Viajantes pão-duros

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Mr. Miles, O Estado de S. Paulo

18 Junho 2015 | 19h52

Sem muitos detalhes, nosso querido viajante britânico avisou que está deixando suas ilhas em busca de uma pequena temporada na praia. Infelizmente, ainda não disse qual é o seu destino. A seguir, a correspondência da semana.

Dear mr. Miles: conversando com um amigo, eu lhe disse que o lugar que mais gostei em Portugal foi Sintra. Pois ele me disse que foi até lá, mas não gostou, pois o preço do bondinho era muito caro. Ficou esperando sua mulher ir sozinha, pois ele já conhecia o local e assim economizaria aquele dinheiro, uma vez que ele lá estivera 20 anos antes. O senhor conhece algum turista tão mão de vaca como ele? - Juraci Dias, por e-mail

Well, my friend: sou capaz de apostar que sua pergunta resulta de alguma brincadeira entre você e seu amigo. Anyway, dear Juraci, o tema é simpático. O controle exagerado dos gastos pode mesmo influir em uma viagem. Para o bem ou para o mal. Vejo ao redor do planeta multidões de jovens arqueados sob suas mochilas que, certainly, não nadam em dinheiro. Ou, pelo menos, não nadam em dinheiro durante suas andanças. Isso os leva a percorrer circuitos diferentes daqueles onde caminham os turistas de gasto médio, a conhecer outro tipo de pessoas e alimentar-se de kebabs ou frutas nas praças. Mais que isso: eles são obrigados a enfrentar longas filas nos dias em que os museus não cobram entrada e, se quiserem ver um belo panorama, trocam os meios de elevação por caminhadas ladeira acima. And you know what? Eles vão curtir essas experiências para sempre! Viajar na penúria pode ser um prazer!

Mas você não está falando de penúria; seu tema é a avareza.

O avarento não é o viajante que faz das tripas coração para aproveitar o máximo, mesmo tendo pouco dinheiro. Esse pode até não entrar no bonde de seu amigo, mas ficará muito triste porque esse gasto não estava previsto em seu budget. O sovina, o filárgiro, o mofino, esse faz exatamente o oposto. Sempre preocupado com um futuro que desconhece (o que, by the way, acontece com todos nós, principalmente os que desejam, por esse motivo, tirar o máximo de cada momento), sua preocupação com que nada lhe falte nos anos em que não sabe sequer se estará vivo é um grilhão que o acompanha. Usually, esse tipo de pessoa não tem prazer em viajar, ‘porque vai ter perdas no câmbio’. E só aceita fazê-lo por insistência da esposa (ou marido). Tem manias como essa que você aponta em seu amigo: não quer gastar um centavo para rever o que já conheceu em algum momento da vida, mesmo que isso tenha sido meio século antes.

Conheci, however, um caso pior. Há alguns anos, caminhando por Verona com Olivia (N. da R.: Olivia Hussey, atriz), que fez Julieta no filme de Zefirelli em 1968, encontrei um casal na porta da suposta casa da amada de Romeu. Entramos, saímos e eles ainda estavam lá. Curioso as I am, perguntei-lhes: vocês não vão entrar?

‘Infelizmente não, senhor. Não temos dinheiro para isso. Viemos ver de fora e comprar um cartão-postal.’ ‘Mas como vocês viajam sem dinheiro?’, voltei a questionar. ‘Na verdade, temos algum dinheiro. Mas se gastarmos com as atrações, visitaremos muito menos países’, disseram-me. Astonished, my friend, eu fiquei pensando na estranha lógica daquela viagem sovina. Ao invés de conhecer muito de alguma coisa, eles preferiam visitar nada de muita coisa. E concluí, espantado: ao menos eles enviam aos amigos cartões-postais de lugares a que nunca foram...” 

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS.

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