Viajante sem dicas?

A bordo do Bentley 1948, bege e marrom, com o qual costuma viajar (por estradas secundárias) no auge do verão europeu, Mr. Miles e sua inseparável mascote Trashie está na Eslovênia, maravilhado com a beleza do Lago Bled. A seguir, a correspondência da semana:

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

25 Agosto 2015 | 04h05

Sou um leitor recente e já me tornei fã de sua coluna. Reparei que o senhor nunca dá dicas específicas, que tanto interessam aos viajantes. Qual a razão?

Geraldo Bonhomme, por e-mail

"Well, my friend: obrigado por ter me incluído entre suas leituras. Você tem toda a razão. Quem me acompanha há mais tempo - já são quase 11 anos no bravo matutino e mais alguns em outras publicações -, sabe que sou, no máximo, um story teller, um contador de minha própria vida dedicada ao supremo prazer de viajar e tomar posse informal do mundo que pertence a mim, a você e a todos nós.

Há várias vantagens e desvantagens em passar a vida me movendo como um rabisco em um mapa-múndi. A falta de raízes não é uma delas. Sou britânico, fiel seguidor de minha rainha (e, allow me, to say: amiga) Elizabeth II. Diz que um dia o sol nem sequer se punha no nosso Império, o que é uma frase tola e senseless. O sol apenas se põe para quem não deixa de persegui-lo. Ou põe-se com muita presteza para os que preferem os dias mais curtos do inverno ou das altas latitudes.

O planeta, as I say, pertence a todos e as milhares de bandeiras que sinalizam possessões distintas são, in my opinion, tão desnecessárias quanto as que enfeitam festas juninas fora do mês de junho. Ainda, by the way, que hajam algumas muito bonitas. O que escrevo aqui, dear Gerry, não tem, I'm sorry to say, qualquer ligação com o preço dos hotéis, a qualidade da comida ou o tipo de compras que se pode fazer em determinado lugar. Vez ou outra, it's true, abro uma exceção, quando encontro uma hospedaria bizarra, alerto contra peixes letais em determinados pratos e, especialmente nowadays, quando encontro um suvenir nacional qualquer que não tenha sido produzido na China.

Como diz meu amigo Tony Wheeler, eu posso preferir (ou ter poderio econômico) para ficar em um hotel de luxo. Mas tanto o lugar luxuoso pode decair rapidamente quanto destinos especiais são servidos apenas por modestas pensões - o que não significa que devem ser desqualificados. Sometimes, a hospedaria com chão de terra batida é mais relevante do que o resort de tapetes persas, porque apenas assim o viajante terá onde dormir.

Dicas são úteis e pontuais, mas sempre pressupõem avaliações feitas por alguma pessoa - e as pessoas, thank God, têm gostos e necessidades diferentes. Um lindo hotel longe da praia pode ser desastroso para alguém que tem dores para se locomover. And so on. Besides, my new friend, devo sempre recordar que, após ter liquidado com a polpuda herança a mim deixada por uma longínqua contraparente, só viajo mesmo graças a dois benefícios inigualáveis: o fato de ter me tornado sócio remido em oito abrangentes planos de milhagem e os milhares de amigos, compadres e afilhados que fiz por esse mundo afora.

Como grande parte deles é proprietário, concièrge ou chef de algum hotel mundo afora, eu jamais cometeria a descortesia de citá-los em desfavor de outros, com quem me relaciono com o mesmo grau de amizade. É o que nós, britânicos, chamamos de ética (embora, unfortunately, nem sempre a pratiquemos). Do you know what I mean?

Mr. Miles é o homem mais viajado do mundo. Ele esteve em 183 países e 16 territórios ultramarinos 

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