Bruna Toni/Estadão
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Bruna Toni
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Um lápis, um papel e um 'niño'

Em 63 anos, Emílio Arenas reuniu uma coleção de 23 mil lápis. O primeiro dado por sua professora

Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

09 de abril de 2019 | 03h05

Em 1956, o garoto Emílio Arenas encontrou uma mulher que mudaria para sempre sua vida. A chamava de professora, ou maestra, para ser mais fiel à sua língua natal, o espanhol. Possivelmente numa atitude corriqueira e de funções práticas, ela lhe deu um lápis. Mas deu também um segundo lápis, para que ele guardasse. Emílio não ousou desobedecê-la. Usou bem usado o primeiro e guardou bem guardado o segundo. Tão bem que passados 63 anos eu pude encontrá-lo.

Já seria de se admirar alguém que tenha preservado por tanto tempo um lápis – quantos você já perdeu, quebrou, jogou fora ou emprestou e nunca mais viu a cor? Mas o que mudou a vida de Emílio não foi a conservação material do instrumento, mas a ideia que ele teve ao ser presenteado.

Março deste ano, 20 quilômetros após a entrada do departamento de Colônia do Sacramento, Uruguai. À frente de 23.156 lápis – talvez já tenha aumentado a essa hora –, o agora Dom Emílio conta a um grupo de turistas como deu início às suas vastas coleções. Entre elas, a de lápis, seu maior acervo, registrado no Guinness Book, o livro dos recordes.

Emílio é um colecionador nato. Tem no seu Museu do Colecionador, na Granja Arenas, uma infinidade de chaveiros – são 48 mil, o primeiro deles dado por sua mãe no dia do seu aniversário, em 1955 –, perfumes, bonés, porcelanas, cinzeiros, caracóis... Diz ele que tudo que ganha, guarda. Guarda, organiza, cataloga, expõe. Marie Kondo ali nada poderia fazer. Todo o acúmulo parece lhe trazer felicidade.

Apesar de dar atenção a todas suas peças, foi sobre o instrumento de risco, cujos primeiros registros datam do século 16, que ele mais quis falar. Contou da professora que o inspirou mesmo sem saber (ou saberia?), mostrando o sexagenário lápis preservado numa redoma de vidro presa à parede. Falou sobre aqueles que ganhou de pessoas, empresas, times (vários brasileiros) e governos – são 2.500 lápis com propagandas brasileiras e dois exemplares de Itu, a cidade paulista dos tamanhos exagerados. E se emocionou, como parece fazer todos os dias, narrando a epopeia que foi sua ida à Alemanha a convite do conde Anton-Wolfgang von Faber-Castell, ex-presidente da maior produtora de lápis do mundo, falecido em 2016. 

Sim, Emílio visitou a Alemanha ao lado da esposa, jantando com o conde no castelo da família Faber-Castell em Stein, perto de Nuremberg. Ele não sabia falar alemão. Não tinha muito ideia do que encontraria. Mas foi viver a aventura. Tudo por conta de sua coleção, cuja fama alcançou o outro lado do oceano. Voltou ao Uruguai com muitas histórias para contar e um lápis de platina dado de presente por Anton: “Fui o sexto a receber este lápis. O último havia sido dado a George Bush”. Está exposto. 

Depois da Alemanha, muitos outros países carimbaram o seu passaporte. Um deles o Brasil, durante a Copa do de 2014, quando foi escolhido para representar seu país ao lado de seus conterrâneos Luis Suárez e Loco Abreu. Dei o sorriso de quando a ficha cai.  

No início, me pareceu surreal que um “simples” lápis e a “simples” decisão de guardá-lo, e guardar o outro, e o outro, tenham o levado tão longe. Naquele instante, porém, percebi a dimensão da atitude daquela professora de 60 anos atrás. A dimensão de ser Emílio o escolhido ao lado de jogadores famosos de futebol.  

É que um lápis nunca será um “simples” lápis, não é mesmo? Porque é ele que dá vida aos nossos primeiros olhares sobre o mundo. É ele que registra sonhos, sentimentos, ideias, que permite memória inconteste de nossas individualidades e transformações. E ele pode, se educando, fazer com que tudo vá além das cores e das letras do papel. “Un lápiz, un papel y un niño pueden cambiar el mundo”. Estava escrito ali, no próprio museu. 

Saí com pensamento bobo. Será que um dia o garoto Emílio desenhou ele mesmo, já senhor de cabelos brancos, indo tão longe com sua coleção? Talvez. Mas, desde então, “numa folha qualquer eu desenho um navio de partida, com alguns bons amigos, bebendo de bem com a vida...”*

*Trecho da música Aquarela, de Toquinho, Maurizio Fabrizio, Guido Morra e Vinícius de Moraes.

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