Fabiana Caso
Fabiana Caso

Um tour pela cena musical alternativa de Providence

A 3 horas de Nova York, cidade guarda uma profusão de casas onde a experimentação sonora e artística não tem limites

Fabiana Caso, Especial para o Estado

01 Setembro 2018 | 18h00

A sucessão de prédios de tijolos com imensas chaminés cilíndricas evoca o passado industrial, enquanto as vielas estreitas, escuras e misteriosas trazem um tom gótico à cidade de Providence. A incidência da luz e a silhueta das construções que sediavam fábricas por vezes remetem à capa do álbum Animals, do Pink Floyd (apesar desta ter sido inspirada por uma usina na Inglaterra). As igrejas estão por toda parte, inclusive a primeira sede batista das Américas, assim como as casas dedicadas à música ao vivo. Arquitetura vitoriana e antiga mescla-se a relógios de rua pós-modernos, as casas residenciais são de madeira, antigos depósitos hoje ostentam grafites, enquanto os néons e letreiros de velhos teatros reforçam a atmosfera artística que paira no ar. E, veja só, a rua da amizade (Friendship Street) faz esquina com a do verão (Summer Street), demarcando o astral hospitaleiro em nomes acertados. 

Mas é quando os moradores-personagens-criadores entram em cena com seus cabelos e figurinos cheios de estilo, empunhando suas guitarras ou suas canetas de desenho, que você passa a se perguntar se foi transportado diretamente para uma história em quadrinhos do rock, que se passa ao vivo e com vigor, nesta peculiar localidade chamada Providence, capital do menor estado dos Estados Unidos, Rhode Island. Que de tão pequeno, geograficamente, fica até invisível em alguns mapas. E aqui vale o lema de que tamanho, de fato, não é documento, porque se trata de uma mina incandescente de música original. Com muitas casas de shows, clubes e bares, ela concentra quantidade massiva de bandas de rock e seus subgêneros, além de uma cena folk efervescente – além de muitos ilustradores, designers e artistas plásticos. E oferece cardápio musical farto, com shows diários. Para quem tem fôlego notívago, as engrenagens musicais continuam rodando e rodando – e reservam surpresas explosivas. 

A cidade é como uma miscelânea sensorial que costura passado e presente, fazendo jus à rica história local. O amigo dos índios nativos e estudioso de seus idiomas, o inglês Roger Williams fundou Providence em 1636 dentro do então inédito espírito de liberdade religiosa e separação entre Estado e igreja – motivo pelo qual foi perseguido por suas ideias “hereges”, tanto na Inglaterra como no estado de Massachusetts, onde a princípio esteve exilado e de onde teve de fugir em meio a um rigoroso inverno para escapar dos tribunais. Ganhou refúgio entre as tribos indígenas, comprou suas terras e fundou o local providencial e a nova religião batista. Quem sabe se por conta desse teor libertário desde a sua fundação, ou por estar entre as cidades de Nova York e Boston, esta pequena capital de cerca de 179 mil habitantes tenha se tornado tão artística e desenvolvido sua vocação faça-você-mesmo.

Big bang sonoro

Nada havia me preparado para o (big) bang sonoro que vivi ali, nem mesmo os americanos para quem pedi recomendações sabiam muito sobre a capital de Rhode Island. Tudo começou de modo divertido quando eu descobri que o ônibus que pegaria de Nova York para Providence – a 3h30 de distância – era da Peter Pan Bus Lines, com direito a logo do personagem e overdose da cor verde. Fui para um trabalho voluntário no Studio Blue, um grande galpão nos fundos de uma ex-fábrica que funciona como um misto de estúdio de música e de edição de vídeos, ateliê de joias e esculturas, base de fomento de projetos artísticos e local de ensaios de bandas e shows. Eu esperava encontrar uma cidade pacata e menos frenética, tipo o interior, onde eu pudesse escrever e finalizar meu livro no tempo livre. Que nada. Na intensa comunidade musical, toda noite havia um show mais surpreendente que o outro, uma festa, um ensaio, um documentário para assistir, uma conversa interessante sobre arte. 

Fui ficando cada vez mais impressionada com a cena e com os compositores locais: eu, que procurara tanto uma boa banda de vigorosa inspiração punk em Nova York, fui encontrá-la em Providence (Super Natural II, literalmente punk à medida que nos primeiros ensaios parte do kit de bateria era de plástico), assim como uma excelente formação de synthrock (Triangle Forest, com keytar e muitos efeitos na voz como Vocoder). 

Era uma espécie de éden sonoro acolhedor para alguém que, como eu, gosta de descobrir música original, em gêneros muito diversos. Eu ia me encantando tanto com o folk de artistas como Loveday (nome artístico de Nicole Cooney e de rua local) e Ian Fitzgerald (impressionantes narrativas e cabelos), como com o indie rock de toque punk do grupo Caballo (que se chamava Lizard Fingers) e com as canções confessionais que iam do delicado ao cru de Jillian Kay. Discotequei em uma festa com três ótimas bandas de folk, pop rock e rock, incluindo a tão clássica quanto ótima The Quahogs (veja os vídeos de shows de alguns desses artistas abaixo). E fiquei em estado extático ao conhecer a "instituição" iconoclasta local: o grupo The Viennagram, que fez e continua fazendo história com performances dadaístas que podem incluir chuva de plumas de travesseiros na plateia, pinturas que costumavam ser feitas no palco pelo artista plástico e músico Danger Dan (também conhecido como Daniel Dubois) e shows-surpresa em karaokês. 

De alguma forma, a cultura do DIY (Do It Yourself, faça você mesmo) se entranhou na trama "providenciana". Tenha sido pela disponibilidade de espaço nos grandes galpões que no passado eram fábricas, ou ligada à significativa quantidade de universitários criativos oriundos de uma das sete instituições locais. Uma delas, a Rhode Island School of Design (RISD), é considerada uma das melhores universidades de arte e design dos Estados Unidos e abriga o imperdível RISD Museum, que exibe de móveis e louças a sarcófagos egípcios, passando por esculturas e uma interessante coleção de desenhos e pinturas de artistas como Toulouse-Lautrec e Edgar Degas.

O artista visual, vocalista e baterista Brian Chippendale estudava na RISD quando formou a banda de noise rock Lightning Bolt, que costuma fazer energéticas performances, em tours mundiais hoje em dia. Nos anos de formação do grupo, durante os 1990, Brian fundou com um colega de faculdade o Fort Thunder: instalado em uma das ex-fábricas, o galpão virou casa, ateliê, local de shows e festas, QG de impressão de pôsteres e lambes. E incubador de projetos artísticos, além de casa, não apenas para o Lightning Bolt como também para outros criadores de Providence, dentro do conceito "vamos ter o nosso lugar pra fazer música e arte na hora e do jeito que a gente quiser". O Fort Thunder durou de 1995 a 2001, porém deixou muitos vestígios pela cidade. 

Quando estive em Providence, o espírito do faça você mesmo e do autogerenciamento estava aceso em uma casa literalmente underground chamada The Funky Jungle, de endereço secreto, toda grafitada e cheia de pôsteres, cujos visitantes eram recebidos por uma guitarrista-caveira de gesso na sala. Foi nesse ambiente que assisti à performance cheia de vitalidade do criador de beats e baterista de Boston, Jon Star, que não tirou o casaco para tocar no porão sem aquecimento. Palco interessante da cena local, o Funky Jungle encerrou atividades com uma festa em junho de 2018, pelo menos no endereço onde estava. Se estiver na cidade, vale a pena perguntar aos músicos locais se reabriram em outro lugar.

Além da combustão musical, há ainda bênçãos históricas, arquitetônicas e gustativas. Caminhadas em Federal Hill e pelo Downtown são obrigatórias, onde as amplas avenidas mesclam-se às tais vielinhas góticas. Há uma rua toda dedicada aos restaurantes dos muitos imigrantes italianos, tal qual no bairro do Bixiga em São Paulo. Perca-se e olhe para cima para ver os antigos balcões de alguns dos prédios, os letreiros, os grafites – este é um dos mais antigos territórios povoados dos Estados Unidos.

Outras paradas

Por ali, aproveite para conhecer a Trinity, uma das diversas cervejarias locais, com saborosas opções como a Demogorgon, batizada em homenagem à série Stranger Things. Eu tomei e aprovei, apesar do salgado preço de US$ 25 pela jarra coletiva. Fazem também bons hambúrgueres e o cardápio inclui lagosta e frutos do mar. A música está representada, é claro, em um quadro do tipo A Santa Ceia, porém com Kurt Cobain reunido a Bob Marley, Janis Joplin, Beethoven e outros astros das notas, sem separação de gêneros musicais – bem simbólico sobre os comportamentos dessa cidade sonoramente democrática. 

Para um café, o charmoso White Electric Coffee é ótima pedida, também cheio de referências musicais e com caveiras iluminadas por néon rosa em um bueiro estilizado no chão, fonte de aquecimento. Olhe pra baixo. Vá também ao Ogie's, um simpático bar com decoração rock dos anos 1950, cadeiras azuis e amplo pátio externo com trailer. Eles servem ótimos hambúrgueres e têm noites de quiz. Mas depois das 22h, dê preferência ao carro ou a táxis – existem algumas áreas da cidade menos seguras para se andar a pé nesse horário. 

Durante os meses quentes, geralmente de abril até o final de outubro, a capital reserva outras atrações sinestésicas como o Waterfire: uma grande instalação artística em que tochas são acesas sobre suportes no rio, com apresentações de pirofagia. A música toma as ruas e há diversos festivais como o PVD Fest, o retrofuturista NEON e o Foo Fest

Mas se for a Providence durante o outono ou o inverno, leve a sério o frio da região da Nova Inglaterra: um casaco quente com capuz é item de sobrevivência. Esquecê-lo, porém, pode ser boa desculpa para visitar uma das várias filiais da Savers (1925 Pawtucket Ave, entre outros endereços) – cadeia de lojas que vende roupas, sapatos e acessórios que provêm de doações. Se você tiver paciência de garimpeiro para remexer pelos cabides não muito organizados, vale muito, com botas de US$ 10 e roupas a partir de US$ 3. Ainda há dias não especificados de promoções em que reduzem tudo, às vezes em até 50%. 

Em termos de providência sonora, os dez lugares do roteiro a seguir são destaques para mergulhar na agitada cena autoral local. Para compor esse roteiro, reuni as minhas impressões às dicas de meus entrevistados, o compositor, vocalista, guitarrista e baixista Chuck Perry, que lançou recentemente um álbum solo low fi e também toca com as bandas Super Natural II e Harvey Garbage), o criador de música eletrônica, produtor, vocalista e 'keytarista' do grupo Triangle Forest Brendan Britton, e o artista visual que tocava e pintava com o The Viennagram, Daniel Dubois. 

Dusk

À beira dos trilhos do trem, o pequeno clube segue a ambientação escura típica dos bares de Nova York – o breu já começa no nome. A iluminação colorida se concentra no bar central de balcão quadrado, na pista e no palco de medida certa, onde se revezam noites de música ao vivo – com shows de rock, indie rock, pop, synthrock – e festas com DJs, sejam dedicadas ao soul ou aos anos 1980. Programação excelente e eclética de shows. 301 Harris Ave. 

The Grange

Este restaurante vegetariano e bar tem intenso menu de música ao vivo, principalmente apresentações semiacústicas, de folk e de rock. Espaço intimista e acolhedor, ainda mais se você conseguir o lugar de honra: as cadeiras de balanço bem ao lado de onde os músicos costumam tocar. Deguste uma das ótimas sopas e sanduíches enquanto assiste, ou um prato completo. 166 Broadway.

 

AS220

A vistosa fachada vermelha do bar e o logo em letras douradas anunciam o misto de galeria de arte, bar, restaurante, espaço de shows e de cursos. A organização sem fins lucrativos é um agitado centro cultural e de residências artísticas na cidade, dando espaço para exposições, shows e performances de artistas locais. E é um lugar incrível, com opções de comida vegetariana e drinques, enquanto os shows rolam no piso xadrez, além de outros tipos de espetáculos. 115 Empire St. 

Psychic Readings

Anexo que também pertence ao AS220, fica em uma sala no andar de cima do espaço principal. O local é tão despojado quanto intimista. Não há palco, os artistas se apresentam em frente a uma parede de tijolos brancos. Há um pequeno bar. Eu fui em uma segunda-feira à noite e presenciei apresentações fantásticas de folk e de rock, incluindo a de Ian Fitzgerald (veja o vídeo abaixo). 95 Empire St. 

Columbus Theatre

Teatro tão histórico quanto encantador, com suas paredes vermelhas, vitrais e murais pintados à mão. Aberto em 1926, ele continua firme e imponente na área de Federal Hill, com programação de shows e de stand-up. Na elegante sala principal geralmente tocam artistas americanos célebres, de todas as partes do país. Mas no espaço compacto do andar de cima, acontece uma agitada programação dos talentos locais, do folk ao punk. Fique atento ao enorme letreiro, à moda antiga, que anuncia o line-up. 270 Broadway. 

The Parlour 

Aberto sete noites por semana, o pequeno The Parlour é despojado, intimista e divertido. Vale a pena cruzar a cidade até a zona norte, onde ele está localizado, para conferir um dos muitos shows da cena local que promove rock, folk e até reggae. Oferece ainda animadas noites de karaokê, assim como festas de funk, soul e outros gêneros. Da cozinha, saem especialidades locais e pizzas sem glúten, tudo feito com ingredientes orgânicos. 1119 N Main St.

Studio Blue

Você sobe a escadinha da ex-fábrica e dá de cara com aqueles alpendres típicos americanos e uma porta azul. Lá dentro, um outro universo se revela, reforçando que você está em terreno do rock norte-americano, a própria Rock-land! Placas de estradas, bandeiras e canos expostos convivem com um grande aquário com peixes coloridos, luminárias chamativas, uma mesa com uma escultura de uma cabeça de cabelos espetados e de caveiras, grandes sofás de couro e a miríade de telas pintadas pelo artista plástico, produtor de música, músico, designer e diretor do estúdio: Rick Scianablo. Tudo reforçado por luzes coloridas. Apesar da miscelânea, o olhar logo foca no principal, os instrumentos. Nesta ampla sala de estar rolam ensaios de bandas e, esporadicamente, shows. Um dos banheiros é cênico, com espelhos bem colocados, quadros de arte de tom gótico, uma jacuzzi e uma pequena história em quadrinhos sobre Providence emoldurada. Já a sala vizinha do estúdio de gravação tem uma notável coleção de guitarras, mesas de som e relíquias como pôsteres de shows de Jimi Hendrix. E na área externa mora uma das imensas chaminés da cidade. 

 

The Strand

Grande sala histórica de Providence, com capacidade para 2 mil pessoas que hoje recebe turnês de artistas americanos, internacionais e algumas noites de tributos. Aberto originalmente em 1915 como um teatro de vaudeville, funcionou também como cinema e foi reaberto como um local para shows durante os anos 1990. Desde setembro de 2017, está sob nova direção e foi rebatizado como The Strand, depois de uma reforma extensiva no palco e no sistema de som – antes se chamava Lupo's Heartbreak Hotel. 79 Washington St.

Alchemy

No andar de cima de um estúdio de tatuagem, o Alchemy oferece tanto noites de karaokê como de festas dedicadas a gêneros variados, do rock ao reggae, e shows. A lista de canções para o karaokê é supercompleta: consegui até a versão de Jimi Hendrix para All Along the Watchtower, de autoria de Bob Dylan. De paredes pretas e escuro como é tradição, tem luzes coloridas pontuais e um lounge com sofás confortáveis. Vá para soltar o gogó, dançar ou assistir à sonora cena local. 71 Richmond St, 2º andar. 

The Scurvy Dog

Se você curte um rock mais pesado, não deixe de visitar e tomar um drinque no bar Scurvy Dog. Não há shows, mas a seleção de música, a decoração vermelha com caveiras e os tipos que você vai encontrar por lá valem a visita. Uma mesa de sinuca fica bem no meio do pequeno e agitado bar, que se declara punk, em primeiro lugar. 1718 Westminster St.

 

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