Um roteiro para viajar com vento no rosto

Um roteiro para viajar com vento no rosto

Ganhar a estrada de moto é fazer parte da paisagem. Para os iniciantes, a dica é começar por São Paulo e suas rodovias bem conservadas, até chegar às difíceis curvas paranaenses

Natália Cacioli, Especial para O Estado de S.Paulo

09 Dezembro 2014 | 02h06

"Dizem por aí que quando a gente viaja de carro, só vê a paisagem. Mas quando viaja de moto, faz parte dela." Ouvi a frase de um garçom, em um restaurantezinho na cidade de Holambra, a 135 quilômetros de São Paulo, onde cheguei despenteada e calorenta em uma das minhas primeiras viagens de moto.

Ele está certo. De moto, dá para sentir o exato momento em que a temperatura cai na serra para Campos do Jordão. Ou quão insuportável pode ser o calor de Piracicaba. Mas sobretudo, não causa aquela sensação de que o percurso da ida é maior do que o da volta, porque o caminho passa a ser mais interessante que o destino em si.

Desde essa viagem para Holambra, o hodômetro da moto rodou bastante. E chegou um momento em que São Paulo pareceu pequena. O Estado tem ótimos roteiros e boa parte das estradas estão em boas condições, mas é muito divertido ter mais quilômetros para contar. Selecionamos aqui roteiros que encaixam tanto para o bate-volta do domingo como em uma viagem de férias, divididos por dificuldade e distância a partir de São Paulo.

Uma maneira de os iniciantes ganharem experiência suficiente até se aventurar em percursos mais longos. Antes de ganhar a estrada, não esqueça de fazer manutenção preventiva e checar fluidos de freio, óleo e pneus. Tudo certo? Agora, é só botar os motores para funcionar.

RASTRO DA SERPENTE, CURITIBA

Muito difícil; 492 km

O apelido de Estrada da Morte que a Régis Bittencourt (BR-116) ganhou por causa de acidentes graves pode tornar a viagem para o Sul do Brasil menos atrativa. Mas há uma alternativa turística para motociclistas chamada Rastro da Serpente. Os mais experientes dizem que essa estrada “separa os meninos dos homens”, pois as curvas exigem habilidade e cautela, e o tempo de viagem, resistência.

Rastro da Serpente é o apelido das sinuosas SP-250 e da BR-476, que ligam Capão Bonito (SP) a Curitiba (PR). O tráfego de veículos é baixo, mas a pista não é duplicada e não tem acostamento. Em alguns trechos, principalmente entre Capão Bonito e Ribeira, a estrada tem muitos buracos e é preciso ir devagar. 

O melhor é que esta viagem seja feita em grupo. Duas ou mais motos em formação ocupam o lugar de pelo menos um carro e inibe manobras perigosas de outros motoristas. E caso ocorra algum problema, é mais fácil obter ajuda, já que a distância entre uma cidade e outra nessa rodovia é grande.

A viagem começa na Castelo Branco (SP-280) até Sorocaba (saída 78). Na Rodovia Senador José Ermírio de Moraes (Castelinho), saia para Votorantim; depois, siga para a Raposo Tavares (SP-272) até Capão Bonito. Até esse ponto são 230 quilômetros. É preciso parar para comer e abastecer a moto. O próximo trecho tem 98 quilômetros e vai até Apiaí, onde é possível pernoitar. Dali, restam 165 quilômetros até Curitiba. 

MONTE VERDE

Fácil; 164 km

Do lado mineiro da Serra da Mantiqueira, Monte Verde é destino clássico entre paulistas no inverno. Mas o distrito de Camanducaia, a 1.554 metros de altitude, também oferece opções de lazer para quem quer sossego e temperaturas mais amenas durante o verão. E como é baixa temporada, os preços de hospedagem ficam de 30% a 50% mais baratos.

O melhor caminho a partir de São Paulo é pela Rodovia Fernão Dias. São 135 quilômetros até Camanducaia (saída 918) e motos pagam três pedágios de R$ 0,75 cada. A estrada é boa e duplicada, mas é preciso ter cuidado com o grande número de caminhões. Saindo de Camanducaia, uma serra íngreme e charmosa de 30 quilômetros levam até Monte Verde. 

A gastronomia é ponto forte, com grande variedade de fondues, massas e trutas. E para gastar essas calorias, o melhor é fazer uma trilha. A da Pedra Redonda é uma das mais populares, tem menos de 1 quilômetro e pode ser percorrida em até 1h30. Outra opção é a trilha do Pico do Selado, com 4,5 quilômetros de subida até 2.083 metros de altitude. Ao final, uma bela vista para a cadeia de montanhas.

Para uma aventura off-road, agências da rua principal oferecem passeios de jipe para atrações da vila (R$ 60 por pessoa) e destinos próximos, como a Fazenda Esperança e Cachoeira dos Pretos (de R$ 100 a 120 por pessoa). Há tours de quadriciclo, moto e cavalo.

SÃO FRANCISCO XAVIER

Médio; 150 km

Distrito de São José dos Campos, o vilarejo valeria a viagem só pela Rodovia Monteiro Lobato (SP-50): uma estradinha de pista simples que passa pela cidade da turma do Sítio do Pica Pau Amarelo antes de levar a São Francisco Xavier e seguir para Campos do Jordão.

São 60 quilômetros de exuberância natural. Entre o sobe e desce de curvas acentuadas, surgem vales bucólicos e casas solitárias de estilo colonial. Bambuzais na beira da estrada formam longos túneis e um riacho faz aparições discretas ao longo do trajeto. Quarenta quilômetros percorridos e bonecas Emília nas portas de pequenas lojas anunciam a chegada a Monteiro Lobato, onde é possível visitar o sítio onde o escritor passava suas férias e serviu de inspiração para suas histórias. Ingresso: R$ 10.

Como São Francisco Xavier está no meio da Mata Atlântica, há muitas opções de ecoturismo. Antes do portal turístico, a entrada à direita na rotatória leva à Reserva de Santa Bárbara. São cinco quilômetros de terra batida, onde é possível fazer trilhas sem ou com guia (R$ 22). Os passeios duram 1 hora e oferecem uma bela vista da cadeia de montanhas. 

Vá pelo corredor Ayrton Senna/Carvalho Pinto e siga placas para São José dos Campos. Já na cidade, a sinalização para São Francisco Xavier é farta.

VISCONDE DE MAUÁ

Difícil; 300 km

E então chega a hora em que é preciso enfrentar um desafio maior e cruzar um limite estadual. Um roteiro que combina Penedo e Visconde de Mauá, no Estado do Rio, é um bom começo. 

Charmoso distrito de Itatiaia, Penedo foi colonizado por finlandeses na década de 1920. As construções da vila têm forte identidade nórdica – a Pequena Finlândia, conjunto de lojas em casinhas típicas, é um bom exemplo. Nesta época do ano, fica ali a Casa do Papai Noel, parque temático onde é possível visitar o bom velhinho e sua fábrica de brinquedos.
 Será difícil resistir às fábricas de chocolate, que vendem o doce por quilo, e aos sorvetes artesanais. Nos restaurantes, muito fondue, truta e comida alemã. Há também uma hamburgueria (Sr. Duíche) e um bar de quitutes e cervejas artesanais (Penedon Brew Pub).

A RJ-163, uma estrada sinuosa com destino a Visconde de Mauá, começa em Penedo. As curvas ganharam até placas com nomes sugestivos, como Curva do Cotovelo e Curva da Ferradura. Prefira um dia com céu claro, porque você não vai querer subir essa serra de 30 quilômetros sob neblina. 

Distrito de Resende, Visconde de Mauá é um convite ao ecoturismo. Logo na entrada, há um centro de informações turísticas com mapas das vilas e sugestões de atividades. O lugar é dividido em três vilas: Mauá, Maringá e Maromba, nessa ordem. O asfalto vai até a segunda vila, onde é possível parar a moto e alugar um veículo off-road – moto ou quadriciclo (R$ 60 a hora, em média) – e partir para as trilhas. Um guia acompanha o percurso. Entre as cachoeiras do caminho, Escorrega (foto), Véu da Noiva e Poção da Maromba.

Vá pelo corredor Ayrton Senna/Carvalho Pinto até o final. Pegue a Rodovia Presidente Dutra sentido Rio. Saia para Penedo no km 311.

ILHABELA

Médio; 208 km

Colocar os pés nas areias de Ilhabela é um alívio depois de viajar com quentes equipamentos de segurança. Ao todo, são 41 praias para se refrescar – entre elas, a movimentada Praia do Curral, cujo acesso, a nove quilômetros da balsa, está asfaltado.

Quem quer partir para uma aventura off-road segue para a Baía dos Castelhanos, do lado oceânico da ilha. Agências de turismo oferecem o passeio de barco (com parada em algumas praias sem acesso por terra, como na linda Praia da Fome) ou de jipe, que percorre uma trilha de 22 quilômetros em meio à Mata Atlântica. Moto não é opção assim como para a Praia do Jabaquara em razão da estrada de terra. 

Para terminar bem o dia, siga pelo asfalto em direção ao sul da ilha. Além da constante vista para o mar, quase no fim da estrada há o restaurante All Mirante, onde é possível apreciar o sol se pôr no oceano. 

O caminho até Ilhabela deve ser via corredor Ayrton Senna/Carvalho Pinto, com saída na Rodovia dos Tamoios, no km 96 sentido litoral norte. Ao chegar em Caraguatatuba, vá pela Rodovia Rio-Santos (BR-101) sentido São Sebastião e siga as placas que indicam balsa e Ilhabela. O lado bom de estar de moto é que não é preciso pegar fila para fazer a travessia, que custa R$ 7,50 de segunda a sexta-feira e R$ 11,30 aos sábados, domingos e feriados. Na volta, há uma taxa de R$ 2,50.

ESTRADA DOS ROMEIROS

Fácil; 105 km

A SP-312 é um caminho cheio de história contada por ipês e jequitibás centenários, que acompanham o Rio Tietê rumo ao interior de São Paulo. Inaugurada em 1922, a rodovia hoje começa em Barueri e passa por Santana de Parnaíba, Pirapora do Bom Jesus e Cabreúva até chegar a Itu. Entre as curvas, cruzes simbolizam a via-crúcis de muitas romarias.

É um prato cheio para um bate-volta. Pegue a Rodovia Presidente Castelo Branco (SP-280) e utilize a saída 26B – há um pedágio na região de Alphaville, mas motocicletas não pagam. Siga as placas sentido Santana de Parnaíba e Pirapora do Bom Jesus, que levam diretamente à Estrada dos Romeiros. 

O trajeto leva menos de 2 horas e não é preciso ter pressa: apesar de pouco movimentada e bem conservada, a estrada de pista simples e sem acostamento na maior parte do percurso exige atenção. 

Pirapora do Bom Jesus guarda o santuário onde os romeiros terminam suas peregrinações. A igreja é mencionada em documentos históricos do século 19 e tem esculturas de mármore, vitrais e afrescos. Próximo a Itu, à direita da estrada, escadas da Gruta da Glória levam a um mirante com vista para um Rio Tietê diferente do da capital.

Na cidade, o Rancho da Picanha, na Rodovia Waldomiro Corrêa de Camargo, é uma opção para almoçar. A picanha para dois, com arroz, feijão, polenta, mandioca frita e salada sai por R$ 142. Na volta, pare na Fazenda do Chocolate (Estrada do Romeiros, km 90).

ANTES DE PARTIR

1. Couro: não é só atitude, é proteção: jaqueta, luvas e botas são indispensáveis. No calor, use jaqueta de cordura. Capacete fechado é mais seguro
2. Combustível: calcule a autonomia da moto e programe paradas para abastecer
3. Estrada: mantenha distância de outros veículos; evite caminhões e não viaje sob chuva forte. Prefira pegar a estrada durante o dia
4. Bagagem: leve o essencial, nas bolsas fixas da moto. Mochilas podem machucar a coluna em caso de queda

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