Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Viajar de ônibus no Brasil: vale a pena substituir o avião?

Com veículos mais modernos e vantagens como não cobrar pela bagagem, viagens rodoviárias crescem no País

Bruna Toni, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2019 | 13h00

Leitos com cabine individual, cabines exclusivas para mulheres, entretenimento e Wi-Fi a bordo. Parece primeira classe de avião, mas todos são serviços oferecidos em terra, dentro de ônibus turísticos, opção de transporte que tem entrado cada vez mais no radar dos viajantes brasileiros.  Ao menos é isso que aponta o crescimento, no primeiro semestre deste ano, de 15% na movimentação do setor rodoviário registrado pela Abrati (Associação Brasileira das Empresas de Transporte Terrestre de Passageiros) e de 49% na procura por viagens de ônibus na CVC, maior operadora de turismo brasileira.

Para a associação e a empresa, uma das explicações para o crescimento do setor rodoviário está na saída da Avianca Brasil do mercado, diminuindo a oferta de voos e fazendo subir os preços de rotas nacionais. O que significa que, por ar ou por terra, o brasileiro tem buscado alternativas para seguir viajando dentro do País. 

Entretanto, é inegável que parte de nós está reavaliando as formas de deslocamento e os hábitos de viagem com as recentes mudanças nos setores aéreo e rodoviário. Sem ver significativa redução nos valores dos bilhetes aéreos, agora precisamos levar em conta valores extras para despachar bagagem e marcar assento com antecedência na maioria das aéreas nacionais, serviços que, por outro lado, continuam embutidos nos valores das passagens rodoviárias. Além disso, a variação de preço destas também tende a ser menor do que das aéreas. 

Para capitanear essa demanda por trechos nacionais, as empresas de viação têm investido no conforto e na tecnologia de seus veículos. “Em vários ônibus já é possível optar por espaços exclusivos para mulheres, com maior privacidade e segurança. Hoje, o passageiro também pode desfrutar de entretenimentos a bordo (jogos, vídeos e outros), uso de Wi-Fi e também de leitos com cabine individual”, afirma Letícia Pineschi, conselheira da Abrati. 

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E por que só agora as empresas decidiram investir em modernização? Segundo Claiton Armelin, diretor de produtos terrestre nacional da CVC Corp, grupo da qual a CVC faz parte, um dos motivos está no maior acesso dos brasileiros às viagens de avião. “Com a democratização das viagens aéreas, os pacotes rodoviários acabaram ficando de lado entre os brasileiros e, por isso, o setor rodoviário teve que se adequar rapidamente às novas exigências do consumidor”, afirma. 

Outro motivo seria a falta de tecnologia disponível, de acordo com Fernando Prado, CEO da ClickBus, plataforma de venda online de passagens de ônibus. Segundo ele, “o (setor) rodoviário enfrentava um grande desafio tecnológico, pois não havia um software padrão usado pelas empresas de ônibus e isso dificultou a migração das empresas para o online”. 

Aproveitando-se da brecha, a ClickBus investiu na criação de uma plataforma que conversasse com os sistemas das empresas de ônibus, oferecendo ao passageiro, num só lugar, o portfólio de mais de 160 companhias. Como ela, surgiram diversas outras opções de sites para antecipar a compra da passagem, como Guichê Virtual, Guichê Pass, Quero Passagem, Buser, Decolar, entre outros.

Vantagens para o viajante

Segundo a ClickBus, apenas 10% das passagens são vendidas fora da rodoviária hoje em dia, mas a empresa tem perspectiva de crescimento de 23% até 2024. Para atingir essa meta, a plataforma deu um passo importante no mês passado, ao firmar uma parceria com a CVC que amplia o acesso dos viajantes à compra de passagens de ônibus em trechos nacionais.

Desde o dia 19 de agosto, a operadora utiliza a tecnologia da ClickBus para vender passagens avulsas de ônibus em suas lojas físicas (a promessa é que, em breve, a venda esteja disponível também no site). Além disso, é possível combinar a compra de passagens com serviços adicionais já ofertados pela CVC, como seguro, hospedagens e passeios oferecidos. Ou seja, dá para comprar o básico, que é o bilhete de deslocamento, ou ir ampliando os serviços contratados até formar um roteiro customizado e completo de viagem.

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Chamada Rodofácil, a parceria das duas empresas coloca à disposição do consumidor 140 companhias operando mais de 4.600 trechos rodoviários pelo Brasil. E, de acordo com Armelin, a CVC está ampliando a criação e operação de viagens rodoviárias próprias, que incluem desde transporte de ida e volta até guia turístico na excursão, subindo de 25 para 62 o número de praças de embarque pelo País e de 45 para 82 as opções de seus roteiros rodoviários. 

Assim, a ideia de que viagens turísticas de ônibus são realizadas apenas por viajantes mais idosos parece ser, cada vez mais, uma visão estereotipada. “Já temos um perfil de clientes de diferentes faixas etárias e classes sociais veteranos em viajar de ônibus", diz Armelin. Segundo dados do Vox Populi de 2018 enviados pela Abrati, a maioria dos viajantes de rodoviária é formada por homens, mas o público feminino tem crescido; tem idade entre 25 e 45 anos; escolaridade média e superior; com renda entre 2 e 5 salários mínimos. Ao todo, de acordo com a associação, cerca de 41 milhões de passagens rodoviárias são vendidas por ano.

​Motivos para o crescimento

Para Abrati e CVC, um dos principais motivos do aumento na movimentação rodoviária está na saída da Avianca Brasil do mercado no início do ano. “A aérea tinha uma operação bem forte no Nordeste do País, fazendo conexões importantes como Recife-Juazeiro, por exemplo. Com isso (a saída da Avianca Brasil), a população dessas regiões teve de optar por outras formas de deslocamento e o rodoviário acabou se favorecendo neste sentido”, afirma Armelin.

Pineschi concorda com Armelin e complementa com algo que faz bastante diferença ao consumidor na hora de escolher o destino e a forma de se chegar nele, sobretudo em tempos de recessão: o preço. Segundo ela, o setor rodoviário do País teria sido “beneficiado pelo aumento do tíquete médio do aéreo” com a interrupção dos serviços da Avianca.

Em entrevista ao Estado em maio deste ano, Juliana Vital, diretora-geral da Voopter, plataforma que faz comparação de preços de passagens, seguiu a linha de raciocínio de Pineschi para explicar o aumento de até 140% de passagens para trechos nacionais registrados pela empresa à época: “A Avianca influenciou muito (a alta dos preços), porque a demanda não mudou e o número de assentos ofertados caiu. Essa demanda migrou para as outras companhias aéreas, que têm algoritmos que percebem isso”.

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De acordo com a Abear (Associação Brasileira das Empresas Aéreas), houve decréscimo de 5,2% da oferta de viagens domésticas em julho - em maio e junho as baixas superaram os 9% - e o volume de passageiros também caiu 3,17%. Foram 8,6 milhões de viagens realizadas com 281 mil passageiros a menos em comparação ao mesmo período do ano passado. 

Apesar do impacto, a associação afirma que as companhias aéreas, individualmente, seguem crescendo. E há também no setor quem esteja investindo em rotas que cheguem ao interior. A Passaredo Linhas Aéreas - que, vale dizer, nasceu como empresa rodoviária -, por exemplo, anunciou novas operações em parceria com a MAP Linhas Aéreas. A partir do dia 27 de outubro, elas terão 26 operações diárias, contabilizando 158 voos semanais, partindo (e chegando) de Congonhas para cidades do interior da região sudeste - Ribeirão Preto, Bauru, Marília e Araçatuba (SP); Uberaba (MG); e Macaé (RJ) - e Dourados (MS). 

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