Um estrondo e o dia vira noite: no meio da mata, um temporal

SAN JOSÉ DE SARAPANGA - Então houve um brinde com champanhe e suco de laranja, uma cereja por taça, e escureceu. Estávamos em algum ponto do Rio Nauta Caño. Dali emendaríamos uma focagem noturna de jacarés, mas os bichos não apareciam. Até que alguém na outra voadeira conseguiu capturar um filhote.

Fábio Vendrame, O Estado de S.Paulo

08 Outubro 2013 | 02h13

Pobrezinho, tão assustado, tinha o pescoço e a cauda contidos pelas mãos do guia. Ao ser devolvido ao rio, permaneceu inerte, de olhos arregalados. O guia comentou, "é assim mesmo, logo ele volta a nadar". Não sei. Não deu tempo de saber.

Um clarão iluminou a selva. Veio o estrondo. A escuridão voltou a engolir tudo. O céu desabou. A última cena que me recordo era uma capivara e dois filhotes na beira do rio se recolhendo de volta à mata. Começava um aguaceiro de dar inveja a Noé.

Na época de vazante, com menos água e mais galhos e troncos no leito, a navegação fica mais complicada. Era isso o que o capitão do navio comentava comigo horas antes. A lancha dava solavancos, parecia enroscar. Quando o motor encontrava um galho mais forte, um baita barulho era seguido pela expectativa: vai ou não? De manhã, por muito menos, o motor havia apagado e levou uns dez minutos até que voltasse a funcionar.

A lancha começou a alagar. Primeiro, senti os pés molhados. Depois, pernas e costas. Estava encolhido, abraçado à mochila - bloquinho de anotações e câmera ali dentro. A capa impermeável já não dava conta.

De vez em quando levantava a cabeça na tentativa de enxergar algo. Nada. Piloto e copiloto avançavam rio adentro em busca do Aria. Depois de quase 30 minutos, ufa: eis que a visão daquele grande navio iluminado me devolveu a alegria.

Nunca fiquei tão feliz de ver um barco. Estava eufórico. Totalmente encharcado, mas com a mochila seca, e particularmente agradecido ao esforço dos pilotos. Que experiência.

As peças de roupa molhadas, incluindo o tênis, foram recolhidas a bordo e levadas pra secar na máquina. Quando a adrenalina baixou, bateu uma fome monstruosa. Depois da ducha quentinha, ainda me sentia extasiado durante o jantar.

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