Um novo paradigma para os maus modos

A visita do presidente dos Estados Unidos às terras britânicas estabeleceu um novo padrão internacional de falta de educação

Mr.Miles, O Estado de S.Paulo

24 Julho 2018 | 04h00

Engravatado (comprou gravatas na Dalmácia, em uma das paradas de seu veleiro no litoral da Croácia) e bem abastecido de vinho francês (comprou duas garrafas de Bordeaux para homenagear a vencedora da Copa do Mundo da Rússia e mostrar que não guarda rancores), nosso viajante e sua mascote comemoraram com um bom single malt (“afinal, o quarto lugar foi uma ótima colocação, don’t you agree?”) e seguiram Mediterrâneo afora. Eis a áspera correspondência da semana.

Mr. Miles, vamos conhecer a família dos sogros de nossa filha na Hungria. Como devemos nos comportar? 

Amélia e Carlos Henrique Soares, por e-mail

Well, my dears, diante do ocorrido nas últimas semanas, fica muito fácil mostrar que comportamento vocês devem adotar – e com exemplos. A visita do presidente dos Estados Unidos e de sua (infelicíssima, as we could see) esposa às terras britânicas estabeleceu um novo padrão internacional de falta de educação e decoro.

Não fosse nossa monarca nonagenária e tolerante, creio que o episódio poderia ter terminado com um sonoro tapa real na bochecha vermelha – assim como o cabelo e o pescoço – do líder norte-americano. Nossa Corte ficou chocada e, por menos importância que tenha, julgo relevante publicar alguns dos comentários que me foram feitos assim que – thank God! – os estultos convivas foram fazer suas ofensas em outras plagas.

“Trata-se, sem dúvida, do mais despreparado habitante de nossa ex-colônia de que jamais tive notícia”, disparou um lorde, chocado com o fato de que Trump nem sequer se inclinou para nossa soberana. In fact, a reverência (bowing) é um costume monárquico. However, assim como não se entra em uma residência japonesa usando galochas e não se presenteia uma família muçulmana com um presunto de Parma, em Roma há que se agir como os romanos. Don’t you agree?

“Acho que abriram a jaula de um animal desprovido de neurônios”, ironizou um conde amigo, que esperava, ao menos, a gentileza natural de um símio ao comportamento bizarro do slang president, que decidiu caminhar passos à frente de uma rainha, ainda por cima muito mais velha do que ele, obrigando-a à humilhação de segui-lo e contorná-lo para mostrar sua guarda. É claro que, em sua visita à Hungria (ou a qualquer outra pessoa), vocês não cometerão deselegâncias parecidas. Will you?

“Agora entendi porque Trump é bem-sucedido como construtor”, comentou-me uma baronesa que vive em Northumberland. “Construir seus próprios hotéis e cassinos é, probably, a única forma de ele conseguir ser convidado para qualquer tipo de evento”, atacou.

Como vocês podem ver, o contraditório presidente norte-americano estabeleceu um novo paradigma para a falta de educação.

On the other hand, eu não tenho a menor dúvida de que vocês serão muito bem recebidos na casa de seus futuros contraparentes na Hungria. Embora descendam de hunos, os húngaros são excelentes anfitriões, grandes cozinheiros e têm um tipo de calor humano muito similar ao dos povos latinos como o vosso. Ouso dizer que esse há de ter sido um dos motivos que levou vossa filha a escolher um deles como marido. Levem um presente simpático (evitem os desajeitados berimbaus, please), um sorriso franco e o jeitinho brasileiro para superar os percalços do idioma magiar. 

Preparem-se, as well, para comer muito (e muito bem). Húngaros são bons em doces, salgados, quentes e frios. São, as you see, gente de bem e de boa criação. Muito ao contrário do que se pode dizer daquele estranho sujeito que envergonha seu belo país. Don’t you agree?”

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