Uma viagem em busca das origens

Instalado numa praia na costa marroquina, nosso correspondente prepara-se para organizar os rascunhos de um livro há muito solicitado por seus fiéis leitores. Pelo menos é o que ele afirma, embora as tentativas anteriores tenham acabado todas emperradas em sua excessiva atividade de homem mais viajado do mundo.

O Estado de S.Paulo

08 Novembro 2011 | 03h07

A seguir, a pergunta da semana:

Prezado mr. Miles: minha avó sempre sonhou em fazer uma viagem em busca de suas origens no interior da Polônia. Na verdade, ela nem sequer lembra direito o nome da pequena comunidade onde nasceu, mas garante que será capaz de reconhecê-la quando estiver por lá (fica perto de Lublin). Ela tem mais de oitenta anos e eu tenho um pouco de receio de levá-la numa empreitada deste tamanho. O que o senhor me sugere?

Tania Sulzberger, por e-mail

"Well, my dear Tânia, não conheço as condições de saúde de sua avó, nem sua disposição, mas a idade, as you know, não é nenhum impedimento para quem quer viajar. Eu mesmo confesso que já não sou um rapazote e sigo perambulando mundo afora. However, é vital que ela não tenha problemas de locomoção nem graves restrições de dieta se for partir para uma jornada tão cheia de incertezas como a que você se refere.

Unfortunately, essa é, indeed, uma viagem sem qualquer tipo de apoio. Não há operadoras de viagem que organizem grupos com essa finalidade, até porque as origens das pessoas são tão diferentes como seus destinos. Nevertheless, confesso que eu aprecio muito empreitadas como a que sua avó sonha fazer. São como road movies, com fatos e personagens inesperados entrando e saindo de cena a cada poucos quilômetros rodados. Não faça, dear Tania, da busca pelas origens o único propósito do passeio. Aproveite com carinho a calidez do amor de sua avó. Consulte um guia e leve-a para ver as atrações que existirem na região. Prove pratos típicos que a façam lembrar dos sabores de infância e caminhe pelos bosques que evoquem aromas há tanto tempo esquecidos.

Acompanhe sua avó, darling, como se estivesse fazendo uma viagem no tempo em que ela lhe conta sobre o passado e você faz com que ela veja, também, o presente.

Pelo que posso deferir de suas linhas, I'm sorry to say, dificilmente vocês encontrarão a comunidade que procuram. Essa região da Europa passou por inúmeras mudanças durante a 2.ª Guerra Mundial e, mais tarde, sob o domínio soviético. Aldeias e vilas simplesmente sumiram, com a erradicação de seus habitantes, sobretudo judeus, promovidas pelos nazistas. Outras mudaram de nome. Sei de um caso, my dear, de uma aldeia que ora constava no mapa da Ucrânia, ora no mapa da Rússia. Seus habitantes simplesmente mudavam para o lado oposto da fronteira conforme os humores políticos de cada país. Can you believe me?

E mesmo que vocês encontrem o lugar, não será nada fácil encontrar alguém que tenha pertencido à família de sua avó, cujos descendentes ainda vivam na mesma comunidade. However, como a beleza da vida (e das viagens) está em sua permanente capacidade de nos surpreender, pode ser que, em certa manhã, após uma curva no caminho, sua avó lhe diga, excited: 'É aqui. Tânia! É aqui! Reconheço esse velho olmo com o poço ao lado.'

E, ao perguntar ao primeiro passante sobre a família de sua avó, ele lhe diga: 'Claro que conhecemos! Seu avô morreu na guerra, mas o pai sobreviveu e o filho, Stefan, hoje é o médico de nossa cidade.'

Anyway, querida. Conte-me tudo quando voltar. Vou estar aqui torcendo por um happy end."

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ELE ESTEVE EM 132 PAÍSES E

7TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.