Daniel Rodrigues/NYT
Planejando algumas visitas, é possível conhecer bem a cidade em 48 horas e com flexibilidade Daniel Rodrigues/NYT

Planejando algumas visitas, é possível conhecer bem a cidade em 48 horas e com flexibilidade

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Um roteiro de 48 horas no Porto, em Portugal

Compacta, charmosa e cheia de atrativos, a cidade pode ser explorada em um fim de semana – se tiver mais tempo, melhor ainda

Heitor Reali e Silvia Reali , Especiais para O Estado de S. Paulo

Atualizado

Planejando algumas visitas, é possível conhecer bem a cidade em 48 horas e com flexibilidade

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PORTO  - A visão aérea da Ponte da Arrábida semiencoberta por névoa dourada já era suficiente para justificar a viagem. Mas a razão principal de ter escolhido Porto, Portugal, para um stopover de 48 horas, foi a frase de José Saramago sobre outro escritor português: “Almeida Garret, mestre dos viajantes”. E eu encasquetei em conhecer a cidade onde nasceu Garret, autor de obras como Viagens na Minha Terra, do século 19.

À beira do Rio Douro e com apenas 41 quilômetros quadrados, o Porto cabe perfeitamente em um fim de semana. Com voos diretos de São Paulo pela TAP, é possível ainda aproveitar a conexão na ida e na volta para curtir um pouco da cidade.

Antes de tudo, devo deixar claro: não curto horários fixos, os assinalados servem apenas para inspirar seu roteiro, nada de guias turísticos e fujo das indicações imperdíveis. A viagem para mim segue conforme a inspiração, a curiosidade sobre o que li, o que me interessou, ou mesmo considerar algumas dicas dos próprios portuenses. E aí faço meu roteiro-jogo, um desafio entre o lugar e o viajante. Dei os meus lances a seguir.

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SAIBA MAIS

Aéreo: a TAP tem voos diretos entre São Paulo e a cidade do Porto por a partir de R$ 3.884,99, com direito a stopover gratuito de até cinco noites (é importante reservar a parada no momento da compra da passagem). A Latam tem voos diretos para Lisboa desde R$ 5.172,96, ida e volta.

Trem: a rede de trens em Portugal é bastante eficiente. É possível viajar de Lisboa para o Porto em cerca de 4h, com a vantagem de embarcar e desembarcar no centro das cidades. Há passagens a partir de 25 euros (R$ 109) na Comboios de Portugal.

Site: visitportugalcom

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Dia 1

Cais, biblioteca mercearia, gastronomia e muita história para sentir a alma da cidade

Silvia Reali e Heitor Reali, O Estado de S. Paulo

18 de junho de 2019 | 04h20

8h00 - Do Cais a Harry Potter

Nada como acordar com uma vista que revela a natureza do Porto e a luz ainda tímida que começa a dourar o Rio Douro. O Vila Galé Porto Ribeira é um hotel-butique que aproveitou quatro casas de pescadores já existentes no Cais das Pedras para construir um espaço elegante, mantendo as fachadas das antigas residências. 

Depois do café da manhã, saímos em direção à Livraria Lello, construída há mais de cem anos. Em estilo gótico português, é considerada das mais belas do mundo e aguçou a imaginação da escritora J. K. Rowling, assídua frequentadora do local durante os dois anos em que morou no Porto. A escadaria da Lello, um triunfo do art nouveau (movimento que dá ênfase a fantasia vertiginosa das espirais), a levou a criar a escada que se move na Escola de Magia de Hogwarts, na série Harry Potter.

10h40 - Na peculiar Pérola do Bolhão

Em busca de lojinhas do centro histórico, me deparei com a mercearia A Pérola do Bolhão (Rua Formosa, 279), uma bolha de bom gosto para gourmands. Fundada há mais de cem anos, com bela fachada de azulejos que reproduz duas figuras orientais, seria hoje apenas mais um museuzinho não fossem os clientes que pela qualidade dos produtos e atendimento ali retornam diariamente. Embutidos artesanais, bacalhau, vinho do porto, queijos e a excelente orelheira fumada atraem compradores até de outros países.

11h30 - Visitando os clássicos

Por quem os sinos dobram no Porto? Ah! Que bela surpresa. Nesse espaço eles tocam anunciando que uma nova fornada de pastel de nata acaba de sair com três tons: moreno, claro e tostado. Uma marca de tradição de Portugal, a Manteigaria (doces), se uniu ao contemporâneo café Delta Q num único espaço, quase ao lado do Mercado do Bolhão. Percebi que ali o pastel difere do de Belém no recheio, um pouco mais cremoso. E, como me disseram, “cá no Porto não se polvilha canela”.

12h40  - Perfumes com cheiro de antigamente 

Casa consagrada do Porto, desde 1887, a Claus é dedicada à perfumaria de luxo. Fica na Rua das Flores, via histórica repleta de lojas e restaurantes charmosos. Perca-se entre sabonetes, aromatizadores de ambiente e perfumes à base de sândalo, bergamota, alfazema, cravo, jasmim e fragrâncias raras. O mostruário sugere mais uma loja de doces ou chocolates, mas a gama dos aromas é atrativa, e foi impossível não sair de lá sem uma loção de barba e sabonetes – a caixa com oito custa 60 euros (R$ 260).

13h30 - Francesinha no almoço

“Você não pode sair do Porto sem comer uma francesinha”, é o que todos dizem. O sanduíche, original da cidade, parece uma adaptação do croque-monsieur francês. Trata-se de uma bomba energética de 1.200 calorias: duas fatias de pão intercaladas com linguiça, bife, salsicha e fiambre, gratinadas com queijo e com um ovo estalado no topo. Há variações com frango, salame e outros embutidos. Comi o meu na Cervejaria Brasão (em média, 6,50 euros ou R$ 28). Para finalizar, pudim do Abade de Priscos, um aveludado ex-libris da doçaria portuguesa. Acompanhe o doce com uma cerveja amarga Ipa, artesanal; brasao.pt.

15h15 - Cais e Ribeira

Nesta caminhada, tinha de um lado, o Douro. De outro, a arquitetura medieval, com a Praça da Ribeira outros cartões-postais dos séculos 17 a 19. À frente, a monumental ponte metálica Luís I, e o movimento de entra e sai das tabernas instaladas nas reentrâncias da muralha. Mas foi um baixo-relevo em bronze – as Alminhas da Ponte, do escultor Teixeira Lopes, que me chamou a atenção. Trata-se de uma homenagem aos que morreram durante a invasão do Porto pelas tropas francesas a mando de Napoleão. Com o sol na cara e a alegria escancarada, paro para ouvir um artista ou para xeretar os antigos barcos rabelos, aqueles que ziguezagueavam pelo rio transportando tonéis do vinho do Porto. Hoje ancorados, não singram mais o Douro e mereciam dias melhores. Por falar em vinho, as caves estão do outro lado do rio, em Vila Nova de Gaia. Ou seja, o vinho do Porto não é do Porto...

20h30 - Jantar longe do centro

Depois de curtir o Cais, buscava algo diferente para o jantar. Alexandra Freitas, da Visit Porto & the North, indicou a Casa da Guripa, na praia de Angeiras, a 30 minutos do centro. Deliciosamente plantada à beira-mar, entre coloridas casinhas de pescadores, sargaços e maresia, o restaurante foi um achado. Sob o comando dos proprietários, Manoela, ela filha do mar, e do marido, filho de pescadores, a filosofia gastronômica da casa preconiza o consumo de ingredientes do mar ou da terra, mas com um caldo de cultura. A sugestão da casa foi um presente: da família dos moluscos veio um lingueirão à bulhão pato no vinho branco com coentro. Para acompanhar, sangria de frutas vermelhas com vinho verde espumante. Espere gastar cerca de 20 euros (R$ 87) por pessoa.

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Dia 2

Entre as atrações imperdíveis está a Estação São Bento, recomendação de morador; faça também um roteiro artístico

Silvia e Heitor Reali, Especiais para O Estado de S. Paulo

18 de junho de 2019 | 04h20

​O tempo voa e eu também voaria no começo da noite, por isso era preciso se apressar. Meu objetivo no segundo dia era conhecer a cidade do Porto que se preocupa em botar os pés no tempo presente. 

10h00 - Estação São Bento

Perguntei ao motorista Sergio, que nos acompanhava: “Se tivesse um único lugar como referência nessa cidade, onde me levaria?”. A resposta veio de bate-pronto: “Estação São Bento”. E, ele tinha sim, suas boas razões. Construída no antigo Convento de São Bento de Ave-Maria, um espaçoso átrio abre as vistas para painéis ornados com mais de 20 mil azulejos pintados por Jorge Colaço, que retratam os acontecimentos da história e da vida portuguesa. 

11h00 - Terminal de Passageiros do Porto de Leixões

Inaugurado em 2011, o cais de onde partem navios de cruzeiro se tornou um ícone arquitetônico. Projetado por Luís Pedro Silva, se integra de forma convincente à paisagem. De imediato me fez pensar num grande rolo de fitas sendo desenrolado, em que cada ponta se torna um braço criando outros espaços aquáticos. 

A presença dos raios de sol que entram pelas enormes janelas e distribuem a luminosidade sobre o revestimento de azulejos brancos lembram escamas de peixe. Estes reluzindo com a iluminação solar criam um caos visual que se funde com a luz incidente nas águas do Atlântico, e me davam a ideia de estar na superfície da água.

13h00 - Arte Contemporânea

A Casa de Serralves, belo exemplar da arquitetura art décor, com jardins desenhados pelo francês Jacques Gréber, e o Museu de Arte Contemporânea, projetado pelo portuense Álvaro Siza, fazem dessa Fundação um centro de arte que rivaliza em importância com a Fundação Calouste Gulbenkian, de Lisboa. Sorte de Portugal ter instituições que, pela qualidade do acervo e da sua programação, se dedicam ao enriquecimento cultural de seus visitantes.

A coleção de Serralves acolhe mais de 4.200 artistas renomados internacionalmente, como Richard Serra, Anselm Kiefer ou Bruce Nauman, e de portugueses, entre eles, Pedro Cabrita, Lourdes Castro, Paula Rego. Site: serralves.pt.

17h00 - Emoções sonoras 

Será que o arquiteto holandês Rem Koolhaas se inspirou numa gigantesca caixa de som para desenhar a Casa da Música? O que me impressiona nesse arquiteto é sua diversidade. Ele pertence a uma linhagem rara daqueles que aceitam ser contratados para desenhar um banheiro público, ponto de ônibus ou megaprojetos, como a Biblioteca Central de Seattle (EUA) ou ainda essa espetacular obra. No decorrer da visita, pude observar a monumentalidade de seu interior com vários espaços musicais, e que tem como característica principal “a continuidade visual que se estabelece não só entre o interior e exterior. Uma relação de mistério que provoca os sentidos, uma sensação de caixa de surpresas que acompanha o percurso do início ao fim”, como o folheto a descreve. 

Dali, minha parada seguinte seria o aeroporto. E se cheguei aqui por uma frase de Saramago, deixo a cidade com outra: “É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta logo”.

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