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Gilberto Amendola
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Uma crônica que escrevi na beira da praia

Prometendo aos céus que nunca mais escreveria uma crônica na beira da praia

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2019 | 12h00

Esta é uma crônica que escrevi na beira da praia tomando cerveja.

Esta é uma crônica que escrevi na beira da praia tomando cerveja e assistindo a vida passar.

Esta é uma crônica que escrevi na beira da praia tomando cerveja e assistindo a uma mãe levar o filho no colo até o rasinho do mar.

Esta é uma crônica que escrevi na beira da praia tomando cerveja e assistindo uma mãe erguer o bebê em direção ao sol.

Esta é uma crônica que escrevi na beira da praia tomando cerveja e reparando nas pegadas que aquela mãe deixou na areia.

Esta é uma crônica que escrevi na beira da praia tomando cerveja e pensando que daqui a pouco o bebê vai deixar suas próprias pegadas também.

Esta é uma crônica que escrevi na beira da praia tomando cerveja e sonhando com destino de duas, duas mil, dois milhões de pegadas que se misturam na areia. 

Essa é uma crônica que escrevi na beira da praia tomando cerveja e observando a mãe voltar com o bebê para debaixo do guarda-sol. 

Esta é uma crônica que escrevi na beira da praia tomando cerveja e assistindo a uma mãe colocar o bonezinho na criança para protegê-la do sol.

Esta é uma crônica que escrevi na beira da praia tomando cerveja e assistindo a uma mãe trazendo um baldinho para perto da criança – e como a criança ainda não sabe brincar, a própria mãe se diverte cavando um buraco até o Japão.

Esta é uma crônica que escrevi na beira da praia tomando cerveja e vendo uma bola de vôlei quase acertar o bebê na esteira.

Esta é uma crônica que escrevi na beira da praia tomando cerveja e reparando no menino que foi se desculpar com a mãe do bebê que ainda estava cavando um buraco até o Japão.

Esta é uma crônica que escrevi na beira da praia tomando cerveja e percebendo que o vendedor de biju oferecia o produto para a mãe do bebê que estava distraída cavando um buraco para o Japão.

Esta é uma crônica que escrevi na beira da praia tomando cerveja e assistindo a um cachorro correndo em direção ao buraco aberto pela mãe da criança que estava de bonezinho na esteira.

Esta é uma crônica que escrevi na beira da praia tomando cerveja e vendo o cachorro curioso caindo no buraco que a mãe do bebê cavou na areia da praia.

Esta é uma crônica que escrevi na beira da praia tomando cerveja e assistindo a comoção que causou o fato de o cachorro cair no buraco que a mãe do bebê cavou na praia.

Esta é uma crônica que escrevi na beira da praia tomando cerveja e reparando na surpresa de todo mundo quando um japonês saiu do buraco cavado pela mãe do bebê com o cachorro no colo. 

Esta é uma crônica que escrevi na beira da praia tomando caipirinha e assistindo ao tanto de gente que juntou ao redor do japonês, que tinha saído do buraco cavado pela mãe do bebê com um cachorro no colo.

Esta é uma crônica que escrevi na beira da praia tomando uísque e vendo um montão de japoneses saírem do buraco que a mãe do bebê cavou na praia.

Esta é uma crônica que escrevi na beira da praia tomando um negocinho e vendo a festa que virou aquele pedaço de areia.

Esta é uma crônica que escrevi na beira da praia tomando água de coco, que dizem ser bom para hidratar, e percebendo que escrever uma crônica na beira da praia tomando cerveja pode não ser uma boa ideia. 

Esta é uma crônica que escrevi na beira da praia tomando uma lambida no rosto do cachorro que caiu no buraco cavado pela mãe do bebê que sorria feliz de toda aquela confusão. 

Esta é uma crônica que escrevi na beira da praia prometendo aos céus que nunca mais escreveria uma crônica na beira da praia tomando cerveja e tomando cerveja e tomando...

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