Bob Strong/Reuters
Bob Strong/Reuters

Uma concessão aos mais velhos

Na minha modesta opinião, modernizar não significa, necessariamente, facilitar

Mr. Miles, O Estado de S. Paulo

15 Maio 2018 | 03h05

Mr. Miles recebeu, em mãos, a última edição do Viagem sobre a Rússia e manda dizer aos editors que achou o trabalho excelente. Também gostou da referência aos álbuns de figurinhas como mote da publicação. Para ele, é prova irrefutável de que, apesar do esforço em contrário, nada irá sepultar o prazer da palavra e da imagem impressas.

A seguir, a pergunta da semana:

Querido Mr. Miles: minha mãe foi viajar com uma amiga pela Europa. Gostou, é claro. Mas teve problemas: na volta, no aeroporto de Munique, encontrou um check-in tão automatizado que ficou perdida. Até mesmo as etiquetas de bagagem deveriam ser providenciadas pelos próprios passageiros. Por fim, com a ajuda de um cavalheiro que bem poderia ter sido o senhor, conseguiu desvencilhar-se da tecnologia e embarcou. Pergunto: a modernidade não deveria fazer alguma concessão aos mais velhos? 

Heloisa Mancuso, por e-mail

Well, my dear: como tenho viajado sempre, estou me acostumando step by step às velozes mudanças que ocorrem em todas as partes, notadamente nos aeroportos. O de Munique, cuja melhor qualidade é possuir sua própria cervejaria, é, in fact, pioneiro em quase tudo. Ocorre, na minha modesta opinião, que modernizar não significa, necessariamente, facilitar. Há um frenesi em todo o planeta pelo uso desenfreado da inteligência artificial e de aplicativos que nos deixam boquiabertos. However, como me disse certa vez o querido Millôr Fernandes (Millôr foi um dos grandes pensadores e humoristas brasileiros do século 20), “um computador, afinal, funciona exatamente igual a um tecnocrata altamente especializado. Não usa a inteligência humana”. Nem a sensibilidade, eu completaria.

Quando leio o conteúdo de sua indagação, concluo que a única sensibilidade em todo o context foi a do cavalheiro mencionado. Aposto que, para acessá-lo, sua mãe não precisou introduzir nenhuma palavra-chave, tampouco uma senha que não fosse a aflição estampada em seus olhos.

Como não quero ser taxado de pessimista, acredito, honestly, que, em breve, os computadores entenderão o que significam coisas etéreas como dúvida, medo, ansiedade, pedido e gratidão. Ou, na pior das hipóteses – oh, my God –, seremos nós que passaremos a agir como eles, de forma impessoal e insípida.

Para um viajante em idade provecta como esse vosso missivista, o sumiço da humanidade nas relações de quase todas as espécies soa como uma praga bíblica, daquelas que precisavam ser anunciadas nos tempos em que éramos seres ignaros e só compreendíamos a ira e o temor. Vejo, I’m sorry to say, que é para esse destino que estão indo muitos de nós, ainda que embalados na linguagem fútil e fácil dos pictogramas sorridentes e calorosos, que lhes dá a certeza de que espalham amor e carinho.

Se eu fosse responsável pelo aeroporto da Baviera, manteria aberto, ainda por pelo menos uma geração, um guichê de gente atenciosa para auxiliar aqueles que não alcançaram a graça divina de ser responsivos e compatíveis do jeito que a nova realidade exige. Seria, ao menos, uma gentileza – se bem que essa também é uma palavra em processo de obsolescência.

O pior, darling, é que nem por isso vejo as filas diminuindo nos aeroportos. A tecnologia vem acompanhada da necessidade de maiores controles. Os passageiros emperram ao ter que encaixar seus passaportes em buracos que não compreendem – exceto alguns. Ainda é uma maioria o número de viajantes que têm dificuldades de apontar o código de barras para os leitores. Meu amigo Umberto Eco sempre nomeou, entre os maiores problemas de comunicação, a chamada “presunção não enunciada”, um fenômeno que ocorre quando o criador de um determinado texto ou processo presume que todos sabem do que ele está falando ou o que deve ser feito em determinada situação. Pois é isso, I’m afraid, que está ocorrendo com o mundo. Muita presunção e pouco enunciado. Do you know what I mean? 

 

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E  16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS. SIGA-O NO INSTAGRAM @MRMILESOFICIAL.

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