Bruna Toni/Estadão
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Um kebab para viagem

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Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

19 Setembro 2017 | 03h00

Poderia dizer que esqueci temporariamente da comida brasileira durante minha recente viagem de férias pela Europa e por Nova York. Troquei a caipirinha por champanhe barato de mercadinho francês. No lugar da feijoada, queria mesmo era experimentar os croquetes de máquina de Amsterdã. Ou parar para comer kebabs cheirosos, suculentos – tenho água na boca enquanto escrevo – e baratos na terra do euro, da libra, do dólar. 

Mas, recentemente, já de volta a São Paulo, voltei a saborear um belo shawarma, o lanche de kebab, na esquina de casa. Noutro dia, investi minha fome num quibe cru e pão sírio. Ou seja: lá ou cá, me divido entre os chamados pratos típicos do país onde estou e os sabores que neles chegam por ar, pela terra e pelo mar em diferentes épocas, por diferentes motivos. Os sabores imigrantes chegam e ficam. E acabam por se tornar parte do cotidiano até de quem não tem qualquer ligação com o lugar de origem dessas gastronomias estrangeiras. 

As políticas “antikebab” são um tema da atualidade na França, mais recentemente manifestadas em Marselha. A prefeitura da cidade anunciou projeto, referendado pelo conselho municipal em junho, que pretende tirar do centro da cidade estabelecimentos que não condizem com o padrão desejado pelos governantes. Estão incluídos no grupo vendedores de kebab, terceira comida para viagem mais popular no país.

A política de Marselha não é novidade nos nossos tempos. Ela tem como alvo o mesmo que políticas nacionalistas e xenófobas: a presença do imigrante, do imigrante que incomoda por motivos que, historicamente, não encontram legitimidade. Sem (ainda) serem defendidas abertamente, escondem-se atrás de argumentos que reforçam esse sentimento do outro como inimigo.

O mais forte é o de que o grande número de restaurantes vendendo o “vilão” kebab pode devastar a gastronomia típica francesa. É claro que a globalização e suas consequências trazem questões importantes à preservação das manifestações locais. Desde sempre, o debate em torno das identidades e do multiculturalismo é polêmico e inesgotável. Contudo, o que me parece claro é o lugar da ameaça. Ela não está na troca ou na absorção cultural, muitas vezes saudável e desejada por nós, viajantes. Está, sim, na desigualdade com que historicamente se constrói, a partir de relações de dominação entre classes e povos. Note: ninguém ataca a existência dos (chiques) restaurantes franceses porque eles podem acabar com a nossa tradição da feijoada. 

O mesmo tem ocorrido na Europa. Como ressalta o geógrafo e pesquisador da alimentação Pierre Raffard, a política “antikebab”, defendida pelo partido de extrema direita do país, o Frente Nacional, não encontra correspondência quando os restaurantes são pizzarias, chineses ou japoneses – na França, os japonais estão por toda parte.

“Existe uma conexão clara entre a crise econômica (dos anos 2000) e o nascimento deste debate sobre as lojas de kebab”, explicou Raffard ao site Citylab. “Normalmente, ninguém diz explicitamente: ‘estamos proibindo lojas de kebab porque não queremos estrangeiros’, mas esse sentimento está ali embaixo, é claro. O alvo do discurso são pessoas provenientes de países tradicionalmente muçulmanos.”

Higiene. Outro argumento comum é a defesa de lugares mais limpos, onde a qualidade da comida seja confiável. Justo. Mas é no mínimo preconceituoso relacionar a sujeira a lojas mais simples e baratas. Não foi, afinal, numa lanchonete de kebab que uma amiga que mora em Paris viu um ratinho circular pela cozinha. Foi numa rede famosa. E francesa.

Não quero com isso dizer que a gastronomia nacional não deva ser valorizada. Deve e muito. Adoro mostrar tudo que é nosso a amigos estrangeiros, mesmo que este “nosso” seja muitas vezes mais regional do que nacional. A questão é o caráter econômico e político dos discursos e das políticas em defesa de uma cultura – aqui, traduzida em seus pratos – em detrimento de outra. Basta andar nos metrôs de Paris, nas ruas de Nova York, nas lojas do Brasil para ver que não há um rosto, mas vários. Não há uma cultura, mas várias ocupando um mesmo território. 

Comer kebab na esquina de casa não é algo tipicamente brasileiro. Mas é algo tipicamente mundano. E nós somos, antes de tudo, mundanos. Querendo ou não. Afinal, qual sua ascendência mesmo? 

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