Uma pedra longe demais

Depois de uma semana que chamou de "revigorante", com um frio polar ativando sua circulação, mas "unfortunately, tornando mais sensíveis meus tendões do joelho direito", nosso extraordinário viajante decidiu aquecer-se ao sol do Caribe e dirigiu-se a Santa Lúcia, onde hospedou-se perto dos Pittons (as duas montanhas que servem como cartão-postal da ilha), na casa em estilo orgânico de seu velho amigo, o arquiteto russo-canadense Nick Troubetzkoi, figura folclórica da antiga possessão britânica.

O Estado de S.Paulo

14 Fevereiro 2012 | 03h09

De lá, sempre na companhia de sua mascote Trashie (que, sendo uma raposa das estepes siberianas, estava feliz com o inverno rigoroso e anda amuada no calor caribenho), ele nos envia a correspondência da semana.

Prezado mr. Miles: eu e meu marido vamos viajar para a Austrália e estamos na dúvida se incluímos Ayers Rock no roteiro, porque fica muito longe de tudo. O que o senhor recomenda? Irene Maltese Simms, por e-mail

"Well, my dear, que coincidência interessante! Ainda na semana passada, em Londres, presenciei uma cena constrangedora. Minha amiga Amy, que, no espaço de três meses, foi vítima de um assalto, caiu em um bueiro aberto, quebrou o braço caindo da escada e, finalmente, abriu a testa ao chocar-se com a porta de um armário, resolveu que tinha alguma coisa amaldiçoando a sua vida.

Lembrou-se, então, que, last year, trouxe da Austrália um pequeno pedaço da pedra que você chama de Ayers Rock, fato que os aborígines locais, os anangu, consideram um sacrilégio. Amy decidiu, after that, devolver a pedra ao Parque Nacional de Uluru-Kata Tjuta, assim como fazem centenas de pessoas atingidas pela maldição da pedra a cada ano.

Isn't it amazing?

Sobre a sua pergunta, primeiro uma correção em nome dessa trágica onda do politicamente correto que avassala nosso mundo ocidental. Desde 1985, quando os aussies devolveram formalmente o grande monólito para os anangu, o nome oficial passou a ser Uluru. Uluru foi novamente arrendado para o governo australiano por 99 anos, mas hoje apenas alguns raros estrangeiros - como você, for instance - ainda usam o nome Ayers Rock.

Well, já estive lá uma vez e a paisagem é realmente formidável. No meio de uma planície desértica, desponta o imenso rochedo, com 318 metros de altura, oito quilômetros de circunferência e, dizem, mais dois quilômetros e meio de rocha única sob a terra. Seria o maior monólito da Terra, não fosse o fato de que o Monte Augustus, também na Austrália, parece ser um pouco maior - embora menos impressionante em seu formato.

O mais bonito, dear Irene, é sua cor avermelhada, originária da oxidação de minerais que o compõem, como o feldspato. However, durante o dia, o Uluru muda de cor conforme a incidência do sol ou as nuvens no céu. Há um caminho para o topo feito de cordas com alças. But take care, darling! A subida é muito íngreme e, sob o sol abrasador, até grandes esportistas já foram derrotados pela Grande Rocha. Eu mesmo nem tentei fazê-lo, adivinhando que a vista lá de cima é apenas a de um deserto interminável.

Nevertheless, não resta dúvida de que se trata de um desses lugares mágicos do planeta - como os moais da Ilha de Páscoa, o Templo de Karnak ou as pedras de Stonehenge -, que convidam à reflexão e, quiçá, ao transe.

Veja como, therefore, é difícil para mim dizer se você deve ou não incluir Uluru no seu roteiro. Pense sobre o que eu escrevi e tome sua própria decisão. E, my God, não vá durante o verão, porque as temperaturas ultrapassam os 35 graus diariamente."

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E

16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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