Deise Bataglin
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Viagens ajudam a aliviar cansaço mental causado pela pandemia

Dias longe da rotina podem combater exaustão e estresse de período longo de isolamento, desde que mantida a segurança sanitária; especialistas explicam os benefícios

Nathalia Molina, Especial para o Estadão

31 de agosto de 2021 | 05h00

Reconexão, descoberta, bem-estar. Diante de tantos significados que uma viagem pode ter, muitos se tornam agora ainda mais relevantes. Experiências proporcionadas pelo turismo podem ser aliadas no cuidado com a saúde mental e ajudar a lidar com quadros provenientes da pandemia, como ansiedade e exaustão.

“A viagem sempre traz descobertas de lugares e interações. Com uma parcela da população em home office, também oferece a possibilidade de deslocamento”, afirma Mary Yoko Okamoto, professora de Psicologia da Universidade Estadual Paulista no câmpus de Assis (Unesp/Assis). Ela explica que a conexão com os outros e consigo mesmo vivida nos dias longe de casa promove uma experiência emocional interna. “É uma medida para buscar um alívio, mesmo que seja temporário, para descarregar tensão, tristeza e angústia.”

Quando a ansiedade se caracteriza como transtorno ou doença, pode ser preciso fazer terapia e às vezes usar medicamentos, diz o médico Joel Rennó Jr., professor colaborador do Departamento de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e colunista do E+ do Estadão. “Porém, atividades de lazer, socialização e ressignificação da experiência de vida podem contribuir positivamente”, diz.

Rennó Jr. lembra que todos vimos escapar o referencial de controle diante de tantos casos de doença e mortes. “Tem quem lide com sequelas da covid, outros perderam pessoas próximas. A pandemia exacerbou o sentimento de apreensão, de finitude da vida. Algumas pessoas acabaram projetando planos até como forma de não adoecer, para encontrar força para lidar com estresse, medo, fracasso. Por exemplo, dizem ‘assim que isso passar, vou fazer uma viagem para a Itália ou Fernando de Noronha. Sempre tive vontade e nunca fiz’.”

O longo período em isolamento, segundo a professora da Unesp, tirou do ambiente doméstico o significado de lugar de descanso. “Ele se tornou um ambiente para muitas coisas. O mundo do trabalho e dos estudos invadiu o mundo de casa. Sair traz a sensação de liberdade, de movimento.”

Depois de meses ensinando Artes em aulas online ou híbridas, Thaiany Ferreira passou uns dias em julho num hotel na Bahia. Foi para o Grand Palladium Imbassaí Resort & Spa com o namorado, Bruno Izzo, que trabalha na rede pública de Saúde em São Paulo. “Sou professora do Estado e meu namorado trabalha na parte administrativa de um hospital. São áreas desafiadoras”, diz. A quebra na rotina ajudou a espairecer. “Depois de um ano e meio bem rígido, serviu para relaxar. Sentimos um pouco da vida de antes da pandemia”, conta Izzo.

Esse foi um dos benefícios de viajar apontados por Felipe Laccelva, CEO da Fepo, startup digital especializada em atendimentos psicológicos, com preços acessíveis, a partir de R$ 38. “Traz a sensação de que estamos retornando ao modo de vida anterior, que o pior ficou para trás. Vivenciar experiências novas e inspiradoras é o que todos nós precisamos agora”, diz o CEO da empresa, que, só em 2020, ultrapassou o total de 27 mil sessões, contra 1,8 mil no ano anterior.

“O Brasil antes da pandemia já era considerado o país mais ansioso do mundo, com 9,3% da população com o transtorno, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde). Em junho de 2020, na pandemia, 41% dos brasileiros ouvidos numa pesquisa do Instituto Ipsos afirmaram ter experimentado algum nível de ansiedade. Outro estudo da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) verificou que cerca de 80% dos entrevistados sentiram subir os níveis de ansiedade.”

O distanciamento prolongado, necessário para conter a propagação do coronavírus, acabou afetando o lado psicológico, afirma Laccelva. “O ser humano é um ser social e o distanciamento provocou o aumento dos níveis de ansiedade”, diz. “A terapia é a principal maneira para lidar com isso. Nas consultas, a pessoa tem um espaço para ser acolhida e expressar angústias e receios, sem julgamentos. Entretanto, há outras formas que ajudam a minimizar as consequências, como atividades físicas e de lazer. Desde que respeitada a segurança sanitária, essas ações geram bem-estar.”

A professora Thaiany lembra que o medo causado pelo coronavírus afetou seu equilíbrio no dia a dia. “Toda essa situação mexe muito com o psicológico da gente. A pandemia, a pressão no trabalho, questões pessoais, familiares, são várias as situações. Acabou acontecendo de eu não pensar na saúde mental. Mesmo que a viagem não resolva, ajuda a sair um pouco da rotina”, diz. “A gente ficou mais tranquilo quando liberaram as vacinas. Ficou mais confortável para ter o prazer e o privilégio de, com todos os cuidados, curtir as férias.”

É preciso reforçar que a pandemia não acabou e que as viagens devem sempre contemplar máscara, álcool em gel e distanciamento social. E que nem todos têm condição financeira de viajar. Mary Yoko, no entanto, afirma que essa necessidade é legítima. “Não é porque somos privilegiados do ponto de vista econômico que estamos impedidos de sofrer, que não ficamos tristes também. Temos sido muito exigidos. Como a gestão da pandemia não nos oferece segurança, o nosso grau de incerteza atingiu um patamar muito alto”, afirma a professora da Unesp. “De verdade, temos um limite para suportar certas coisas. Quando atingimos esse limite, precisamos de algo que forneça alívio.”

Atividades em busca de relaxamento e bem-estar

Talvez isso explique o maior interesse dos hóspedes do Virá Charme Resort, no Paraná, em serviços de relaxamento e bem-estar. Em julho de 2021, a procura por passeios a cavalo cresceu 29% em relação a junho, o mês recordista em números de saídas, e 181% quando comparado a janeiro do ano passado, principal período da alta temporada. O empreendimento, a 150 km de Curitiba, vendeu 14,91% mais tratamentos no spa do que em junho deste ano e 20% acima de janeiro de 2020. O hotel-fazenda tem apenas 38 bangalôs em 170 hectares de área.

O setor de turismo no Brasil vem percebendo uma retomada gradual, com novas vendas e retorno de voos. “A vacinação e a flexibilização das restrições impostas pelo governo local fazem com que os clientes se sintam mais seguros e à vontade para viajar e aproveitar melhor o destino”, afirma Paulo Fernandes, diretor geral do Grand Palladium Imbassaí Resort & Spa, na Bahia.

“Hotéis-fazenda e resorts estão entre os mais vendidos de julho no Zarpo. A infraestrutura de lazer e descanso é um atrativo incrível nesses tempos de isolamento”, diz Daniel Topper, CEO da agência online, com 7 milhões de clientes e cerca de 500 parceiros, caso das redes Blue Tree, Tauá, Vila Galé, Iberostar e Bourbon.

No Zarpo, junho de 2021 foi o melhor mês desde a Black Friday, em novembro passado, e julho deste teve 9% mais vendas do que o mesmo período em 2019. “Depois de mais de um ano vivendo em isolamento no cenário da pandemia, as pessoas estão ávidas para viajar. Esse sentimento se refletiu bastante nos últimos três meses, em que registramos crescimento na receita, em relação aos mesmos meses de 2019”, afirma Topper. “O avanço na vacinação contribuiu também para esse aumento. Poder viajar com segurança é como ter de volta a normalidade, que é o principal desejo de todos.”

Pode ser uma escapada longa ou curta, rumo ao interior ou para a praia, sozinho ou em família. O aposentado Cláudio Ferreira fechou com a Pomptur um roteiro em outubro para voltar ao complexo Jurema Águas Quentes, no Paraná, desta vez acompanhado da mãe e da irmã. “A expectativa é boa, de ter um pouco mais de tranquilidade. Minha mãe está vacinada com as duas doses. Até lá já eu tomei a segunda, e minha irmã também”, conta o viajante, isolado desde o roteiro para a baiana Porto Seguro no verão de 2020. “Depois que voltei, não passou uma semana e fechou tudo”, lembra Ferreira, que adora destinos com água, seja no litoral do Nordeste ou no interior do País.

“A nossa decisão de viajar foi por querer fazer algo externo. Estamos há muito tempo dentro de casa, e isso mexe com nosso psicológico e físico. E o hotel é próprio para isso: oferece a parte recreativa, piscinas de águas aquecidas, um ambiente gostoso, com tudo limpo e bem cuidado. Tem muita natureza, espaço”, afirma o viajante.

Localizado a 135 km de Maringá, numa área de 3,4 mil km², o complexo com dois resorts e águas termais viu o movimento voltar a subir em 2021: registrou 41% de aumento na ocupação de julho, em relação ao mesmo mês no meio da pandemia, no ano passado. “A oportunidade da viagem agora com a vacina é uma forma de a gente ir quebrando um pouco o medo. O caminho para a gente se cuidar é tomar a vacina e manter os cuidados de higiene.”

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