Viagem à lua

Nosso incorrigível viajante mandou-nos uma estranha carta caligrafada em que, pela primeira vez, coloca em dúvida se suas histórias e comentários realmente agradam aos leitores. Pondera mr. Miles que, apesar da generosa correspondência que recebe e de sua solerte assiduidade, um estranho sexto sentido (herdado de seu tio Howard) tem-no levado a crer que seu valor, como cronista, não seja devidamente apreciado. "Apenas os laços de carinho com meus leitores têm me levado a recusar propostas do Times, de Londres, do Washington Post, do Le Figaro e do El Clarín, só para mencionar alguns veículos", conta, visivelmente magoado. O correspondente britânico pede, por fim, que os leitores façam-no levantar o astral escrevendo para miles@estadao.com.br. A seguir, a correspondência da semana.

O Estado de S.Paulo

17 Julho 2012 | 03h08

Prezado mr. Miles: vi, na televisão, uma reportagem sobre turismo ao redor da lua a partir da britânica ilha de Man. Foi dito que o passeio vai custar R$ 300 milhões por pessoa. O que o senhor acha disso? Tem interesse em participar?

Armando Guidi, por e-mail

"Well, my friend: digamos que é difícil colocar essa expedição na categoria de turismo. By the way, conheço há anos o cabeça desse projeto, Art Dula, um agradável lunático que parece não medir esforços para encontrar seus pares no espaço sideral. Viajar ao redor de nosso reluzente satélite é, no máximo, uma experiência extravagante, ligeiramente claustrofóbica e muito perigosa.

Os equipamentos que Art pretende utilizar são naves soviéticas recicladas que oferecem um conforto bolchevique. Ele me contou que espera poder mandar seus viajantes para jornadas de cinco a seis meses, que incluem inúmeras aproximações do território lunar.

Well: posso imaginar que existam biliardários excêntricos dispostos a fazer uma viagem pelo espaço. Mas suponho, as well, que, com R$ 300 milhões para desperdiçar, eles podem desenvolver suas pequenas Nasas particulares - e, of course, até ganhar dinheiro com isso.

De minha parte, dear Armando, considero uma experiência dessas apenas um delírio contemplativo. Algo como subir os 470 degraus de uma catedral para ver os telhados de uma cidade ou jantar em um desses restaurantes panorâmicos que giram enquanto você está comendo.

Falta-lhe tudo o mais. Os aromas, que estão presentes em qualquer lugar, a sensação de temperatura, a brisa e os sons locais. Ainda que perto da Lua, os expedicionários desse projeto não terão nada disso. Não poderão, for instance, caminhar pela superfície do satélite, ainda que aos saltos (o que deve ser muito divertido). Não terão como comprar souvenirs, nem sequer surrupiá-los - uma pedra lunar é, ao menos, um presente raro, isn't it?

Não terão nenhum nativo para conhecer, compartilhar costumes, crenças, ideias e preferências - a não ser que, por uma enorme coincidência, pudessem encontrar uma excursão de marcianos - o que ainda assim seria frustrante, visto que não há qualquer possibilidade de sair da nave nesse programa 'turístico'. Mas, pior que tudo o que eu já disse, terão pago uma fortuna para que a Lua, devidamente desvendada em suas máquinas fotográficas, deixe de ser uma fonte de poesia e um cenário de sonhos.

Enfim, não há dúvida de que continuo preferindo viajar pela Terra, que nem em duzentas vidas chegarei a conhecer apropriadamente. Quanto à Lua, fico sempre com o inocente comentário de minha querida tia Ambroise, que, ao ver Neil Armstrong caminhando, pela primeira vez, naquele solo, disse-me: 'Que maravilha, Miles! Imagine quando ele olhar para baixo e avistar a Terra!'

Amazing, isn't it?"

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ESTEVE EM 132 PAÍSES E 7

TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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