Viajando com sofrimento

Nosso contumaz viajante está de malas prontas para mais uma temporada de birdwatching (o destino ele não mencionou) e, diante da crise financeira que assola os mercados, pede que recomendemos férias aos agentes envolvidos nessa questão. "Um tempinho para reflexão faria muito bem a todos vocês. Embarquem o pânico em uma mochila e ponham-no numa caminhada de nível forte. Ele vai perder gordura e más energias." A seguir, ele responde à pergunta da semana: Querido mr. Miles: sinto-me uma viajante limitada. Simplesmente não consigo aproveitar lugares secos e altos. Meus sentidos ficam comprometidos, minha pele fica lacerada. O senhor tem alguma sugestão? Heloísa Consiglia, por e-mail "Well, my dear, consigo compreender o seu penar. Somos seres frágeis e, embora tenhamos enorme capacidade de adaptação às condições mais adversas, esse mecanismo nem sempre funciona com a rapidez desejada, isn?t it? Sobretudo quando viajamos de férias e, most of the times, o tempo necessário à aclimatação supera a própria duração da estada. Tenho observado que essa característica pouco ou nada tem a ver com forma física ou idade. Certa vez, minha tia Henriette, à época entrada nos 90, fumante contumaz e apreciadora de gim, viajou, just for fun, para Lhasa, no Tibete, uma das capitais mais altas do mundo. Aunt Henriette, de quem herdei o espírito aventureiro, queria ir sozinha e explorar o país. Seu neto Willbour, no entanto, julgou uma irresponsabilidade permitir que a avó ?de maus hábitos? viajasse sozinha para o ar rarefeito dos Himalaias. Reputado remador em Oxford, antigo membro da equipe olímpica britânica e cidadão de hábitos saudáveis (?sports everyday, organics only, mediterranean diet?), Willbour levou até estojo de primeiros socorros para oferecer assistência à avó em caso de emergência. Assim que desembarcaram em Lhasa, Henriette teve a má sorte de tropeçar na escada que conduzia do avião à pista. Willbour, atento, projetou-se na direção da avó, que, no entanto, reequilibrou-se com ajuda do corrimão. Não teve a mesma sorte o pobre Willbour. Ao buscar um apoio viu-se, subitamente, sem ar para respirar. Buscou tudo o que podia em seus treinados pulmões, mas o pouco que encontrou serviu apenas para que percebesse o tamanho da dor de cabeça que dele se apoderava, antes de perder os sentidos. As you see, my dear, as férias de tia Henriette foram estragadas pela altitude: ela teve de passar os dias subseqüentes na cabeceira da cama do desafortunado neto, vítima, ele sim, da difícil adaptação de seu organismo. Quanto à questão da pele seca, oh, my God!, eu também sofro dessa maldição. Durante a campanha do Saara, disse diversas vezes a Montgomery (N.da R.: General Bernard Law Montgomery, comandante das tropas inglesas na luta contra Rommel na 2ª Guerra) que as rachaduras nas minhas mãos e as pastas gosmentas que me davam para abrandá-las eram piores que as tropas inimigas. Com o tempo, o ressecamento parou de me incomodar. Assim será, darling: só o tempo permitirá que você se adapte aos incômodos que a afligem e tornará prazerosa qualquer viagem a que seu corpo reagir. Mas vale a pena. Trust me!" * Mr. Miles é o homem mais viajado do mundo. Ele já esteve em 132 países e 7 territórios ultramarinos. É colunista e conselheiro editorial da revista ?Próxima Viagem?

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

14 Outubro 2008 | 01h34

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