolvem com um breve sinal de cabeça, um aceno de mão ou um sussurrante “desculpe” (no idioma local). Esbarrões que, via de regra, não significam nada. Esbarrões que não mudam a vida de ninguém.

Mas, em seu último dia em Paris, durante uma visita ao Museu do Louvre, Otávio levou um esbarrão de um turista asiático, um esbarrão relativamente forte, ou apenas forte o suficiente para que se desequilibrasse, trançasse os pés e fosse misteriosamente lançado por sobre a área de proteção de uma estátua grega. Por reflexo, procurou algum apoio com os braços e acabou derrubando ela, a deusa do amor, a Vênus de Milo. 

Silêncio no Louvre. Otávio teve um branco. Não foi bem um desmaio. Foi como se a alma saísse do corpo por alguns segundos. Uma onda de “ohhhhh” inundou a Sala 16 do setor azul. O bip do rádio comunicador dos seguranças começou a martelar. Todos os celulares miravam o desastre. Fotos. Muitas fotos. Ao seu lado, Vênus de Milo descabelada e com aqueles olhos arregalados de quem foi flagrada em pleno ato. 

Otávio viu aquela estátua sem braços e, por meio segundo, sentiu-se responsável por tê-la amputado. O que aconteceria com ele? Era possível pagar por isso? Seria preso? Deportado? 

 

Ele foi carregado por seguranças para uma sala reservada. Tortura! Não. Eram perguntas. Perguntas que eram impossíveis de responder com seu francês básico. Chamaram um tradutor. Levaram seu passaporte. Queriam saber se ele era terrorista, se estava acompanhado, o que fazia na França e quando era o seu voo de volta. 

Não demorou para o embaixador brasileiro aparecer. A relação entre os países poderia sair estremecida desse horrível acidente. Já havia um comunicado oficial assinado pelo presidente brasileiro – um pedido formal de desculpas. Otávio passou por uma série de exames (sangue, urina, reflexos...). Queriam saber se ele estava drogado, se caiu de propósito ou se era apenas um turista imbecil.

No dia seguinte, a foto de Otávio deitado ao lado da Vênus de Milo estava nas primeiras páginas dos principais jornais do mundo.

Tinha uma cara de parvo, uma coisa objeta, deprimente e triste. Vênus de Milo também olhava para a lente como quem tem algo a dizer. Os jornais concluíram se tratar apenas de um turista idiota. Os chargistas e humoristas repetiram piadas sobre o governo francês cobrar do governo brasileiro os braços perdidos de Vênus de Milo – os braços que ela já não tinha, mas que, segundo eles, ninguém no Brasil precisava saber. 

Em cadeia de rádio e televisão, o presidente francês afirmou que, milagrosamente, a estátua estava intacta. E Otávio já estava dentro de um avião voltando para o seu país de origem.

No Brasil, a chegada de Otávio foi transmitida por pelo menos três emissoras de televisão. Otávio também recebeu convites para participar de um reality show de sucesso. Fez propagandas de refrigerante, banco, óculos, agência de viagem, companhia aérea, Viagra e estrelou um vídeo institucional para o Ministério da Educação. Duas editoras disputaram o direito de lançar um livro sobre a sua história. O seu Instagram virou um dos mais seguido do mundo, ultrapassando Neymar e Beyoncé. Ele foi considerado o brasileiro do ano por uma revista semanal. Em 2020, Otávio será candidato a vereador – mas a médio prazo planeja voos maiores em termos eleitorais.

Toda noite, quando consegue dormir, recebe a visita de Vênus de Milo. Em sonho, ela tem os dois braços. Eles se abraçam. Um abraço demorado. Otávio sempre acorda depois de fazer amor com uma deusa.

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