Uma festa em Pequim

O mais viajado de nossos colaboradores manda notícias, dessa vez, de Beijing, a capital da China. Que, entretanto, ele faz questão de chamar de Pequim, à moda antiga. "Assim aprendi na infância, li nos livros, vi nas tinturarias, nos restaurantes, assim sonhei com esta cidade. And I don't see why I have to change it now."

O Estado de S.Paulo

05 Junho 2012 | 03h22

Mr. Miles volta à capital onde fica a Cidade Proibida depois de longa ausência. E está espantado com as mudanças que vê. O motivo de sua viagem, como de costume, é reencontrar velhos amigos em momentos de celebração. A longa jornada impediu que o correspondente britânico respondesse a alguma das muitas missivas que recebeu durante a semana. Ele preferiu contar sobre a experiência aos seus fiéis leitores.

"Well, my friends, não pude deixar de atender ao convite de Wong, que celebra suas bodas de prata com a suave Li. Wong era um ótimo bartender do Hotel Dorchester, em Park Lane, que, as you say, fazia bicos lecionando mandarim. Tive aulas com ele e acabei aprendendo o idioma tão diferente, embora apenas o suficiente para conversas triviais. Unfortunately, devo dizer, como professor de línguas, Wong era apenas um excelente preparador de dry martinis (com uma gota de angustura)!

Há cinco ou seis anos, meu sorridente amigo deixou Londres de volta para sua terra natal - e perdemos o contato. Pois agora tive a agradável surpresa de reencontrá-lo em franca prosperidade. Tornou-se um magnata, meu bom Wong. Trafega em uma limusine pelas novas avenidas que mudaram tanto a paisagem de Pequim. É proprietário de uma indústria que produz milhões de pequenos objetos emissores de luzes e ruídos, cuja utilidade sequer cheguei a compreender.

I'm a little disappointed porque Wong não prepara mais sequer seus próprios drinques. Tem um serviçal à disposição para tal tarefa, um pobre rapaz sem o talento de seu chefe.

E Pequim, com o perdão do trocadilho, foi, as I see, de Mao a pior.

A misteriosa cidade oriental que conheci um dia está cada vez mais ocidentalizada. Ainda é possível comer gafanhotos e escorpiões nas ruas (o que os turistas, claro, adoram). Mas, a julgar pelo ritmo das mudanças, em poucos anos os ambulantes terão sido quase completamente substituídos por uma imensa rede de lanchonetes especializada em invertebrados. Alguma coisa como McScorpion ou Locust King. It would be bizarre.

Ainda vejo os mais velhos praticando tai chi chuan ao alvorecer nos parques da cidade, mas não há jovens entre eles. Se vivo fosse, Confúcio should be confused.

Felizmente, my friends, a poucos quilômetros daqui, a China ancestral sobrevive com seus valores imemoriais e, claro, com suas idiossincrasias. Muitas delas, as you know, são incompreensíveis para a nossa visão ocidental. Mas conhecê-las, observá-las e tentar compreendê-las é sempre o motivo de uma viagem. Don't you agree?

Well, a esperada festa de Li e Wong está marcada para esta noite - preciso passar minhas calças e meu paletó. Depois, vou me encontrar com o venerável Wang, um brilhante linguista que concordou em fazer a tradução de Trem das Onze, de Adoniran Barbosa, para o mandarim. It's useless, I know, mas tenho um amigo brasileiro que, quando bebe o suficiente entre conhecidos, cisma em cantar o famoso samba paulistano em nove idiomas diferentes.

O incrível é que funciona! Pois agora ele vai poder ampliar seu repertório graças a Wang. I just feel sorry pelos que tiverem de assistir a uma das tais apresentações."

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ESTEVE EM 132 PAÍSES E 7 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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