Viajante torcedor ou torcedor que viaja?

Nosso incansável viajante informa que está na Itália aproveitando os últimos dias antes do ferragosto, a "augusta época do ano" em que os italianos fecham lojas, restaurantes, museus, cafeterias e até os quiosques da gratachecca (uma espécie de refrescante raspadinha de gelo romana) instalados às margens do Tevere para invadir as praias da península, do Caribe e de outras porções do Mediterrâneo. "Gosto do período, my friends, porque um certo senso de urgência faz com que as pessoas sejam mais prestativas e mais rápidas no atendimento aos visitantes." Eis a carta da semana:

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

22 Julho 2014 | 02h05

Querido mr. Miles: achei uma pena não tê-lo visto durante a Copa! Não fui ver os jogos nos estádios, mas conheci vários estrangeiros nos bares da Vila Madalena, em São Paulo. Reparei que alguns deles não tinham o menor interesse em conhecer o País e só estavam interessados em futebol. Como é que pode uma coisa dessas? Rosana Lessa Moreno, por e-mail

"Well, my dear, sou eu que lamento não ter desfrutado do prazer de tê-la conhecido, ainda mais que percebo uma mulher muito inteligente por trás de sua observação. Unfortunately, a população do Brasil é extremamente grande e eu não tive quase nada para comemorar, dada a pífia participação de nosso national team.

However, entendo perfeitamente a sua indignação. Como imaginar que alguém viaje milhas e milhas com destino a um país tão diversificado como o seu para postar-se em frente a uma televisão, urrando de alegria ou inconformismo, como se estivesse em sua própria sala de visitas? Well: não desprezo esse sentimento também. E é possível presumir que os torcedores em questão já tivessem visitado o Brasil em outras ocasiões, estando, portanto, decididos a apenas desfrutar do clima de catarse e emoção que esses eventos globais costumam produzir.

Arrisco-me a dizer, entretanto, que sua impressão é acurada e, in fact, o Brasil, durante a Copa, foi visitado por mais torcedores em viagem do que viajantes que torcem. Do you know what I mean? Viajar sem, de fato, estar exercendo a magia do conhecimento é um fenômeno que assola diversos tipos de pessoas que apenas se locomovem do ponto de vista geográfico sem perceber aromas que estão embaixo de seus narizes, imagens que estão no cenário de sua visão comezinha e sabores que estão ao seu alcance - trocados, sem piedade, por uma pizza ou um sandwich de alguma rede de fast-food.

Isso ocorre com diversas categorias de turistas: o torcedor, o peregrino, o missionário, uma boa parcela do grupo de viajantes de negócios e, my God, todas as pessoas que vão a determinado lugar com o único objetivo de compará-lo, negativamente, aos locais de onde vieram. Esse último caso define o que Sir Harold Jameson III, professor emérito da Universidade de Cambridge definiu como 'viajantes nacionalistas' - em seu livro Bases Para Um Entendimento Preliminar das Motivações de Um Viajante.

Tanto Sir Harold, como eu - ambos empedernidos universalistas -, desprezamos o nacionalismo exagerado em todas as suas formas e consideramos o mundo todo como uma extensão legítima de nossos quintais. Fato que, I hope, não seja tomado como um radicalismo de nossa parte. As diferenças existem e são elas que tornam o ato de viajar atraente e instigante. Eu, as you know, vivo para conhecê-las e compreendê-las, sem jamais achar que o comportamento de outros povos é pior ou menos legítimo do que o nosso. E serve, as well, para que as pessoas tomem partido em uma Copa do Mundo de futebol. Ainda que se deem mal, como eu."

MR. MILES É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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