Mônica Nobrega/Estadão
Mônica Nobrega/Estadão

Uma experiência líquida. E suas polêmicas

Na cave subterrânea do Château de Bellevue, chega o momento máximo da degustação de vinhos: a prova do Morgon, rótulo mais importante da vinícola (20 euros a garrafa). É a bebida da casa que compete com as da Borgonha, informa Clare Forestier, uma das proprietárias. Talvez seja um certo exagero, mas a verdade é que o vinho agradável, com aroma de cereja, tem o seu valor.

VAUX-EN-BEAUJOLAIS, O Estado de S.Paulo

07 Maio 2013 | 07h13

A localização geográfica do Château de Bellevue (www.chateau-bellevue.fr) explica a necessidade de se comparar a uma das regiões vinícolas mais bem reputadas da França (a outra é Bordeaux). O castelo e seus 8 hectares de vinhedos ficam em Beaujolais, onde produzem 120 mil garrafas por ano.

E, na memória dos apaixonados por vinhos, Beaujolais é uma referência controversa. Entre as décadas de 1960 e 1980, viveu uma fase áurea na produção de suas 12 variedades de crus, apoiada sobretudo na qualidade de suas uvas gamay. Daí em diante, entrou em cena o Beaujolais Nouveau, tinto jovem com estratégia de divulgação barulhenta que o associou a festa, mas de qualidade duvidosa que abalou a reputação local.

Apoiada principalmente nos vinhos de um vermelho-rubi intenso e sabor frutado, a região quer superar o malfadado Nouveau - que ainda representa um terço da produção local, mas sumiu das peças de divulgação. Tem predicados para tanto, além dos vinhedos: suas propriedades históricas estão cheias de castelos. Diz-se na França, aliás, que há mais castelos em Beaujolais que no Vale do Loire.

Cerca de 150 dessas propriedades foram transformadas em hotéis pequenos e charmosos, os chambres d'hôtes, cuja característica é ter quatro a cinco quartos e funcionar em esquema de cama e café. São os chambres d'hôtes a modalidade de hospedagem mais comum em Beaujolais, pela ausência de cidades maiores que comportem hotéis tradicionais.

O Château de Bellevue é um deles: tem cinco habitações na mansão do século 19 que pertenceu aos irmãos Lumière, pioneiros do cinema, diante de encantadores jardins ingleses. Custa 150 para duas pessoas, com café da manhã.

Na rua principal da vila de Vaux-en-Beaujolais, o Auberge de Clochemerle (aubergedeclochemerle.fr; diária desde 70) não é vinícola, mas um pequeno hotel de charme com 7 quartos que tem em seu restaurante o maior atrativo: ganhou a primeira estrela Michelin em 2012.

Outra vinícola, o Château de Buffavent (buffavent.com), erguido entre os séculos 16 e 17, era casa de campo de uma rica família de Lyon. Atualmente, 80 mil garrafas por ano são feitas a partir de suas videiras - o chardonnay foi o mais agradável entre as variedades degustadas (6 euros cada garrafa, em média). O castelo recebe hóspedes em três quartos, com diárias desde 110 para duas pessoas, com café.  

Auberge de Clochemerle

Curiosamente, o restaurante estrelado pelo Guia Michelin com ambiente mais insosso do roteiro foi o que serviu os pratos de apresentação mais bonita. A comida do Auberge de Clochemerle (47 euros o menu) é colorida, performática. Sem esquecer o sabor e com o necessário pedido de desculpas pela definição afetada, dá para dizer que é uma gastronomia-design.

O chef Romain Barthe trabalha em uma cozinha feinha para criar receitas inesquecíveis. Precisei resistir ao segundo pão de figos do couvert, em nome do espaço para o resto da refeição. O foie gras grelhado foi o melhor da minha vida – compota de peras acentuou, pelo contraste, a delicadeza do sabor. O filé de peixe com manteiga veio acompanhado de nozes e uvas equilibradas sobre um talo de aipo, uma obra de arte. Os minidoces que chegaram com o café estavam apoiados em suporte que lembrava um candelabro.

Tudo isso harmonizado com vinhos de Beaujolais. Não há má fama que resista.

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