Viajantes não têm casas de veraneio

Nosso incansável viajante e sua raposa das estepes siberianas, a fiel Trashie, andam na região do Peloponeso, depois da estada em Atenas. Mr. Miles alugou uma bicicleta e está pedalando sem rumo, aspirando o ar úmido do Mediterrâneo.

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

06 Janeiro 2015 | 02h06

A seguir, a correspondência da semana:

Caro Mr. Miles: possuo uma casa no litoral norte de São Paulo há quinze anos e, sempre que tenho férias, venho para cá. Gosto daqui, mas ela me dá muito trabalho e me impede de viajar para outros lugares. O que o senhor me aconselha a fazer?

Robson Moraes Elidio, por e-mail

"Well, my friend: esse tema já foi abordado em uma de minhas colunas, mas não custa nada reavivá-lo, sobretudo porque é justamente nesta época do ano que os proprietários de casas de veraneio no Brasil são obrigados a trocar o prazer de expandir seus horizontes pela incumbência de usufruir do mesmo destino de sempre, por mais agradável que ele seja.

E eu já posso vê-los, suarentos, procurando quem conserte seus refrigeradores afetados pela maresia ou pela falta de uso. Outros estarão em busca de mão de obra que ajude-nos a reposicionar as telhas deslocadas durante a estação de chuvas, responsáveis, portanto, por inconvenientes goteiras na sala que, of course, está cheirando a mofo.

Um terceiro grupo, afetado pelas frequentes interrupções no fornecimento de água que afeta balneários superlotados, terá, unfortunately, de encher seus baldes no próprio mar, além de enfrentar as longas filas nas portas dos mercados em busca de água potável.

Oh, que maravilha de férias! Como diria um amigo meu: "o inenarrável prazer de passar as férias onde todo mundo passa".

Atividades sem-fim, noisy neighbours e, mais que isso, a fatídica certeza de que será preciso voltar no ano seguinte, e no outro, e no outro, pois enquanto um cidadão possuir uma casa de veraneio, ele dela será seu escravo, os custos de manutenção - unless he is a millionaire -, não permitirão que ele viaje para qualquer outro lugar senão para a casa que possui e que provoca a inveja de seus amigos. Sempre há a possibilidade de alugar sua casa de praia para terceiros. Guardar tudo, empacotar tudo, passar a temporada preocupado com o cuidado ou a falta de cuidado dos inquilinos. E, ao fim e ao cabo, gastar o aluguel para colocar tudo de volta como antes: pintar, consertar sofás e televisões, etc, etc.

Believe me, my friends: esse é um fenômeno mundial. Tenho inúmeros amigos ingleses que antes viajavam mundo afora e acabaram cedendo à tentação de adquirir uma casa desse tipo no sul da Espanha, ou no Algarve, ou nas Ilhas Canárias. A história é exatamente a mesma. O entusiasmo inicial pela aquisição revela-se o que de fato é: um golpe fatal na possibilidade de se sentir atraído por um outro destino. África never more. Forget South America.

Admito, however, que essa é uma opinião incorrigivelmente contaminada por meus ideais de viajante. Com certeza existem prazeres escondidos por trás desses sacrifícios que mencionei e eu sou demasiadamente míope para enxergá-los.

Quanto à sua questão, fellow, não tenho senão respostas óbvias a oferecer. Ou você aluga sua casa por temporadas (com as contraindicações já mencionadas) ou tenta colocá-la à venda. Se você optar por este último caminho, aceite um conselho especial: por motivos óbvios, evite oferecê-la aos leitores desta coluna. Tenho a humilde impressão de que eles já estarão convencidos a não adquiri-la. Do you know what I mean?

*Mr. Miles é o homem mais viajado do mundo. Ele esteve em 183 países e 16 territórios ultramarinos 

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