Um viajante que gosta de animais

"O silêncio das montanhas vai guardar para sempre o número de vítimas que ela mesma, em violento espreguiçar, devorou. Jamais saberemos quantos foram. But, my God, nossa imensa fragilidade nunca pareceu tão grande."

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

12 Maio 2015 | 02h05

Com essas palavras nosso abalado viajante resumiu a dor existencial que viveu no Nepal, onde não conseguiu reencontrar os sherpas que o acompanharam, anos atrás, ao cume do Monte Everest. "Nem eles, nem suas famílias, nem suas moradias", disse mr. Miles. "A geografia simplesmente mudou nessas áreas."A seguir, a pergunta da semana:Mr. Miles: gosto muito quando o senhor fala de sua cadelinha, a "raposa das estepes siberianas" Trashie. Posso considerá-lo um defensor dos animais?

Marly Assad, por e-mail

Well, my dear: não sei se mereço o título de ?defensor dos animais?, porque minha própria vida peregrina impede que eu me dedique mais aos mascotes. Trashie é realmente uma exceção, visto que tem hábitos incomuns: viaja em silêncio, jamais fez qualquer tipo de sujeira a bordo de aviões, movimenta-se sem dificuldades, apesar de sua cegueira total, e, well, é uma ótima parceira de copo, desfrutando com imenso prazer de qualquer whisky acima de 12 anos de envelhecimento ou qualquer single-malt. Para outras bebidas, é mais reticente.

Acho gatos (e demais felinos) seres de uma beleza sobrenatural e uma expressividade verdadeiramente teatral. Mas prefiro vê-los nas ruas, nos beirais e nos telhados, territórios a que pertencem de fato. Um gato escuro em uma ruela branca de Santorini vale ? ao meu olhar ? muito mais do que os 22 felinos que compartilham, com minha tia Charlotte, um minúsculo apartamento em Birmingham. Se a imagem do gato grego é o retrato da liberdade, a promiscuidade dos felinos de titia é a imagem da opressão.

(Permitam-me abrir esse parêntese para dar as boas-vindas à outra Charlotte, nossa mais recente princesinha. Estive com Elizabeth ? N.da.R.: Rainha Elizabeth II, da Inglaterra ? há duas semanas, por ocasião de seu aniversário. Levei-lhe, as always, rosas colombianas. Conversamos um pouco sobre os possíveis nomes da pequena sucessora e ela se mostrou irredutível ao não querer o ressurgimento de Diana no seio da família real. ?Permita-me, majestade, mas Diana é, in fact, o nome da avó da criança. Quiçá, para mostrar seu protesto, a senhora não pudesse pedir a inclusão de seu próprio nome antes do de Diana...?. Well: ao que parece, funcionou, isn?t it?).

Mas, voltando ao tema dos animais, tenho simpatia por muitos deles ? os cavalos são os meus preferidos ? e guardo ótimas recordações de Lord Byron, the big white horse, um raro exemplar anglo-bretão, que me acompanhou, durante a Primeira Guerra Mundial, na Batalha de Amiens. Wonderful animal!

Há outros que aprecio pela inteligência, como os falcões, os golfinhos e as belugas. Mas, pensando melhor, apesar de meu bom relacionamento com certos tipos de animais, não posso me considerar um defensor de animais. Não tenho o menor remorso em alimentar-me de carnes de qualquer espécie, como bom onívoro que sou; como, as well, qualquer tipo de miúdo, como bom britânico que sou. E, na posição de viajante, jamais cometeria a desfeita de não aceitar o que me é oferecido, ainda que não me apeteça. Gosto, therefore, de animais vivos e animais abatidos. Mas, honestly, prefiro os que bebam comigo, como Trashie faz."

*Mr. Miles é o homem mais viajado do mundo. Ele esteve em 183 países e 16 territórios ultramarinos 

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