Viajando com um querubim

Sempre aproveitando o melhor da vida, nosso correspondente britânico aprovou a generosa hospitalidade de seus amigos magiares e acabou prolongando sua estada em Budapeste para aperfeiçoar seus conhecimentos do idioma húngaro, um dos raros que mr. Miles nunca se deu ao trabalho de aprender. ''Trata-se, of course, de um lamentável desleixo de minha parte, mas o fato de o húngaro ser uma língua sem parentes, falada apenas nessa pequena porção da Europa, acabou me levando a dedicar esforços a outros idiomas mais praticados. Besides, os húngaros são o povo que menos emigra em toda a Europa do Leste, de modo que não há tantos deles por aí. A vantagem é que, dessa forma, eles não espalham suas intermináveis proparoxítonas pelo planeta. Don''t you agree?'' Mr. Miles: tenho um filho de 2 anos e pretendo viajar com ele e meu marido para a Europa, com a intenção de fazer um roteiro de carro. Muitos amigos têm me desaconselhado, mas se eu o deixar aqui, tenho certeza de que vou ficar dividida durante toda a viagem. O que o senhor acha? Débora Sentinela, por e-mail ''Well, well, Debbie. Antes de mais nada, quero cumprimentá-la pelo arrojo de estar disposta a dividir o prazer da maternidade com o prazer de viajar em tão curto espaço de tempo. Believe me, my dear: poucas mulheres o fazem com crianças tão pequenas. Isso posto, however, o bom senso recomenda que eu me alinhe à legião de amigos que a desaconselham a levar o petiz em uma jornada de tal magnitude. Ainda que ele seja comportado como um querubim, sua viagem terá a mesma liberdade de uma excursão com horários e guias rígidos. O seu guia, of course, será o pequeno sucessor, que, mesmo sem conhecer nada a respeito dos lugares que você pretende visitar, determinará, sem dó nem piedade, aqueles que você e seu marido poderão (ou não) conhecer e, da mesma forma, estabelecerá, por força de suas fraldas ou de sua fome, o tempo máximo de visitação. É claro que, ainda assim, pode ser ótimo. Talvez ele não lhe permita visitar o Castelo de Chambord, mas é sempre possível viver momentos felizes em um escorregador da área de serviço da rodovia mais próxima, isn''t it? Dispensar refeições gastronômicas e bons vinhos também não vai fazer sua viagem naufragar. But remember, dear Debbie, nem sempre é fácil encontrar um fast-food na Dordogne, na Toscana ou em Sussex. Sexo? Well: vocês já devem estar cansados do assunto, am I right? Porque não importa quantas emoções vocês vivam, suponho que não haverá noites tórridas com o querubim no quarto. É claro que restarão, sempre, lindas fotos para o futuro. Quando ele crescer, sempre poderá consultar o álbum da família e ver-se em frente a um rio ou a um castelo de que jamais se lembrará. Será ótimo se esse fato o estimular a viajar pelo mundo. Mas, oh my God, será péssimo se ele disser: ''Não preciso mais ir à Europa. Já estive lá com meus pais.'' Enfim, darling: aposto que seria melhor para a sua viagem, para o seu filho e para o bom senso geral se você aprendesse a não ficar dividida diante de dois prazeres. But, anyway, have a nice trip.'' * Mr. Miles é o homem mais viajado do mundo. Ele já esteve em 132 países e 7 territórios ultramarinos. É colunista e conselheiro editorial da revista ''Próxima Viagem''

O Estado de S.Paulo

24 Junho 2008 | 03h04

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