Velho Chico de canções e romances

Entre a nascente enlameada e a foz em um cânion, 2.700 km de história

Adriana Moreira, O Estado de S.Paulo

04 Novembro 2008 | 02h47

O sertanejo não trata o Rio São Francisco como um simples acidente geográfico. O mais famoso curso d?água do Nordeste é um integrante da família, um amigo próximo. Essa intimidade, porém, não impediu que o Velho Chico sofresse as conseqüências da ação humana: o leito assoreado prejudicou a navegabilidade, tão importante em outros tempos. Entre os grandes barcos que circulam por ali, o Benjamin Guimarães é o mais carismático. Sua história de prestígio e abandono se confunde com a do próprio rio. O Gaiola, como ficou conhecido, chegou ao país na década de 1920, vindo diretamente do Rio Mississippi, nos Estados Unidos. Quando foi aposentado, por volta de 1980, estava decadente. Mas esse período difícil teve fim após a restauração, que deixou o barco em condições de voltar ao rio em 2004. No ano passado, o Benjamim começou a realizar viagens de cinco noites no Velho Chico. O percurso revela experiências valiosas, como a seresta, a Dança de São Gonçalo ou um simples bate-papo com os moradores. Apenas 28 pessoas podem fazer o trajeto nas cabines duplas. O barco ainda funciona com o maquinário original, sem motor, alimentado por uma fornalha. A diferença é que, hoje em dia, a madeira utilizada vem de áreas de reflorestamento. As mudanças no leito do rio forçaram uma alteração no itinerário do antigo vapor. O trajeto, que já seguiu até Juazeiro (BA), hoje percorre 169 quilômetros entre Pirapora e São Romão (MG). Um trecho minúsculo, comparado aos 2.700 quilômetros de extensão do rio. Quem vai até a nascente, na Serra da Canastra, tem uma surpresa. Não há uma fonte d?água, como se poderia imaginar. O São Francisco brota da terra, formando uma poça enlameada. Se não fosse uma placa, ninguém notaria a nascente. Cenário bem diferente do encontrado na região da foz. Em Canindé do São Francisco, na divisa entre Sergipe, Alagoas e Bahia, os passeios de lancha e catamarã pelo cânion formado há 65 milhões de anos fazem sucesso. Ainda mais perto do mar está a alagoana Penedo. Há registros que a pequena vila foi ocupada por franceses já em 1534. Hoje, o que se vê no local é um belo conjunto arquitetônico, datado dos séculos 18 e 19, que lhe rendeu o apelido de "Ouro Preto nordestina". Boa parte das construções históricas está em recuperação. Um transtorno momentâneo que deixará ainda mais bonitas as ruas da cidade e vai custar R$ 11 milhões - a maior parte proveniente do Projeto Monumenta, parceria do Ministério da Cultura, do BID e da Unesco.

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