Daniel Nunes Gonçalves
Moradores têm protestado contra os grandes navios de cruzeiros Daniel Nunes Gonçalves

Veneza: como driblar multidões em uma dos destinos mais visitados do mundo

Há maneiras de se encantar com a cidade dos canais sem contribuir para o turismo predatório que vem irritando moradores - e mesmo os próprios turistas

Daniel Nunes Gonçalves, Especial para o Estado

06 de agosto de 2019 | 05h00

Sereníssima. Assim era chamada Veneza, na Itáliaem seus tempos áureos de república, do século 9.º ao 18. Visto de longe, o principal núcleo urbano daquele arquipélago de 118 ilhas, conectado por charmosas 391 pontes sobre 150 canais, era sinônimo de paz. A tranquilidade dos remadores que transportavam, em pé nas gôndolas, a população pela grande Lagoa de Veneza sempre foi, desde que elas surgiram no século 11, um retrato convidativo da cidade serena. 

Quem desembarca na alta temporada do verão europeu na Veneza do século 21 e tenta cruzar a Ponte Rialto, uma das atrações arquitetônicas favoritas da capital da região do Vêneto, ganha uma impressão bem distinta daquela visão calma que a cidade transparecia até o século 18, quando o turismo começou a se desenvolver ali. “Agitadíssima” poderia ser um adjetivo mais adequado para a Veneza de hoje – ao menos de dia. 

Nos horários de pico, quase não sobra um metro livre na famosa ponte branca do século 16, a mais antiga das passarelas sobre o Grande Canal, grande via de tráfego aquático local. É tanta gente de fora se acotovelando para tirar selfie, especialmente nos períodos em que navios de cruzeiros despejam milhares de turistas de um dia, que fica difícil achar graça no passeio. Veneza se tornou a principal vítima do chamado overturismo.

É justamente pelo impacto que tem sofrido em razão das excursões em massa que Veneza virou manchete. Em uma manhã de domingo de junho passado, o navio MSC Opera, com 13 andares e 80 metros de comprimento, perdeu o controle e bateu na doca e em um barco turístico do Canal de Giudecca. Em julho, foi a vez de os jornais internacionais repercutirem a multa de 950 euros (cerca de R$ 4 mil) que um casal de turistas alemães levou, antes de ser expulso da cidade, por ter sentado na escadaria da Ponte Rialto para preparar seu café da manhã.

Revoltados com a imagem sempre impactante de navios modernos gigantescos – são 502 por ano – beirando a beleza delicada de pequenos palacetes seculares, grupos de moradores têm repetido protestos em campanhas como a Não aos Grandes Navios, pedindo o fim das embarcações de cruzeiro na Lagoa de Veneza. As reações das autoridades, como a multa para quem fere o “decoro” da cidade – caso dos jovens da Alemanha – ainda não se mostraram eficientes para acalmar o ânimo dos residentes, que volta e meia penduram placas como “turistas não são bem-vindos, vão embora!”.

Mais viajantes, menos residentes

Com tanta gente disputando o mesmo espaço na Veneza que todos amamos, ninguém está satisfeito: nem a multidão de até 100 mil visitantes que chega só para passar o dia e muito menos os 52 mil habitantes do Centro Histórico, núcleo urbano formado pelos seis sestieri (bairros) principais: San Marco, San Polo, Santa Croce, Dorsoduro, Castello e Cannaregio. 

O desequilíbrio está na presença maior de viajantes do que de moradores. Um pequeno letreiro digital na vitrine da Farmácia Morelli, nos arredores da belíssima – e por isso mesmo superturística – Praça San Marco mostra que a população era de cerca de 170 mil pessoas em 1950. “Quanto mais visitantes chegam, mais habitantes saem”, lamenta o proprietário Dr. Nicolò Morelli.

Mas se a população era 3 vezes maior há 70 anos, por que o incômodo com as multidões agora? Veneza perde mil habitantes por ano porque eles estão insatisfeitos com os serviços que já não priorizam suas necessidades e porque os preços são inflacionados com foco nos turistas. São 27 milhões de visitantes a cada ano, o que excede em quase 6 vezes os 5 milhões anuais que o Brasil inteiro recebe. E falta emprego, especialmente fora do turismo, responsável por 97% da economia local. 

“O turismo não pode ser uma monocultura, a única economia da cidade”, diz Dario Bertocchi, um dos autores do livro Overturismo: Excessos, Descontentamentos e Medidas em Viagem e Turismo, coletânea de textos científicos lançada pela editora inglesa Cabi em junho (ainda sem versão em português).

Quem conhece, cuida

Assim como os estudiosos, todo mundo em Veneza discute o problema. Em 2018, o prefeito Luigi Brugnaro testou a solução de instalar portões para separar moradores de turistas, no acesso a determinados lugares, e foi acusado de segregação. Ao anunciar que cobrará, a partir de janeiro de 2020, uma taxa diária dos visitantes de um dia (já existe outra tarifa para quem pernoita), foi criticado por fazer Veneza parecer uma espécie de Disneylândia. 

“Criamos a campanha de conscientização #EnjoyRespectVenezia e contratamos 9 mil ‘guardiões’ para tentar educar os turistas”, diz Paola Mar, Conselheira de Turismo da prefeitura. “O caminho está em cuidar da cidade como um lugar para morar, e não apenas como um destino turístico”, defende Francesco Visentin, colega de Bertocchi no Departamento de Economia da Universidade Ca’ Foscari de Veneza, que assina o mesmo artigo.

Ele acredita que é preciso harmonia entre as experiências de forasteiros e anfitriões. “Veneza já não é dos venezianos, é um patrimônio de toda a humanidade e precisa ser cuidada por quem mora e quem visita.”

Ainda não há uma solução definitiva – e deixar de visitar a cidade tampouco parece uma boa opção. Mas dá, sim, para tentar fazer um turismo menos predatório.

OS MAIS CONCORRIDOS

Praça de São Marcos 

O coração da Veneza mais turística abriga ao seu redor os principais ícones da cidade: a Basílica de São Marcos, o Campanário, a Torre do Relógio. Se a muvuca é inevitável, dá para curtir tudo um pouco melhor fugindo das piores épocas, como julho e agosto. E preferindo o início da manhã ou a noite, quando muitos turistas já foram embora.

Palácio Ducal

A monumental construção em estilo gótico, concluída em 1424, foi a antiga morada do Doge, magistrado que governava Veneza. Há muito a se admirar ali, dos mosaicos da fachada aos afrescos e obras de arte de seu interior, assinados por mestres como Tintoretto (foto) e Ticiano. Ingressos: 14 euros (R$ 58).

Coleção Peggy Guggenheim 

Um dos museus mais importantes da Itália, reúne arte moderna europeia e americana da primeira metade do século 20. À beira do Grande Canal, o Palácio Venier dei Leoni abriga obras de notáveis como Dalí, Picasso, Miró, Mondrian, Chagall e Magritte, além de mostras temporárias. O ingresso online (16,50 euros ou R$ 68) é 10% mais caro, mas não tem fila.

Ponte dos Suspiros

O nome pode até sugerir certo romantismo, mas a história dessa passarela nada tem a ver com namorados apaixonados. Ela conectava as antigas prisões da cidade com o Palácio Ducal, onde os inquisidores eram julgados; no caminho de volta, já condenados, os presos suspiravam. Hoje, é uma das atrações mais fotografadas de Veneza.

ANTES DE IR

Como chegar: São Paulo – Veneza – São Paulo, com conexão em Roma, custa a partir de R$ 2.133 pela Alitalia. O aeroporto fica a 12 km do centro da cidade. Outra opção é voar a Roma e depois seguir a Veneza de trem (desça na estação Santa Lucia). Compre  passagens em trenitalia.com; o trajeto leva cerca de 4h (a partir de 46,90 euros ou R$ 202).

 

Site: venice-tourism.com.

 

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Oito dicas para uma visita mais serena

Quem não tem um amigo veneziano pode 'alugar' um: há muitas empresas que oferecem experiências fora do circuito tradicional

Daniel Nunes Gonçalves, Especial para o Estado

06 de agosto de 2019 | 04h50

As fotos das multidões circulando por Veneza são uma realidade, especialmente nas disputadas tardes de verão no Hemisfério Norte. Mas sua visita não precisa ser baseada em esbarrões, cotoveladas e filas. É possível ver a cidade por um outro ângulo em horários alternativos. Ou participar de tours que privilegiam a contemplação de lugares menos concorridos, de uma perspectiva mais próxima a dos próprios moradores. Aqui, oito dicas para ao menos tentar não ser mais um agente do overturismo. 

Ir com tempo 

Ainda que oficialmente não exista baixa temporada em Veneza, as multidões se concentram mesmo entre julho e agosto. Recomenda-se evitar o alto verão europeu e planejar entre 3 e 7 dias na cidade. Ficar um só dia, além de ser muito pouco, só piora o overturismo.

Longe da San Marco 

Estar em um dos seis bairros do centro histórico é imprescindível – melhor ainda nos residenciais Cannaregio, Castello e Dorsoduro. Quanto mais longe do circuito Praça San Marco-Ponte Rialto, mais fluida a circulação de pedestres. Cada dia com mais hotéis, Mestre, no continente, não tem aquelas gôndolas, aqueles canais e aquele mesmo charme.

Boas-vindas na Lagoa

Chegue pela água. Existem ônibus levando, por terra, do aeroporto a Piazzale Roma, na entrada das ilhas da Veneza histórica. Mas não há nada mais veneziano do que uma entrada triunfal navegando pela Lagoa de Veneza, nas embarcações da Alilaguna, vendo a cidade se aproximar, cheia de charme.

Caminhe à noite 

A magia que a Praça San Marco emana de dia, quando está lotada de turistas, também está ali à noite, mas sem ninguém. Ainda que os prédios estejam todos fechados, trata-se de um deleite para quem admira arquitetura – e toda aquela maravilha – em silêncio. Se for dia de acqua alta, então, bingo! A beleza das construções refletidas na água das inundações esporádicas será o auge da viagem.

Rialto dos mercados

Os venezianos entendem Rialto como sinônimo de feiras de rua, e não de uma ponte lotada. Para quem está hospedado em lugares onde é possível cozinhar, vale a pena acordar cedo, antes de os cruzeiros chegarem, e ir ao pé da ponte comprar pescados, legumes e outros ingredientes para mangiare um bom prato à italiana.

Gôndola baratinha

Quer andar de gôndola sem desembolsar 80 euros  (R$ 340) por meia hora de dia ou 100 euros  (R$ 420) à noite? Escolha cruzar o Grand Canal em um traghetto, gôndola para travessias rápidas, por 2 euros (R$ 8). Em Cannaregio a travessia sai do ponto Santa Sofia; em San Polo, a parada fica em San Tomà.

Várias ilhas no mesmo dia

Com o preço salgado dos vaporettos – 7,50 euros (R$ 31) para turistas, 1,50 euros (R$ 6) para residentes –, vale comprar o passe de 24 horas desses ônibus aquáticos por 20 euros  (R$ 84), e concentrar os passeios às ilhas no mesmo dia. Giudecca, com 11 galerias de arte, grafite e restaurantes à beira da Lagoa, e o cemitério da ilha de San Michele, onde está enterrado o compositor russo Igor Stravinsky (1882-1971), são lindas e menos movimentadas que as turísticas Murano e Burano.

Anfitriões amigos

Quem não tiver amigos “gratuitos” na cidade pode “alugar” um, o que costuma ser o grande trunfo para conhecer a Veneza escondida dos turistas. Moradores oferecem caminhadas e atividades variadas em sites como Venezia Autentica, ShoMe, AirBnb Experiences e The Venice Insider.

 

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Cannaregio, refúgio antimuvuca

Fora da rota turística tradicional, o bairro guarda experiências mais autênticas

Daniel Nunes Gonçalves, Especial para o Estado

06 de agosto de 2019 | 04h50

“O ofício de remar ao estilo veneziano nos ensina a navegar devagar, sem pressa”, explica Emiliano Simon, um jovem nativo de 32 anos, enquanto manuseia delicadamente o remo de um barco quase idêntico à gondola, embarcação-símbolo de Veneza. “Quando a gente se move levemente, sem ruído, aprecia a cidade de forma verdadeira, a partir da água, como os venezianos têm feito por séculos.” O minicurso de 1h30 (40 euros ou R$ 170) que ministra com seus amigos Nicola Ebner e Damiano Tonolotto, ambos de 30 anos, na escola Venice On Board é o melhor jeito de reviver La Sereníssima e viver uma experiência autêntica.

Eu não descobriria que é possível ser gondoleiro por um dia se não tivesse recebido a dica de outro morador. Foi o geógrafo cultural Francesco Visentin, pesquisador da Universidade Ca’ Foscari, quem deu uma daquelas dicas de amigo preciosas: “Vale a pena aprender a remar com os rapazes da oficina de restauração de barcos tradicionais de madeira de Cannaregio”. Além de ser mais econômica que os caríssimos passeios convencionais de gôndola, a experiência pelos canais pacatos da vizinhança mais residencial do Centro Histórico mostrou que é preciso viver como um local para conhecer a Veneza real, fluida, tranquila.

Cannaregio, que já tinha virado o bairro para chamar de meu, por ser onde escolhi me hospedar, permitiria que eu descobrisse outras surpresas. Uma delas foi aprender como se fazem os famosos vidros de Murano sem precisar contratar uma excursão para a ilhota turística vizinha. Na loja de bijuterias Momylia (Cannaregio, 3.378, momylia@libero.it), o artesão Mauro Zennaro apresenta, sem custo, o processo artesanal de fusão dos metais no seu rústico ateliê. 

Quem me levou ali foi Luca Fornasier, de 24 anos, veneziano que promove caminhadas guiadas (100 euros ou R$ 420, 2h; shomevenice.com) e outros tours com sua namorada, Erika Chia, de 21 – famosa na cidade por ser a Maria do Carnaval de Veneza de 2018 (espécie de rainha da festa).

A deliciosa caminhada pelo preservado Ghetto, bairro onde os judeus eram confinados no século 16, foi orientação do casal Sebastian Fagarazzi e Valeria Duflot, ele italiano e ela francesa, criadores do Venezia Autentica. A plataforma compila mais de 100 experiências locais, como degustações gastronômicas com vinho (199 euros  ou R$ 840, 2h) e aula de confecção de máscaras de carnaval (150 euros ou R$ 633). 

Outra dica de Visentin, a pouco conhecida Igreja della Madonna dell’Orto exibe 10 pinturas fantásticas e o túmulo do mestre Tintoretto, um dos mais famosos pintores locais – o Palazzo Ducale e a Gallerie dell’Accademia, que exibem outros de seus trabalhos no miolo mais turístico da cidade, requerem filas para serem vistas. 

Passei com alguns desses novos amigos o fim da tarde em outro programa típico dos locais: testando os bacari (barzinhos) da Fondamenta Misericordia e provando chicchettis (petiscos) com spritz ou vinho italiano. Na escondida Trattoria Dalla Marisa (Cannaregio 652b Calle Canna), só pude entrar e provar a deliciosa polenta porque estava acompanhado de residentes. Ali os donos só acomodam os turistas depois que os moradores da fila já tiverem garantido mesa.

 

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A arte como crítica

Até novembro, a prestigiada Bienal de Veneza inunda a cidade com obras de arte que, algumas vezes, são uma provocação ao overturismo

Daniel Nunes Gonçalves, Especial para o Estado

06 de agosto de 2019 | 04h50

Boa parte dos turistas que Veneza recebe em 2019 é formada por amantes da arte que vão à 58.ª edição da Bienal, o maior e mais prestigiado evento de arte do mundo. Sob o tema May You Live in Interesting Times (algo como Que Você Viva em Tempos Interessantes), 79 artistas ocupam, até 24 de novembro, dois espaços em Castello: o Arsenale, complexo de estaleiros que remonta ao século 12, e o Giardini, lindo parque à beira da Lagoa. 

Espalhados pela cidade estão alguns dos pavilhões dos 89 países presentes, o que recheia o menu artístico local, que conta com museus como Peggy Guggenheim e Gallerie dell’Accademia. Neste ano, o Brasil participa, em um pavilhão do Giardini, com o vídeo Swinguerra, da dupla Bárbara Wagner e Benjamin de Burca. Com 20 minutos, é um registro de dançarinos das periferias de Pernambuco ensaiando a swingueira. Os jovens são em sua maioria negros e de gênero não-binário, o que torna a performance mais provocativa.

Apesar da overdose de trabalhos contemporâneos do circuito oficial, uma obra clandestina roubou a cena em maio. O artista anônimo britânico que assina como Bansky promoveu uma performance desautorizada na Praça San Marco. Cavaletes com nove quadros, que juntos criavam a imagem de um navio se impondo sobre as pequenas gôndolas de Veneza, serviram de protesto não apenas ao problema do overturismo na cidade, mas também ao fato de Bansky nunca ter sido convocado para expor na Bienal.

O artista (ou alguém que ele contratou) foi expulso da praça, mas a performance e a obra, intitulada Venice in Oil, foram registradas em vídeo e viralizaram nas redes sociais digitais.

No line-up oficial, uma outra crítica às formas de lazer da sociedade de consumo, como o turismo de massa, ganhou os holofotes. A instalação Sun & Sea (Marina), do coletivo Neon Realism, da Lituânia, ganhou o Leão de Ouro, prêmio máximo da Biennale 2019. 

A performance ocorre todos os sábados até novembro, dentro de um galpão do prédio histórico da Marina Militare. Nela, cantores e voluntários simulam ser um grupo de banhistas em uma praia turística qualquer, e nela entoam uma ópera.

A obra foi vista também como um alerta ao aquecimento global em uma cidade sensível a inundações. Em outubro de 2018, a subida das águas em 156 centímetros acima do nível do mar foi a maior da década, alagando três quartos da cidade. As águas, como o excesso de turistas, são uma ameaça delicada à vida de Veneza.

 

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