Baptistão/AE
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Viajantes não têm casa de veraneio

Nosso incorrigível viajante ainda não retornou de sua expedição à Micronésia onde, conforme planejado, passou um réveillon duplo em ilhas próximas, porém separadas pela Linha Internacional de Data. Segundo a última mensagem que nos enviou, sua intenção era prolongar a permanência em Samoa, onde estava se sentindo muito confortável. É do remoto arquipélago norte-americano que ele envia sua correspondência desta semana.

Mr. Miles, miles@estadao.com.br, O Estado de S.Paulo

05 Janeiro 2010 | 01h21

Caro Mr. Miles: tenho uma casa no litoral norte de São Paulo há 15 anos e, sempre que tenho férias, venho para cá. Gosto daqui, mas ela me dá muito trabalho e me impede de viajar para outros lugares. O que o senhor me aconselha a fazer?

Robson Moraes Elídio, por e-mail

"Well, my friend: o tema já foi abordado em uma de minhas colunas, mas não custa nada reavivá-lo, sobretudo porque é justamente nesta época do ano que os proprietários de casas de veraneio no Brasil são obrigados a trocar o prazer de expandir seus horizontes pela incumbência de usufruir do mesmo destino de sempre.

E eu já posso vê-los, suarentos, procurando quem conserte seus refrigeradores afetados pela maresia ou pela falta de uso. Outros estarão em busca de mão de obra que ajude a reposicionar as telhas deslocadas durante a estação de chuvas, responsáveis, portanto, por inconvenientes goteiras na sala de estar que, of course, está cheirando a mofo.

Um terceiro grupo, afetado pelas frequentes interrupções no fornecimento de água que afeta balneários superlotados, terá, unfortunately, de encher seus baldes no próprio mar, além de enfrentar as longas filas nas portas dos mercados em busca de água potável.

Oh, que maravilha de férias!

Atividades sem fim, noisy neighbours e, mais que isso, a fatídica certeza de que será preciso voltar no ano seguinte, e no outro, e no outro... Pois enquanto um cidadão for proprietário de uma casa de veraneio, dela será escravo. Os custos de manutenção, unless he is a millionaire, não permitirão que viaje para qualquer outro lugar senão para a casa que possui e que provoca a inveja de seus amigos.

Believe me, my friends: esse é um fenômeno mundial. Tenho inúmeros amigos ingleses que antes viajavam mundo afora e acabaram cedendo à tentação de adquirir uma casa desse tipo no sul da Espanha ou no Algarve ou nas Ilhas Canárias. A história é exatamente a mesma. O entusiasmo inicial pela aquisição revela-se o que de fato é: um golpe fatal na possibilidade de sentir-se atraído por um outro destino. África never more. Forget South America.

Admito, however, que essa é uma opinião incorrigivelmente contaminada por meus ideais de viajante. Com certeza existem prazeres escondidos por trás desses sacrifícios que mencionei e eu sou demasiadamente míope para enxergá-los.

Quanto à sua questão, fellow, não tenho senão respostas óbvias a oferecer. Ou você aluga sua casa por temporadas (e nesse caso, of course, prepara o seu orçamento para custos de manutenção ainda maiores) ou tenta colocá-la à venda.

Se você optar por este último caminho, aceite um conselho especial: por motivos óbvios, evite oferecê-la aos leitores desta coluna. Got it?"

* Mr. Miles é o homem mais viajado do mundo.

Esteve em 132 países e 7 territórios ultramarinos

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