Um frango sobre a colcha

Sem muitas delongas nem sugestão que indicasse seu atual paradeiro, nosso incansável viajante enviou carta respondendo à pergunta da semana. Direto ao ponto:

O Estado de S.Paulo

22 Maio 2012 | 03h10

Mr. Miles: estou programando uma viagem com minha esposa e não quero gastar muito. Tenho medo, porém, de acabar hospedado em alguma espelunca. Qual a sua recomendação? E quais foram suas piores experiências no tema? João Murillo S. de Almeida, por e-mail

"Well, my friend, não conheço viajante que só tenha vivido alegrias em suas hospedagens. De uma forma ou de outra, o Cebus nigrivittatus (mico, as you say) sempre está por perto, à caça de novas vítimas. Não vou me referir, aqui, a hotéis que ficam abaixo da expectativa, mas estão perfeitamente de acordo com a escolha do cliente. Quero dizer: quando o viajante reserva um hotel duas-estrelas, não encontrará, of course, mais do que lhe foi oferecido. Ou seja, nada de bons restaurantes, serviços caprichados ou lençóis de linho egípcio. E possibilidade de, I'm afraid, topar com baratas subindo pelas paredes.

Em destinos muito concorridos, dear John, há uma regra quase aritmética para definir o tipo do estabelecimento em que você vai se hospedar. Quanto mais distante do centro, melhor será a qualidade de um hotel de baixo preço. Só tenha o cuidado de pesquisar o mapa da cidade, coisa que não fez o meu velho amigo Fred Cochrane, 'O Avaro', que, para obter um desconto formidável em sua viagem ao Rio de Janeiro, acabou hospedado em Belford Roxo.

However, se a localização do hotel for esplêndida e o preço estiver uma pechincha, a chance de você ter reservado um pardieiro, com direito a problemas de segurança e placas de néon inundando a intimidade de seu quarto, será expressiva.

Você quer saber de minhas piores experiências pessoais. Well: devo lembrar-lhe que quase sempre fico hospedado em estabelecimentos de amigos pessoais, afilhados e compadres que fiz durante todos esses anos de peregrinação. E é por essa questão ética, by the way, que nunca faço recomendações pontuais de hotéis, resorts ou pousadas.

Mas é claro que já tive meus próprios percalços. Certa vez, em um hotel de Miami Beach cujo nome fiz questão de esquecer, fui encaminhado a um apartamento no décimo andar. Assim que abri a porta com uma dessas tristes chaves de plástico que não têm qualquer glamour, reparei que, sobre a colcha de minha futura cama, havia algo muito esquisito. Quando cheguei perto vi, estarrecido, que se tratava de um frango assado com partes intactas e partes previamente devoradas. A ave jazia sobre a cama sem qualquer embalagem por baixo ou traço de identificação.

Voltei indignado à portaria e, claro, deram-me outro apartamento. Ninguém, entretanto, pareceu ficar perplexo com a cena que eu descrevi. O que me fez pensar, of course, que comer frangos com a mão em quartos de hotel em Miami Beach é uma espécie de esporte nacional. Don't you agree?

Também já dormi em taperas de pau a pique, com chão de terra e meias-paredes, em lugares remotos do nosso planeta. Não considero, porém, que foram más experiências. Tirante o ronco dos vizinhos e a incômoda falta de intimidade, o pernoite é até pitoresco. Besides, há certas localidades onde não existem outras opções de hospedagem e a simples existência de um teto que o proteja das intempéries já é um luxo remarkable.

Anyway, my friend, hoje é possível antever o lugar onde você vai ficar hospedado com o auxílio da internet. É sempre bom fazê-lo, com todas as reservas necessárias. Lembre-se de que o quarto que aparece na foto nunca é aquele que lhe oferecerão. Lembre-se, as well, que há programas de computador que fazem mágica com imagens inconvenientes. A indicação de um amigo pode ser o melhor caminho. Desde, of course, que ele não seja, como vocês dizem, um amigo da onça."

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E

16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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