Max Rossi/Estadão
Max Rossi/Estadão

Viagens salvam casamentos?

'Don’t forget, darling': os problemas sempre viajam junto conosco

Mr. Miles, O Estado de S. Paulo

20 Novembro 2018 | 03h00

Nosso viajante sem destino fixo decidiu que não era mais tempo de esperar o resfriamento total do norte da Noruega e, para alegria de Trashie, sua raposinha das estepes siberianas, partiu para Karasjok, situada no extremo norte da Noruega. Famoso por ser um dos principais povoados do povo sami, que habita a tundra gelada dos países nórdicos e da Rússia, Karasjok é um lugar idílico no verão, com temperaturas agradáveis, flores, lagos e áreas verdes. No outono, contudo, já começa a sofrer com ventos que muitos brasileiros considerariam assustadoramente frios.

Como não podia deixar de ser, Mr. Miles tem um velho amigo em Karasjok, o amável Toralf Holmestrand, proprietário de uma pousada chamada Jergul Astul. O estabelecimento estava lotado, como costuma ocorrer nesta época do ano, quando muitos viajantes exploram os confins do planeta, antes que o inverno volte a trazer temperaturas de 50 graus negativos. 

Contudo, para Mr. Miles – um apreciador de guisados de rena e ex-aluno do idioma sami de seu querido tio Udin –, Toralf encontrou espaço. “Ele compreendeu, my friends, que eu estava realmente precisando de alguns dias de muita paz, depois de ver tantos embates nas redes sociais que quase me fizeram perder o bom humor e a fleuma, únicas armas que nós, ingleses, temos para nos defender de gente mesquinha.” De Karasjok, nosso correspondente responde à pergunta da semana:

Mr. Miles, estou vivendo uma crise conjugal e acho que uma viagem pode ajudar a salvar meu casamento. O senhor acha que isso funciona? E que tipo de viagem o senhor me recomendaria? Marlene. C., por e-mail. 

Well, my dear, I’m very sorry about your problem – e, de antemão, celibatário que sou, declaro-me um conselheiro matrimonial de parcos recursos. O bom senso, however, me levaria a tentar saber, primeiro, o nível de profundidade de sua crise conjugal.

Conheço uma série de episódios que não terminaram bem com a sempre apreciada adição de uma viagem. Quando um casal, as you know, já está enfastiado dos hábitos entre parceiros, a viagem costuma ser mais irritante do que uma coceira provocada por urticária.

“Nós combinamos de acordar cedo!”, há de acusar um dos membros da parelha. “Você nunca se interessa em ver o que realmente vale a pena”, há de agredir o outro. Sendo as viagens episódios especiais, apaixonantes e, por isso mesmo, tensos, relações em decomposição não costumam resistir ao seu impacto. 

Casos de negligência de atenção provocados por excesso de trabalho podem ser resolvidos em uma viagem a dois. But, sometimes, o problema não é tão simples. Vou lhe contar dois casos exemplares. 

Tenho um amigo, fotógrafo internacional, que, em função de suas repetidas viagens, sentiu o que chamou de “um leve estremecimento” em sua relação com a mulher. Zeloso, ele a convidou para uma segunda honeymoon na bela Sicília, quando, pela primeira vez em cinco anos, ambos puderam conviver intimamente por duas semanas. Na volta, o casal separou-se. Litigiosamente. As relações, as you see, já estavam degradadas a ponto de ambos sequer perceberem.

Num episódio oposto, um casal que já não se suportava decidiu viajar. Ele para a Nova Zelândia. Ela para o Canadá. Passaram três meses sem se comunicar. Assim que retornaram, decidiram reatar seu compromisso apaixonadamente, porque o mundo lhes pareceu opaco sem que um tivesse o outro a seu lado.

I honestly believe, my dear Marlene, que viagens são bons sonhos. E só envolvem dor quando representam fuga ou exílio. Don’t forget, darling: os problemas sempre viajam junto conosco. Se eles forem pequenos, podem ficar esquecidos na gaveta do hotel. Mas se forem grandes, serão sempre capazes de ocupar o espaço reservado para você.

*MR. MILES É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E  16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS. SIGA-O NO INSTAGRAM @MRMILESOFICIAL. ESCREVA PARA MILES@ESTADAO.COM

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