Uma linda loira de olhos sorridentes

Em um de seus clássicos envelopes lacrados, nosso querido viajante enviou-nos a correspondência da semana indo direto ao assunto, sem espaço para delongas:

O Estado de S.Paulo

26 Junho 2012 | 03h12

Dear mr. Miles, espero ansiosamente as terças-feiras para poder ler sua coluna tão prazerosa. Fico sonhando com os lugares que menciona, com as pessoas que conhece e aprecio muito seu humor, cáustico, às vezes, mas sempre delicado. Humildemente, peço sugestões para Paris. Visitarei no fim de julho minha filha Paula, que foi para lá para estudar em janeiro deste ano. Já estive na cidade duas vezes, mas irei novamente quantas puder. Gostaria que me indicasse lugares inusitados ou coisas a fazer diferentes da rotina turística. Paula e eu temos muita disposição para andar e não temos medo de experimentar coisas novas. Queria que esses dez dias em Paris celebrassem nosso amor de mãe e filha. Thank you so much for your precious time.

Sandra Penteado Ferreira, por e-mail

"Well, my dear, estou seguro de que, depois de tantos meses em Paris, sua filha Paula terá indicações mais confiáveis do que as minhas. Ou, at least, mais próximas de seus interesses e preferências.

Digo isso, darling, porque, in my vision, Paris é uma cidade para cada um. É como, digamos, uma lista de feira. Cada um tem a sua, com os produtos que prefere, e mesmo que ninguém volte para casa com a mesma mescla de ingredientes, todos saem satisfeitos porque encontraram o que procuravam. Did you get me?

Apesar de minhas reservas quanto aos franceses - que subverteram a mão inglesa no tráfego entre outras atitudes tresloucadas -, admito que Paris é o que toda cidade gostaria de parecer: esmeradamente linda, facilmente compreensível e inevitavelmente inspiradora (com meu perdão pela adverbiação exagerada). Uma cidade feita para flanar.

Eu ousaria recomendar-lhe que dedicasse seu tempo a caminhar ao longo do Rio Sena, La Seine, como a chamam, com feminilidade, os parisienses. Na visão de minha saudosa amiga Jeanne Bourgeois (N.da.R.: célebre cantora francesa conhecida como Mistinguett) 'é uma linda loira de olhos sorridentes'.

O Sena, as I see, é a alma daquela capital. Paris nasceu, ainda Lutécia, em uma pequena ilha dentro dele: a Ilha de la Cité. O sangue dos que a defenderam em infindáveis batalhas escorreu pelo seu leito. E as cabeças defenestradas na revolução de 1789 boiaram em suas águas. A partir delas medem-se as distâncias da cidade e os números dos edifícios. E nada menos que 84% das atrações mais visitadas da cidade ficam na área de abrangência do rio que cruza a cidade por exatos 13 quilômetros.

As margens do Sena guardam, as well, muitos encantamentos que vão além do turismo. Nos cais de Montebello e La Tournelle ficam os bouquinistes e suas típicas caixas atulhadas de livros antigos, revistas, ilustrações e outras preciosidades. No cais de La Mégisserie, o espaço é tomado por floristas e por lojas de artigos para mascotes que, as you know, são tão importantes para os parisienses como seus próprios filhos (ou mais, segundo as más línguas).

O cais de Voltaire é tomado por antiquários e o de New York funciona como estacionamento das péniches permanentes, cerca de 150 embarcações que assumem a função de residências para moradores autorizados a viver dentro do Sena. No cais D'Anjou, há pescadores com o balaio cheio porque o Rio Sena, saneado, voltou a ter 50 espécies de peixes. E, aos pés do Instituto do Mundo Árabe, o Quai St. Bernard tornou-se, aos fins de semana, um teatro aberto, com performistas, bailarinos e cantores revivendo os clássicos de Edith Piaf e Charles Trenet.

Well, darling, há muito mais para se ver nas cercanias dessa 'linda loira de olhos sorridentes'. Basta andar e manter os olhos abertos. Eu a poria na minha lista de feira. Would you?"

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ESTEVE EM 132 PAÍSES E 7

TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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