Valéria Gonçalvez
Valéria Gonçalvez

Um inesperado souvenir

Em vez de alfajor ou vinho, Priscilla trouxe um cachorro de Buenos Aires. Valéria foi caminhar em busca de autoconhecimento e voltou para casa com o Cão Peregrino

Adriana Moreira, O Estado de S.Paulo

11 Dezembro 2018 | 03h05

Priscilla Duarte e o namorado Paulo Henrique queriam passar alguns dias curtindo Buenos Aires. O mais provável é que trouxessem de lá alguns alfajores e vinhos, mas voltaram com um souvenir inesperado: um cachorro.

Quer dizer, voltaram como donos de um cachorro, o qual só puderam reencontrar quase quatro meses depois da viagem. Priscilla conta que o animal começou a segui-los pelas ruas da cidade quando eles foram “bater perna”. Depois de uma hora, acharam melhor “dar um perdido” nele. “Mas ele ficou tão desnorteado quando nos escondemos que voltamos arrependidos, já decididos a adotá-lo.”

Há dois anos, a fotógrafa Valéria Gonçalvez também voltou bem acompanhada do Caminho da Fé, rota de peregrinação entre Águas da Prata e Aparecida, em São Paulo. Boa parte de seus 12 dias de caminhada foram na companhia de um cachorro preto, o Cão Peregrino. “Achei que em algum momento ele desistiria, mas ele ficou até o final”, conta. Na chegada à Basílica, ela já estava decidido a levá-lo, mesmo tendo outros dois cães em casa. Este ano, ela refez o caminho, no sentido inverso, novamente na companhia de Pê (como ela o chama carinhosamente), que ganhou até perfil no Instagram. “Paramos mais vezes para ele descansar, mas ele adorava entrar no riacho, pastorear e cavar buracos”, conta. 

Para Valéria até que foi fácil trazer o cachorro para casa. “Um amigo que fizemos no caminho se ofereceu para dar carona”, conta Valéria. Não se pode dizer o mesmo de Priscilla: durante os quatro meses, Leo (o cachorro) permaneceu em um lar temporário. Perguntei se ela não pensou em colocá-lo para adoção em Buenos Aires. “Tentamos, mas ninguém quis ficar com ele. Então decidimos trazê-lo.”

Como faz?

Não é fácil (nem barato) trazer ao Brasil um animal adotado no exterior. O Ministério das Relações Exteriores exige documentos como certificado de saúde expedido por um veterinário, com validade de três dias, para a emissão do Certificado Zoosanitário Internacional. Outra exigência é a aplicação de vacina antirrábica 30 dias antes da viagem e um atestado que comprove que o animal foi examinado e não apresenta sinais de doenças. Ultrapassada essa fase, há a questão logística. Cada empresa aérea estabelece as próprias regras para transportar os animais. Procure no site da companhia as exigências, que podem variar também de acordo com o país. Mesmo dentro do Brasil há regras e documentos específicos.

Leo, o cachorro argentino de Priscilla, acabou vindo com uma empresa de transportes terrestres – com a repercussão do caso na internet, ela conseguiu apoios que ajudaram a abater os gastos com a viagem do perro. Seu nome, Leonardo Padura, é uma homenagem ao autor do livro O Homem Que Amava os Cachorros. E assim como o Cão Peregrino, ele também ganhou perfil no Instagram.

Paixões arrebatadoras – como nos casos de Leo e do Cão Peregrino – acontecem em viagens. Mas é claro que não é preciso ir tão longe para adotar um companheiro. A jornalista gaúcha Cris Berger, que faz o Guia Pet Friendly, adotou Ella, uma sharpei que nasceu em um canil mas foi rejeitada por ter as patinhas tortas. Ela chegou com sete meses e, agora, as duas estão sempre juntas – inclusive em viagens. 

Leo, Cão Peregrino, Ella. Todos passaram por situações de rejeição e abandono, mas conquistaram seus finais felizes. Teria sido ótimo se a história do cãozinho que morreu depois de ser espancado e retirado com brutalidade do Carrefour de Osasco tivesse terminado como uma dessas.

Outros países

Há casos em que, mesmo sem ter um dono, o animal de rua tem seu bem-estar assegurado pelo Estado. Em Cuba, por exemplo, os cachorros são responsabilidade de instituições públicas, que cuidam da alimentação e dos cuidados médicos. Eles têm até crachá e fazem companhia aos guardas noturnos. 

Nos países do Mediterrâneo, os gatos de rua são parte da paisagem. Deixá-los livres é parte da cultura, mas o excesso de animais pode ser um problema. Por isso, em Nuncia, na Espanha, a prefeitura destinou este ano 8 mil euros (R$ 35 mil) para esterilizar os felinos – que, depois de recuperados, foram devolvidos ao seu local de origem.

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