Viagens para trocar de aparência

Nosso intrépido viajante não vê motivos para uma 'recauchutagem' meramente exterior

Mr. Miles, o homem mais viajado do mundo, O Estado de S. Paulo

17 Fevereiro 2009 | 02h21

Nosso solerte correspondente envia seus agradecimentos a leitores ilustrados como Marcello Borges, "um bom anglófilo, que não dispensa o bom humor, o guarda-chuvas Briggs" e, a propósito do artigo publicado na semana passado, as gravatas. "Tenho algumas da Turnbull & Asser, a loja que fornece para o príncipe de Gales."

Já de malas prontas para uma nova e ainda não revelada aventura, mr. Miles responde à pergunta da semana:

Dear mr. Miles: notei, em sua última coluna, na qual aparece ao espelho dando o nó windsor na gravata, que está bem mais jovem que nas fotos habituais. Será que aproveitou a viagem ao Brasil para fazer um lifting? By the way, qual a sua opinião sobre o "turismo da cirurgia plástica" promovido na Malásia, no Brasil e em outros destinos exóticos? Parabéns pela coluna! Adoro seus textos!

Vera Passos, por e-mail

"Vera, my darling: de fato, o desenhista responsável por ilustrar minha humilde coluna foi bastante generoso ao rejuvenescer-me daquela maneira. Sou obrigado a confessar, however, que jamais tive a aparência que o artista imaginou. Fui, in fact, ligeiramente assemelhado à foto que ilustra esta seção - a única, como se sabe, divulgada de minha pessoa. Mas mesmo esse instantâneo, capturado longos anos atrás em Notto, na Sicília, não conta a história fidedigna.

Era comum, naquela época, a manipulação de fotografias por meio de retoques com pincel e tinta. E foi apenas ao ver o resultado que pude perceber que o retocador em questão não era nenhum Tintoretto. Jamais fiz, therefore, nenhum tipo de soerguimento facial - aquilo que, com propriedade, você chama de lifting.

Sobre a sua questão, I'm very sorry to say, mas tenho certa dificuldade em classificar esse tipo de movimentação como turismo. Minha velha amiga Connie, de Sacramento, já esteve mais de dez vezes no Brasil, sempre no Rio de Janeiro, e jamais foi à praia, nunca ouviu falar do Corcovado e não conhece o sabor do tremoço de um pé-pra-fora. Em compensação, seu antigo delicado sorriso é hoje uma permanente gargalhada. Is she a tourist?

Considero ótimos os viajantes que partem abertos a mudanças - e quase sempre as encontram. Mas não é preciso ser tão literal... Don't you agree? Sei, of course, que os cirurgiões plásticos brasileiros são muito mais qualificados do que o retocador de quem falei há pouco. Tenho, however, enorme dificuldade de compreender as pessoas que reformam a si mesmas (exceto, é claro, em caso de deformidades acidentais). As orientais, que gastam fortunas para ocidentalizar seus olhos, for instance. Ou my dear Elza Soares, que hoje poderia chamar-se Mitiko Soares, tão nipônicos se tornaram seus olhos de sambista.

Devo, indeed, ser um homem de outro tempo. Ouso pensar que, quando as pessoas estão infelizes com o que são, o problema está por dentro, não por fora. De que vale buscar um funileiro (ou lanterneiro, as you say in Rio) se a avaria está por baixo da carenagem? Well, my dear: é só uma opinião, pela qual serei certamente execrado. E para que não me julguem um radical, proponho aos seguidores de Connie que sigam viajando para a Malásia, o Rio ou qualquer outro belo lugar onde exista um bom cirurgião plástico.

But do me a favor, please: antes da cirurgia, visitem o lugar com a alma aberta para descobertas. Se ainda assim não funcionar, então ponham seus narizes onde quiserem."

*Mr. Miles é o homem mais viajado do mundo. Ele já esteve em 132 países e 7 territórios ultramarinos

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