Tony Cenicola/The New York Times
Tony Cenicola/The New York Times

Um pedaço de Paris no Harlem nova-iorquino

Conhecido pela força da cultura negra e dos restaurantes de ‘soul food’, o bairro vem ganhando novos sabores com uma variedade de casas que servem clássicos da cozinha francesa

Joel Dreyfuss, The New York Times

02 Maio 2017 | 04h30

NOVA YORK  - O caso de amor do Harlem com a França é longo; muito antes da Renascença dos anos 20, artistas e músicos negros já viajavam para lá para ampliar seus horizontes artísticos ou fugir da opressão diária do racismo norte-americano.

O que não se comenta, porém, é que era um movimento de mão dupla, com turistas franceses visitando a região por causa do fascínio com o jazz, o gospel e a cultura negra, mesmo nos anos de criminalidade das décadas de 70 e 80.

Africanos francófonos ali se estabelecem e abrem negócios na West 116th Street e em torno dela desde os anos 80, com a região de Petit Senegal emprestando um ar internacional à rua, restaurantes franco-africanos e barraquinhas de legumes oferecendo produtos tropicais. Entretanto, desde a década de 90, uma pequena comunidade de expatriados franceses vem se formando para, inevitavelmente, abrir restaurantes.

Várias casas estão reunidas na região da West 125th Street e Malcolm X Boulevard, chamada Lenox Avenue pelos saudosistas e centro nervoso local; há também um solitário na esquina da St. Nicholas Avenue, que já abrigou um restaurante chinês perfeitamente esquecível.

A presença de pelo menos quatro estabelecimentos franceses no Harlem sugere, sob vários aspectos, a evolução de uma região que absorveu sucessivas ondas de imigrantes, incluindo a de agricultores holandeses, no século 17, que lhe deram o nome da Haarlem natal. Depois vieram os irlandeses e italianos em meados do século 19 e, no início do século 20, empresários e artistas judeus e negros fugindo da segregação do sul. Hoje são os membros da Geração Y mais abastados que gentrificaram essa parte da cidade.

A aceitação dos restaurateurs franceses sempre foi calorosa. “O Harlem parece uma cidade pequena onde cada vez mais se ouve o sotaque francês”, afirma Thierry Guizonne, dono do Chez Lucienne. A verdade é que o bairro tem em histórico de destino culinário, principalmente para soul food (comida do Sul dos EUA). E, agora, já é possível achar um coq au vin decente, ou um ótimo confit de canard.

Barawine Harlem

Não existem clichês nesse restaurante e wine bar na West 120th Street com o Malcolm X Boulevard. De propriedade de Fabrice Warin, a casa poderia ser um dos descolados bistrôs branchés (conectados) do 10º Arrondissement parisiense. Inaugurado em 2013 para oferecer jantar diariamente e brunch nos fins de semana, o Barawine atrai um público de jovens e idosos, negros e brancos, moradores, turistas e quem vem dos subúrbios querendo conferir o “novo Harlem”. O clima é elegante e descolado, com DJ tocando rap, hip-hop e soul no brunch de domingo e apresentações ao vivo de jazz nas noites de terça e domingo. Os funcionários, multirraciais e francófonos, são simpáticos. Oferece o menu francês tradicional, incluindo mexilhões e steak tartare. Os vinhos começam em US$ 9 (copo) e os pratos principais, em US$17.

Chéri

No meio de um quarteirão do Malcolm X Boulevard, entre a West 121st e 122nd, o Chéri está escondido no meio de uma fileira de construções marrons bem conservadas, em um trecho que preserva bem a grandeza do antigo Harlem. Uma vez que as igrejas e os prediozinhos dominam essa parte da avenida, ao contrário dos arranha-céus monótonos mais ao norte, pode-se aproveitar muito mais a amplidão das calçadas.

O Chéri está logo ali, no subsolo de uma dessas estruturas antigas, com um clima casual e refinado. “Eu queria que o público se sentisse na minha sala”, diz Alain Eoche, 57 anos, um homem energético que mora dois andares acima do restaurante. Ele abriu a casa há três anos – o cardápio inclui um hambúrguer de cordeiro merguez e sua versão vegetariana, algo difícil de encontrar na França. As entradas começam em US$9 e os pratos principais, em US$19. Eoche cozinha quase tudo sozinho, incluindo o prato do dia, e a comida obviamente se beneficia da atenção pessoal, pois é autêntica e saborosa. “Você está em Nova York, mas ao mesmo tempo não está. Esse clima de cidade pequena faz com que os imigrantes se sintam mais à vontade.”

Chez Lucienne

É entre a West 125th e a 126th que fica a grand-mère de todas as casas: o Chez Lucienne, inaugurada em 2008, dois anos antes de o Red Rooster ser aberto ali ao lado. Comandado então pelo francês Alain Chevreux, ganhou o nome de sua mãe. Entretanto, o restaurante mudou de dono em 2015 e hoje pertence a Thierry Guizonne, nativo da ilha caribenha de Guadalupe, que tinha um sushi bar no subúrbio parisiense antes de se mudar para Nova York. Em seu cardápio, constam clássicos como sopa de cebola, steak-frites e um cassoulet que não deixa nada a dever ao que o restaurante do meu bairro, em Paris, prepara. No jantar, os pratos principais começam em US$ 20. Nos dias de sol, a área externa fica animada – dali, dá para ver os famosos que entram e saem do Red Rooster.

Maison Harlem

Mais distante do “núcleo francês”, a casa, na esquina da West 127th Street com a St. Nicholas Avenue, atrai uma clientela economicamente mais diversificada que os outros três: de trabalhadores negros e latinos a executivos e hipsters bem-vestidos, oferecendo um clima que lembra um bistrô de bairro de uma das regiões mais áridas de Paris, como Belleville, no 20º Arrondissement. Aberto há quatro anos, foi a solução para uma necessidade pessoal. “Eu morava em um prédio no Harlem e não havia nada à volta, nem um lugar onde tomar uma taça de vinho”, conta o dono, Samuel Thiam. Ali há pratos norte-africanos, incluindo o sanduíche de linguiça merguez no almoço. No jantar, as entradas custam de US$ 9 a US$ 20; os pratos principais, de US$ 14 a US$ 32. Recentemente, ele criou um cardápio para o bar que inclui mini sanduíches (sliders) e ostras. 

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