Uma fachada

O trajeto até Courmayeur, no extremo norte da Itália, introduz os visitantes ao Vale d'Aosta. A região faz fronteira com a França e a Suíça - e traz, tanto na presença dos Alpes como na culinária ou na arquitetura, uma marcante mistura de culturas. Mesmo em meio à primavera, um vento frio adorna a paisagem. Pelo caminho, dezenas de pequenos ateliês nos quais artesãos mantêm viva uma tradição que remonta a antigas gerações.

O Estado de S.Paulo

25 Outubro 2011 | 03h08

Ao sul, dentro do território italiano, a fronteira é com o Piemonte - e, depois de algumas horas de estrada, chega-se a Turim. A paisagem, então, ganha coloridos urbanos. Ainda assim, não faltam contrastes, que nos levam das ruínas medievais a prédios imponentes, símbolos da afirmação política na primeira metade do século 20, passando pelas galerias do século 19 ou pelas enormes feiras a céu aberto. "O que nos marca a todo instante é a presença da arte nas ruas, nos contrastes, nos detalhes da arquitetura", diz o escultor Caciporé Torres, enquanto aguarda a entrada na GAM, a galeria de arte moderna da cidade, uma das mais importantes da Europa.

Montanhas e planícies. Dias depois, a mesma sensação surge na região da Umbria. Sua principal cidade é Orvieto, na Idade Média importante posto de parada no caminho que ligava Florença a Roma. Ela está encravada no alto de um monte de pedra vulcânica - e, lá de cima, do que sobrou dos mirantes medievais, é possível observar as planícies que se espraiam ao longe, revelando as características da economia local, marcada pelo cultivo do tabaco, do azeite, e pelas vinícolas.

É possível chegar a Orvieto de carro, mas um pequeno bonde diminui a duração e acrescenta charme ao trajeto. Uma vez lá em cima, caminhar exige certo esforço físico. Melhor, então, embarcar no pequeno ônibus que sobe e desce as ruas sinuosas que evocam o passado medieval e, de repente, deságuam em uma praça em cujo centro está a enorme Catedral de Orvieto, construída no século 13, quando a cidade passou a abrigar uma residência - o Palazzo dei Papi, que pode ser visitado - para os papas e seus seguidores, que buscavam refúgio sempre que a situação em Roma colocava a segurança do prelado em risco.

Coloridos. Austera e cinzenta, a catedral é gigantesca. O adjetivo talvez não dê conta completamente da magnitude da construção, ainda mais quando a chuva, comum na região, posiciona nuvens negras e carregadas sobre a Praça da República. A dominação religiosa da época medieval contava em grande parte com o poder de intimidação da arquitetura, das torres que pareciam tocar os céus, estabelecendo um contato direto com a divindade.

Mas, então, você olha ao lado e observa as casas de pedra e madeira, com fachadas ocres ornadas por flores vermelhas e amarelas. Os detalhes do colorido oferecem um contraste singelo - e, ao mesmo tempo, de tirar o fôlego. Assim como as imagens do Antigo Testamento esculpidas na fachada da catedral. Caciporé não se contém. "Meu Deus, como nos sentimos pequenos perante um trabalho desses. Como vou voltar a esculpir alguma coisa depois disso?"

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