Marcelo Lima/Estadão
Região da Toscana combina clima e geografia aprazíveis e os bons vinhos chianti Marcelo Lima/Estadão

Um roteiro em meio ao sol e aos vinhedos da Toscana, na Itália

Poucas regiões da Europa são capazes de oferecer uma combinação tão afinada de geografia e clima aprazíveis, patrimônio artístico a perder de vista e gastronomia inigualável - incluindo ótimos vinhos

Marcelo Lima , O Estado de S. Paulo

03 de novembro de 2019 | 09h00

FLORENÇA - Se, de fato, todos os caminhos levam à Roma, não é menos verdade que sempre existirão boas razões para dar uma paradinha estratégica na Toscana. Localizada física e simbolicamente no coração da Itália, a região da Europa é uma das poucas capazes de oferecer uma combinação tão afinada de geografia e clima aprazíveis, patrimônio artístico a perder de vista e gastronomia inigualável. Principalmente quando acompanhada de um bom e velho chianti, vinho que é quase uma unanimidade nacional.    

Acalentada há tempos, minha mais recente incursão pelas terras de Dante Alighieri, entre tantos outros italianos ilustres, se deu em abril deste ano, no comecinho da primavera. Época de céu claro e temperaturas amenas, em torno dos 22°, capazes de tornar qualquer passeio ao ar livre ainda mais convidativo e qualquer inevitável fila de espera, um pouco mais tolerável. Especialmente no meu caso, que vinha de uma semana de trabalho intenso na vizinha, ao menos para padrões brasileiros, Milão.  

Durou apenas três dias, mas fez meu coração bater forte. Tanto quanto há 20 anos, quando no auge da minha fase de mochileiro, visitei pela primeira vez a Toscana. Trago de lá a memória da luminosidade única, quase irreal, que emana de suas muitas colinas. A sensação do vento fresco batendo no rosto, a cada passeio por entre vales cobertos de videiras (e flores). A lembrança de um contato mais íntimo, ainda que breve, com algumas das mais caras e cultuadas tradições italianas: a arte e a vinicultura.  

Como acontece com nove entre dez roteiros que percorrem a região, Florença foi a cidade por nós escolhida como base. Sonhando com brindes ao pôr do sol – e, ao mesmo tempo, interessados em driblar a alta concentração de turistas em visita aos principais monumentos e museus –, optamos por reservar as manhãs para conhecer o patrimônio artístico da cidade, deixando as tardes para explorar as vinícolas da região. 

Partindo da capital do Renascimento é possível se atingir, de carro, em menos de duas horas, cidades do porte de Siena e Arezzo. Conhecer a Torre de Pisa, as muralhas de San Gimignano, a medieval Volterra. Amantes do vinho, como eu, também não têm do que se queixar: as regiões produtoras do Chianti, Montalcino e Montepulciano estão a poucos quilômetros uma da outra. Isso sem considerar as pequenas cidades que vão surgindo ao longo do caminho e que, muitas vezes, nem sequer constam dos mapas turísticos, mas valem a parada. 

Tudo vai depender de seus interesses e disponibilidade. Com uma excelente infraestrutura turística, na região central de Florença é possível encontrar agências como a Florence Tours, que oferecem tours totalmente customizados em termos de duração, atrações e meio de locomoção, inclusive para outras regiões. Por lá, além de alugar um carro (nossa opção de transporte), pegar um ônibus de excursão ou integrar um grupo de ciclistas, trechos da cidade e de seus arredores podem ser percorridos, por exemplo, a bordo de uma italianíssima Vespa - o tour pode ser realizado com ou sem motorista por, respectivamente, 100 e 75 euros. 

Não que nossa estratégia não tenha sido bem sucedida. Ver o sol desaparecer em meio a um mar de colinas é, de fato, uma experiência da non dimenticare (ou inesquecível, como dizem os italianos). Assim como o fluxo de turistas nas primeiras horas em torno de áreas como a Piazza della Signoria e a Catedral de  Santa Maria del Fiore é consideravelmente menor do que ao longo do dia. Mas, de qualquer forma, longe de ser a única, foi a nossa experiência. Cabe a você descobrir a sua.

SAIBA MAIS

Aéreo: todos os voos para Florença fazem pelo menos uma escala em alguma cidade da Europa. No total, são cerca de 15 horas de viagem. Há voos desde R$ 2.836, pela Air France, com parada no aeroporto Charles De Gaulle (Paris). 

 

Melhor época: visitar Florença e suas proximidades na primavera é o ideal para quem quer aproveitar a paisagem, que fica muito mais florida, e a temperatura é amena. No verão, o grande número de visitantes e o calor podem se tornar um problema, especialmente para visitar as vinícolas, que ficam lotadas.

 

Moeda: 1 euro equivale a cerca de 5 reais. Cartões de crédito são amplamente aceitos na região.

 

Transporte: para conhecer as vinícolas e outras cidades próximas de Florença, como Greve de Chianti, o ideal é alugar um carro. Pela Europcar, há opções que custam desde 25 euros por dia. Também é preciso portar uma Permissão Internacional para Dirigir (PID), que pode ser obtida no Detran de sua cidade ou Estado.

 

Tours: agências como a Florence Tours oferecem diversos pacotes para quem tem pouco tempo no destino.

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Florença, um museu a céu aberto

Entre os mais famosos destinos italianos, esse é o mais fácil de ser explorado: suas principais atrações podem ser percorridas a pé

Marcelo Lima, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2019 | 08h50

Comparada a suas rivais imediatas, Roma e Veneza, Florença é, de longe, entre os destinos clássicos italianos, o mais fácil de ser explorado. Concentradas a poucas quadras umas das outras, suas principais atrações podem ser percorridas a pé, o que possibilita uma visão abrangente de seu patrimônio artístico e arquitetônico, mesmo para o visitante que não dispõe de tanto tempo ou que toma a cidade como base para pequenas viagens de bate-volta pelas vinícolas da Toscana

Nosso giro por lá durou apenas dois dias e fixamos nossa base em uma área menos visada, mas próxima ao centro histórico. A exploração começou com uma visita à Catedral de Santa Maria del Fiore. Sua construção data de 1296 e o edifício domina a paisagem local. A cúpula, ou duomo, desenhada por Filippo Brunelleschi, pode ser avistada de praticamente qualquer ponto da cidade. 

Por fora, a igreja tem uma belíssima fachada decorada por placas de mármore verde, branco e rosa, além de portões de bronze adornados com esculturas em relevo que retratam cenas da vida de Maria, mãe de Jesus. Apesar de menos monumental, o interior da basílica também merece ser visitado, principalmente por causa de seus afrescos, produzidos por Giorgio Vasari e Federico Zuccari, e dos vitrais que levam a assinatura de grandes nomes do Renascimento, como Paolo Ucello e Donatello. 

A entrada na catedral é gratuita, mas o bilhete de 42 euros, válido por 72 horas, que adquirimos pela internet (duomo-florence.com) nos permitiu subir até sua cúpula, com vista estonteante, além de conhecer todas as atrações do complexo, incluindo o Batistério de San Giovanni, a Cripta de Santa Reparata e o Campanário de Giotto. 

Continuando nosso roteiro, na Via dei Calzaiuoli, 65, uma parada estratégica nos proporciona um daqueles pequenos prazeres que fazem cada dia de sol na Itália parecer ainda mais especial: um copinho de gelato, com dois sabores, chocolate com menta, da Venchi (3,50 euros cada). Depois, desembocamos na Piazza della Signoria para presenciar um momento único: o dramático jogo de luz e sombras, gerado pelo sol a pino,  por sobre o conjunto de esculturas da Loggia del Lanzi. 

Literalmente um museu ao ar livre, logo à frente do Palazzo Vecchio, a sede da prefeitura local, onde esculturas referenciais como o Perseu com a cabeça da Medusa, de Cellini, dividem o espaço público com obras do porte de uma Fontanna di Nettuno, de Ammannati, e uma das réplicas do Davi, de Michelangelo, espalhadas pela cidade. A segunda fica na praça que leva o nome do artista, do outro lado do Rio Arno.  

Conforme o planejado, de lá, só nos restava seguir para um dos grandes museus de Florença, a Galleria dell’Accademia, lar do autêntico Davi. Logo na entrada, a primeira constatação: é mais que recomendável comprar ingressos online (20 euros; accademia-tickets.com) para não ter de passar horas amargando na fila.

O museu é relativamente pequeno e pode ser percorrido, com calma, em duas horas. Inclui muitas obras-primas, mas, fundamentalmente, nada em seu interior ofusca o brilho magnético que emana da monumental escultura talhada em mármore por Michelangelo. E foi com a imagem dela, em uma espécie de grand finale, que resolvemos dar por encerrado nosso primeiro dia de visita à capital do Renascimento. 

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De volta à Renascença

Cereja do bolo de um roteiro pela cidade, espaço reúne o mais importante acervo de arte renascentista do mundo, com obras de Michelangelo, Botticelli, Ticiano e Caravaggio

Marcelo Lima, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2019 | 08h50

O segundo dia começou cedo com um passeio pelas margens do Arno, rio que divide Florença em duas e sobre o qual se situa a pitoresca Ponte Vecchio. Por certo, a mais fotografada da cidade e a única remanescente da Idade Média. Habitada e repleta de lojinhas, sobretudo joalherias, nos seus dois lados, a ponte é o lugar ideal para um passeio nas primeiras horas da manhã, quando o calor e o vai e vem de turistas são menos intensos e fica bem mais fácil sacar uma, inevitável, selfie. 

Espécie de cereja do bolo de nosso roteiro, a poucos passos dali, nossa próxima parada, a Galleria degli Uffizi, concentra nada menos que o mais importante acervo de arte renascentista do mundo, incluindo obras-primas do porte de O Nascimento de Vênus, de Botticelli, e A Sagrada Família, de Michelangelo, além de coleções completas de mestres da pintura toscana como Ticiano e Caravaggio. Ocupando um edifício histórico, projetado por Giorgio Vassari, trata-se de um museu de grandes dimensões.  

Apesar de bem organizado, por período histórico e artista, percorrê-lo em sua totalidade não leva menos de quatro horas. Assim, dada nossa agenda apertada, nos adiantamos e já compramos os ingressos no site uffizi-tickets.org. Pelo serviço, é cobrada uma taxa de 4 euros – ficando 24 euros no total –, mas é aquele tipo de despesa que compensa. Sobretudo porque, uma vez livre de filas, se pode aproveitar a visita com mais tranquilidade.

No caso, entramos por volta das 9h30 e lá permanecemos até o meio-dia. Pudemos conferir as joias da coleção e ainda descobrir alguns tesouros menos visados, como os quadros barrocos de Caravaggio. Claro, um conhecedor de arte ou curioso pode ficar horas lá dentro sem sequer ver as horas passarem. Para nós, no entanto, pareceu tempo suficiente. Até porque precisávamos da tarde para conhecer os vinhos da Toscana.

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Vinho e arquitetura em harmonia

Vinícola é uma das mais respeitadas da Itália e produz a estrela supertoscana Chianti Classico

Marcelo Lima, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2019 | 08h50

O arquiteto Oscar Niemeyer costumava dizer que, para ser boa, a arquitetura deveria provocar surpresa. A frase veio instantaneamente à minha cabeça assim que chegamos ao estacionamento da Vinícola Antinori (Via Cassia per Siena, 133, situada no vilarejo de Bargino, a cerca de 30 quilômetros de Florença). Afinal, me deparar com um pátio de estacionamento subterrâneo, frio e soturno, tendo como uma única entrada de luz o vão de uma grande escada helicoidal ao centro, não era exatamente o que eu poderia esperar de uma das vinícolas mais conceituadas de toda Itália

Mas bastou que a portas do elevador de acesso ao primeiro plano se abrissem – é possível subir pela escada também – para que o impressionante edifício subitamente se revelasse. De fato, visto ao longe, de sua pequena estrada de acesso, é difícil ter noção do tamanho e da complexidade da construção. Uma ampla marquise de concreto, que tem seu traçado curvo reproduzido também no piso, foi nosso primeiro ponto de parada. Lá, enquanto avistávamos os vinhedos logo à frente e as instalações administrativas da vinícola ao fundo, ficamos conhecendo melhor o projeto e seu objetivo primordial que era de se diluir na paisagem toscana, tornando-se invisível.

Projetado em 2005 pelo arquiteto florentino Marco Casamonti, do escritório Archea Associati Studio, o edifício só foi concluído em 2012, após seis anos de obras, e foi construído quase que totalmente debaixo da terra, a um custo estimado de mais de 80 milhões de euros. “A ideia foi acompanhar o traçado das colinas, não se impor a elas. Por outro lado, isso não deixa de ser funcional, uma vez que o vinho pode ser produzido e conservado em caves subterrâneas, usando refrigeração natural”, conta a arquiteta Lara Tonnicchi, do Archea Associati, que nos acompanhou na visita. “A própria coloração terracota da obra ajudou na tarefa de disfarçar a obra. Além do ferro oxidado, parte da terra retirada para a implantação do edifício foi usada como matéria-prima na confecção do concreto da construção”, revela ela. 

Na sequência, ao adentrarmos a sede administrativa, teve início nossa visita à vinícola propriamente dita, com um giro pelo depósito das barricas de carvalho, com seu teto em formato de arco e suas paredes cobertas de tijolos de terracota, encaixados, um a um, em uma estrutura de ferro. Como ele se encontra 18 metros abaixo do nível do solo, a temperatura é naturalmente baixa, dispensando refrigeração artificial. Em seguida, conhecemos o setor dos tanques metálicos de fermentação e, de lá, antes de dar início à degustação de alguns dos principais vinhos da casa, partimos para uma pequena visita ao museu e à biblioteca da Antinori.

Logo na entrada, uma tela com a árvore genealógica da família, do século 16 e pintada a óleo, atesta que a família Antinori está instalada na região há mais de 600 anos. Giovanni di Piero, o primeiro deles, em 1385 já se ocupava de transformar uva em vinho. De lá para cá, se sucederam 26 gerações. “A última delas, com Piero Antinori à frente, foi responsável pela construção das atuais instalações”, explicou Lara, enquanto nos mostrava outra raridade: uma prensa de vinho usada no século 19, desenhada na escola de Leonardo da Vinci, e recuperada pelos Antinori. Ao lado dela, em meio a obras de arte de várias épocas, um rico acervo de livros e documentos atestava a vocação vinícola do clã ao longo dos séculos. 

Supertoscanos

As estrelas da vinícola são os supertoscanos, vinhos tintos do Chianti Classico que não respeitam as regras de elaboração dos vinhos da região. Quem começou a produção dessas bebidas foi o visionário marquês Piero Antinori. O primeiro rótulo era uma mistura da uva símbolo da Toscana, a sangiovese, com cepas francesas (proibidas na região) como a cabernet sauvignon e cabernet franc. Mesmo com a qualidade superior, ele perdeu o direito à classificação Chianti Classico e seu produto foi rebaixado à categoria de vino da tavola (vinho de mesa). Por outro lado, em pouco tempo seu vinho foi reconhecido em todo mundo como uma bebida excepcional. Nascia assim o primeiro supertoscano, o Tignanello.

Provando os supertoscanos

Uma vez dentro da Antinori, era impossível não aproveitar a oportunidade de conhecer os famosos e desejados vinhos produzidos por lá. A vinícola oferece vários tipos de degustação (que podem ser agendadas pelo site antinori.it) de acordo com a quantidade e qualidade dos rótulos servidos.

A modalidade indicada para iniciantes inclui três vinhos e custa 32 euros por pessoa; para experts, há uma modalidade com sete grandes vinhos, 2h30 de degustação e número de participantes restrito a 10 pessoas (160 euros).

No nosso caso, escolhemos a opção para iniciantes, que inclui dois supertoscanos: o Tignanello, claro, justamente o rótulo que mais me agradou, e o Solaia. Um legítimo chianti, o Marchese Antinori Chianti Classico Riserva 2011, também fez parte da seleção. 

De volta à marquise, e com o sol já a pino, pegamos a escada e seguimos rumo à cobertura para, na última etapa de nossa visita, conhecer as instalações onde as uvas são recepcionadas e os cachos macerados.

Com o avançar das horas, porém, o restaurante da vinícola, o Rinuccio 1180, logo ao lado e com diversas mesas ao ar livre posicionadas de frente para os vinhedos, já havia se transformado no foco principal de toda nossa atenção. 

Uma vez instalados, para bem acompanhar um Villa Antinori branco, um corte de trebbiano com chardonnay (5 euros, a taça), refrescante na medida, resolvemos abrir mão de clássicos da culinária local, como a famosa Bisteca à Fiorentina com feijão e espinafre (18 euros).

Optamos por um menu mais leve, construído com base em queijo pecorino e vegetais. De entrada, salada de pera e nozes. Como prato principal, ravióli alho e óleo, acompanhado de purê de abóbora amarela (respectivamente, 10 e 12 euros). Uma escolha, diga-se de passagem, que não poderia ter sido mais bem sucedida para encerrarmos nosso dia sob o sol da Toscana.

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Tarde de primavera na Toscana

Situada entre Siena, Arezzo e Pisa, região é uma das áreas produtoras de vinho mais nobres da Itália; confira onde degustar os melhores vinhos

Marcelo Lima, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2019 | 08h50

Com um almoço substancial, composto por uma tábua de salames (16 euros) e outra de queijos pecorino (9 euros), acompanhadas, naturalmente, de pão e vinho tinto da casa (4 euros a taça), a Antica Macelleria Falorni (Piazza Giacomo Matteotti, 66), na pequenina, mas acolhedora, Greve in Chianti, a 45 minutos de Florença, foi nossa porta de entrada para a zona do chianti clássico: uma das áreas produtoras de vinho mais nobres da Itália, situada entre as cidades de Florença, Siena, Arezzo e Pisa, que produz vinhos desde a época dos etruscos, mas que foi oficialmente demarcada apenas em 1716. 

Autóctone da Toscana, a sangiovese é a uva que predomina nos vinhos da região. Inclusive, é a partir de sua concentração em relação a outras cepas, sobretudo a merlot e a cabernet, que os vinhos se dividem, grosso modo, em chianti, aqueles com no mínimo 70% da uva, e chianti clássicos, com ao menos 80%. Mas existem outras subdivisões em função do tempo de envelhecimento. De qualquer forma, o jeito mais simples e fácil de reconhecer se um vinho é de fato um chianti clássico é procurar na garrafa o selo do gallo nero (galo negro). Segundo os locais, a escolha da ave-símbolo tem a ver com uma antiga lenda sobre animais usados para resolver conflitos em divisões de terra.

Os chianti definitivamente parecem ter nascido para acompanhar comida italiana. Encorpados e elegantes, eles se harmonizam bem com queijos, salames, carnes e massas acompanhadas por molhos à base de tomate. Não por acaso, alguns dos ingredientes típicos da culinária toscana. 

Situada a cerca de 20 minutos de Greve in Chianti, nossa primeira parada, a vinícola Tenuta del Palagio (Via Campoli, 104, em Mercatale Val di Pesa) produz vinhos há mais de 200 anos. Acompanhada de queijo pecorino, bolachas e azeite de oliva produzido no local, nossa degustação por lá (14 euros por pessoa) envolveu 5 tipos diferentes de vinho dos 15 rótulos em produção, 12 deles chianti clássicos. Com 95% de sangiovese e envelhecido 12 anos em barril de carvalho, a versão reserva da casa se impôs pela robustez. Muito embora um despretensioso Pinot Grigio 2017, servido na entrada, não tenha decepcionado, sobretudo pelo seu frescor em uma tarde quente. 

Com um passeio pela propriedade, que reluzia ao sol, e uma breve passagem pela cave, demos por encerrada nossa visita e, mapa em punho, partimos rumo à Tenuta Riseccoli (Via Convertoie, Greve in Chianti). Trata-se de uma típica cantina italiana, repleta de flores, onde fomos muito bem recebidos e degustamos três vinhos. O melhor deles um chianti clássico, obtido pela mistura de Sangiovese (85%) com merlot e cabernet sauvignon (15%). Além de provarmos o azeite extravirgem que é feito no local, aproveitamos a ocasião para abastecer nossa adega particular, adquirindo três garrafas do nosso vinho favorito, por 13 euros cada. 

De volta para o hotel, nosso trajeto durou quase duas horas. Poderia ter sido feito em uma, mas foi o tempo necessário para nos proporcionar o pôr do sol que tanto imaginávamos, além de uma parada não programada: o Cemitério e Memorial Americano de Florença (Via Cassia, 50023 Tavarnuzze, Impruneta). Uma ampla área de sepultamento, outrora campo de batalha, onde milhares de soldados norte-americanos perderam suas vidas durante a Segunda Guerra Mundial.

Logo à entrada, um painel informa que nada menos que 4.402 lápides estão dispostas ali, em curvas simétricas ao longo da colina. Uma visão um tanto quanto desconcertante, sobretudo em face da serenidade da paisagem, mas que, assim como os momentos de glória, não pode ser dissociada da história recente da Toscana. 

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