Uma praga bíblica

Alguns leitores já nos escreveram pedindo o número do celular de nosso grande viajante. Pois na resposta à correspondência da semana, mr. Miles deixa bem claro o que pensa a respeito do tema.

O Estado de S.Paulo

27 Novembro 2012 | 02h12

Mr. Miles: o senhor aderiu aos telefones celulares ou aos smartphones para facilitar sua comunicação em viagens? Otávio Conucci, por e-mail

"Of course not, my friend. Tenho horror a traquitanas deselegantes e há décadas não vejo tamanha alteração de hábitos como a proporcionada por esses weird gadgets, que - me perdoe a franqueza -, a mim, lembram algo como uma praga bíblica. Tenho visto esses besourinhos prateados, cromados ou coloridos pendurados como adornos nos pescoços de zulus, maoris, berberes, gregos e, oh, my God, até de cavalheiros britânicos.

Não contesto sua funcionalidade - se é que existem coisas tão importantes que não possam esperar 20 minutos para serem comunicadas. E sim o inacreditável exagero em sua utilização, que passou de todos os limites agora que as pessoas ficam o tempo todo dedilhando mensagens com a urgência com que os náufragos agarram-se a uma boia.

Ainda esta semana, convidei uma velha amiga romancista para um chá no Dorchester, em Londres, e, para minha desagradável surpresa, ela veio acompanhada de um destes aparelhinhos. A engenhoca era quase tão pequena quanto um tubo de batom, de modo que, para que sua voz alcançasse o bocal, esta senhora (já avançada em anos) tinha de entortar a face, produzindo um esgar disgusting. Mas, muito pior que isso foram as constantes interrupções na nossa conversação. Por uma estranha inversão de valores, in this strange new world, pessoas que chamam de longe sempre têm preferência sobre interlocutores presentes.

Só não abandonei o recinto porque sou um gentleman, mas, decididamente, da próxima vez, farei um chá by myself e, quando resolver conversar sem ser interrompido, ligarei para seu celular.

Observando as pessoas nos aeroportos, nos bares ou nas praças, tenho percebido uma crescente avidez pelo uso destes comunicadores instantâneos. Apesar da indelicadeza, atrevo-me a ouvir algumas dessas conversas - até porque elas são feitas sem nenhuma discrição.

Quase todas são vazias, tristes rituais de contato, 'olá, onde você está?, 'pois eu estou aqui, daqui a pouco estarei acolá e assim que chegar te ligo de novo'. Oh, my God. Será que as pessoas já não estão suportando a si mesmas?

De minha parte, my friend, seguirei viajando pelo mundo sem a horrível sensação de estar permanentemente conectado. Que estranhas marionetes estamos nos tornando?

Lembram-se quando, após o terrível tsunami de anos atrás, refugiei-me em Botsuana, nos alagados do Delta do Okavango? Pois certa manhã, partimos numa canoa para fotografar pássaros. Havia, a bordo, um remador, um guia, um turista americano e myself. De repente, avistei um raro cormorão de peito branco que jamais havia conseguido fotografar. Ele estava tranquilo e indiferente quando ajeitei minha câmera. Eis que soa uma metálica versão da Cavalgada das Valquírias no inesperado celular do americano e o cormorão, assustado, some no arvoredo. Sabem o que era? Uma empresa de telecomunicações propondo vantagens na troca do serviço. Vou lhes fazer uma confissão: só não joguei o americano na água porque, unfortunately, ali não haviam crocodilos."

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E

16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.