Um olhar pelo caleidoscópio

Giro o caleidoscópio de lembranças da viagem ao sul da Índia. Saris coloridos bailam na retina. Delicadas sedas voam nos verdes campos de arroz, turbantes rijos desfilam pastoreando cabras. Há flores nos cabelos, pescoços, calçadas. Suaves jasmins que se misturam à força dos sândalos e do curry. Odores que fisgam os sentidos. Especiarias que queimam a garganta e perfumam os mercados. Bazares multicolores de pétalas, joias e tilaks, o pigmento para o terceiro olho. Visões de templos amarelos, vermelhos, cinzas, e seus dançarinos e deuses de pedra. Há fogo e devoção. Há água, no rio que lava o corpo, a alma e as roupas. Há incenso e música. Os sons dos mantras e das buzinas misturados em franca melodia. E há sorrisos, centenas, que se multiplicam nos espelhos das memórias e me fazem sorrir.

ARYANE CARARO / BANGALORE, O Estado de S.Paulo

22 Novembro 2011 | 03h08

Cores, ruídos e sabores. O estado de Karnataka poderia ser definido assim. E nessa imensidão de conceitos ainda seria vago. Porque a Índia são as pessoas. E não entendê-la pelo seu povo é não se conectar com esse mundo antigo, belo e espiritual. É não absorver sua essência, que aparece primeiro nos olhos das crianças - pequenas jabuticabas a fitá-lo, que ora se aproximam tímidas, ora correndo. Algumas com celulares. Perguntam seu nome, sua origem. Querem ter seu retrato. Ao sinal de aprovação, chamam para a foto pais, tios, primos e avós, que logo o convidam para conhecer suas casas.

Mesmo que não dominem o inglês, e você não saiba kanadda ou hindi, usarão uma linguagem universal: o sorriso. Vão sorrir um sorriso largo e tão primitivo de quando não havia palavras para separar ou unir. É uma troca, das mais sinceras. Eles saem felizes, com a lembrança do estranho espécime ocidental. Você também, com mais uma imagem para seu caleidoscópio.

Talvez isso só seja possível numa região não muito globalizada e sem hordas de turistas estrangeiros como o norte, onde estão Nova Délhi e Agra (Taj Mahal). E por mais que Karnataka tenha 50 milhões de habitantes e sua capital, Bangalore, seja o Vale do Silício indiano, basta sair do miolo tecnológico para visualizar uma Índia mais rural, virgem e autêntica. Sem perder a atratividade.

Nela estão dois patrimônios da Unesco (Hampi e Pattadakal), templos e palácios ricamente adornados, persistem tradições culturais e religiosas bem peculiares, resistem reservas florestais e perfila-se um litoral de 320 quilômetros quase inexplorado. "Um Estado, muitos mundos", diz o slogan oficial. Faz jus.

E eu digo: um destino, duas viagens. Uma de paisagens e cenários, outra de peregrinação interior. Ir para a Índia é transformador. Na terra onde os homens sempre foram atrás de especiarias e joias, a melhor essência para se trazer de volta é a do ser humano, a sua e a do outro. É como dizem os hinduístas: o deus que está em mim reconhece e saúda o deus que está em você. Ou apenas, namaskar!

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