Um idioma que todos falam

Nosso correspondente, como se sabe, está na África do Sul para acompanhar a Copa do Mundo. Ele duvida que alguém se interesse por sua coluna no dia em que o Brasil faz a sua estreia. Mas, como sempre, não deixa de enviá-la.

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

15 Junho 2010 | 02h20

Querido Mr. Miles: o senhor já esteve em todos os países que participam desta Copa?

Caroline Soares Fuchs, por e-mail

"Well, my dear, permita-me fazer uma digressão preliminar. Não há como abstrair o fato de que esta coluna está sendo publicada no dia em que o Brasil faz sua estreia na Copa do Mundo. O que, I"m afraid, sugere que, hoje, ninguém estará interessado nas linhas de um velho escriba britânico. Nem mesmo você. Aliás, eu próprio sou incapaz de dizer como me sinto nesta manhã, visto que a coluna foi produzida antes do match entre os Estados Unidos e nosso English team.

Quanto à sua pergunta, a resposta é sim. Tive a felicidade de visitar cada uma das nações representadas aqui na África do Sul, embora duas delas sequer apareçam nos meus passaportes. São os casos da Eslovênia, em que estive quando pertencia à Iugoslávia, e da Eslováquia, para a qual não retornei desde seu desligamento da antiga Checoslováquia.

Aqui de Rustenburg, preciso me controlar para não discorrer sobre futebol, esquemas táticos, lesões e arbitragens porque sei que nove entre dez colunistas dedicam-se a esta tarefa, certamente com mais gabarito. However, a catarse que este imenso evento provoca mundo afora merece uma avaliação mais precisa. É inegável que se trata de uma competição, onde há vencidos e vencedores, como na mais ancestral das disputas.

Nevertheless, não há povos sobre a Terra que desejem, deliberadamente, escapar dessas batalhas. Assim como não há diplomatas em busca de uma solução pacífica para essa contenda internacional, disputada com aguerrimento em um paradoxal clima de celebração. É, ao meu juízo de sociólogo de pub, o sintoma indesmentível de que os povos, assim como os viajantes, buscam o encontro. E se não conseguem seu intento nos confusos plenários da ideologia e da geopolítica, alcançam-no na única linguagem que todos compreendem - pois que aprendem a ver e a praticar antes mesmo de consolidar suas idiossincrasias.Football, my friends, é o idioma que não perdemos na Torre de Babel. Fala-se com os pés, com a cabeça, com as mãos e a inteligência.

Há jogadores mais ou menos habilidosos, mas todos eles nos representam. E eu ousaria supor que não apenas em nossa vontade de vencer, mas, anyway, em nosso desejo de mostrar quem somos para povos que mal nos conhecem. E vice-versa.

Aqui, na África, não tem sido diferente. Pelas ruas de Jo"burg, há uma infinidade de pessoas exibindo cores e hábitos nacionais em suas vestimentas e acessórios. Um velho amigo meu, ranger de uma reserva de safáris no Kruger Park, contou-me que quase presenciou um acidente quando um viajante espanhol, nas proximidades de um grupo de leões, entusiasmou-se e desfraldou a bandeira da Fúria - o que, of course, "enfureceu" os felinos. A festa, enfim, já começou e estamos todos dela participando. Aproveito, antecipadamente, para agradecer aos leitores (se é que sobrou algum) que dedicaram alguns minutos desse dia fundamental para esse modesto peregrino. E tenham um ótimo jogo."

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ESTEVE EM 132 PAÍSES E 7 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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