Felipe Mortara/Estadão
Felipe Mortara/Estadão

Vida e cores ao natural nos recantos da Ilha Grande

Entre as melhores coisas de viajar está voltar a um lugar de onde se guarda ótimas lembranças e encontrá-lo ainda melhor do que em suas memórias. Senti isso ao retornar à Ilha Grande depois de cinco anos. A água parecia mais limpa, a Vila do Abraão mais bem cuidada e a preocupação com a preservação, mais presente e autêntica. Tudo de bom.

FELIPE MORTARA / ILHA GRANDE, O Estado de S.Paulo

26 Março 2013 | 02h10

A maior ilha do Estado do Rio de Janeiro não fica longe do continente (são apenas 20 quilômetros), não tem carros circulando e não é careira. Está dentro de área protegida por parque estadual e reserva biológica, cheia de restrições.

O que isso significa na prática? Um ambiente melhor tanto para os 6 mil moradores da ilha quanto para os mais de 300 mil turistas anuais. Os estrangeiros há muito tempo descobriram o lugar e é muito comum conhecer grupos de gringos com cabelos loiros e mochilões zanzando pelas trilhas. Em boa parte das hospedagens fala-se inglês.

O principal programa? Praia e sol, claro. Mas não "só" isso. A montanhosa Ilha Grande tem um vasto cardápio de trilhas para caminhadas pela Mata Atlântica com grandes chances de avistar bichos - bugios, micos e dezenas de espécies de aves. Além disso, charmosas vilinhas de pescadores e história: a ilha abrigou o presídio mais temido do País, foi entreposto de escravos e centro de quarentena para imigrantes.

Tida como um dos principais polos para a prática de mergulho no Brasil, debaixo d'água a ilha também se mostra preservada. Com pelo menos cinco naufrágios nos arredores, incluindo um helicóptero que caiu em 1998, a vida marinha floresce. Mas não é necessário ser mergulhador autônomo para desfrutar de tais belezas. Em muitos passeios, máscara e snorkel bastam para avistar tartarugas marinhas e peixes multicoloridos.

Escolha a sua. As mais de 80 praias da Ilha Grande podem até deixar o visitante confuso com tantas possibilidades. Um dos passeios mais tradicionais é a volta à ilha de lancha, que leva um dia todo, parando nas principais praias e que custa, em média, R$ 150 por pessoa em agências como a Ilha Grande Turismo (24-3361-5500).

Mas há opções para todos os gostos, e o ideal é tentar conhecer um canto diferente de cada vez. Para você que também já esteve por aqui antes, além de repetir aquele passeio que marcou, vale apostar nas praias menos populares, pequenas ou desertas.

Eu guardava incríveis memórias de Lopes Mendes, tida por muitos como uma das dez praias mais bonitas do País. Logo no primeiro dia, decidi encarar as três horas de caminhada da Vila do Abraão até ela. O lado bom foi que o calor não estava tão cruel. No entanto, o sol não só não deu as caras como choveu. E o mar, em geral tão transparente, estava sem nenhuma graça. Parecia uma praia qualquer. Acontece.

No dia seguinte fui premiado com um belo sol, que se manteve firme até o fim da viagem. Assim, ficou fácil me jogar em passeios como o da Lagoa Azul e o da Cachoeira da Feiticeira e sair para mergulhar na Ponta do Bananal e na Enseada do Sítio Forte, com direito a tartarugas e belos peixes borboleta, cofre e voador.

Isso sem falar na extraordinária caminhada de 8 quilômetros até a Praia de Dois Rios e a esticada de mais oito até a Praia da Parnaioca, onde o pernoite é permitido em campings.

Dali, combinei previamente um barco até a Praia do Aventureiro, já que a trilha, a opção para ir por terra, entra na área da Reserva Biológica Estadual da Praia do Sul, onde é exigida autorização prévia para entrar. Foi preciso controlar a vontade de continuar a volta da ilha - eu tinha de seguir para Angra dos Reis, onde terminou a jornada.

 

Boas vindas

Principal ponto de chegada de visitantes, é a vila com melhor infraestrutura de hospedagem e alimentação, com dezenas de restaurantes, pousadas e albergues. Opção muito procurada, as casas para aluguel por temporada compensam para grupos e famílias com mais de seis integrantes. No site ilhagrande.org há uma lista completa e confiável de hospedagens, restaurantes e bares.

As distâncias são bem curtas e por ali há agências que organizam passeios de barco para todos os pontos da ilha. Os valores variam de acordo com a embarcação. As escunas são sempre a opção mais em conta, enquanto as lanchas oferecem mais agilidade e conforto.

Um passeio de um dia inteiro que deve agradar às famílias com crianças ou àquela turma mais numerosa, que tem dificuldade em se deslocar, é o Circuito do Abraão. Inclui, numa caminhada de 30 minutos, as ruínas do Lazareto (centro de triagem de imigrantes enfermos, de 1886) e um bom trecho dos 125 metros do belo aqueduto, de 1893, com seus 12 metros de altura. A volta acaba no Poção, cachoeira no meio da mata. Para um mergulho salgado, as praias do Corisco, Preta e do Galego estão a apenas alguns metros do começo do circuito. A vista do Abraão é linda deste ponto. Seguindo no lado oposto, no sentido de Lopes Mendes, as praias da Júlia, da Bica e Comprida oferecem águas calmas e poucos frequentadores.

 

A mais bela

Areia branquinha ao longo de seus 2,2 quilômetros, ondulação boa para o surfe no canto direito, mar calmo no lado oposto. Ao chegar a Lopes Mendes fica fácil entender por que os internautas do site TripAdvisor a elegeram como a sétima praia mais bonita do mundo.

Alguns poucos ambulantes são autorizados a vender bebidas e alugar pranchas. Iates vindos de Angra ficam por ali para aproveitar o mar absurdamente azul. Ainda há vestígios de uma antiga fazenda de escravos e de um naufrágio do século passado, que deixou um tonel atravessado na areia.

Barcos saem do Abraão e levam uma hora até a Praia do Pouso, de onde uma leve caminhada de 30 minutos termina em Lopes Mendes (cerca de R$ 30 cada trecho). Outra opção, a que eu encarei, é ir caminhando (três horas) e voltar de barco previamente agendado. Chegue o mais cedo possível para aproveitar até o último raio de luz.

 

Coloridos mergulhos

Os peixes-borboleta e os cirurgiões-azuis foram uma grata surpresa. No mergulho na Ponta do Bananal, tais espécies se exibiram ao lado de polvos, estrelas-do-mar e de um grande e arisco badejo. Outro espetáculo de cores teve lugar na Enseada do Sítio Forte, a até 10 metros de profundidade. Peixes cofre e voador e pequenos néons passearam pelos coloridos e fotogênicos corais-de-fogo.

A Ilha Grande tem ao menos 20 pontos de mergulho mapeados. No Abraão operam escolas como a Elite Dive Center (elitedivecenter.com.br) e a Dive & Cia (24-3361-5010), que cobram desde R$ 200 - inclusive pelo batismo dos iniciantes.

 

Rios e o antigo presídio

Durante 100 anos, a pacata vila de Dois Rios abrigou o Instituto Penal Cândido Mendes, ou simplesmente Presídio da Ilha Grande, um dos mais famosos do País, para onde seguiam os criminosos mais perigosos e presos políticos como Graciliano Ramos e Fernando Gabeira.

Nas casas do entorno ainda vivem ex-funcionários e até um ex-presidiário. Todos gostam de bater papo e contar histórias. Nas ruínas do presídio - a maior parte das alas foi implodida em 1994 - funciona um competente minimuseu, que tem entrada gratuita, fotos e objetos usados pelos prisioneiros, como uniformes e facas improvisadas.

A 50 metros da porta do museu começam os motivos para esquecer qualquer história triste. Além de 1,3 quilômetro de areia plana e boa para caminhar, os dois rios que dão nome ao lugar, um em cada extremidade da praia, rendem fotos lindas e mergulho delicioso.

Chegar até lá exige esforço. São 8,5 quilômetros de caminhada desde a Vila do Abraão, por uma estrada de terra, a única da ilha, por onde passam poucos carros da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, que ali mantém um câmpus. O percurso tem muita subida e leva de duas a três horas. Pode ser feito sem guia, mas é fundamental calcular bem o tempo para não voltar no escuro. Afinal, é proibido pernoitar ou acampar.

Como alternativa, as lanchas que fazem o passeio de volta à ilha param em Dois Rios.

 

Lagoa Azul

O lugar cabe perfeitamente em seu nome de clássico da Sessão da Tarde. A Lagoa Azul não é uma lagoa de fato, mas abriga águas rasas, calmas, sem correnteza e de uma transparência quase inacreditável. Cenário perfeito para o snorkeling entre cardumes multicoloridos, tartarugas e estrelas-do-mar.

Por ser o ponto mais visitado da Ilha Grande e ter uma área de tamanho reduzido para a ancoragem de barcos, pode esperar alguma lotação por ali. A bela - e curtinha - Praia da Grumixama tem sombra e é ótima para levar crianças.

O passeio de escuna até a Lagoa Azul custa, em média, R$ 35 por trecho. Em geral, a parada para o almoço é em algum dos bons restaurantes da Praia de Japariz.

Depois, pergunte se é possível esticar até a charmosinha Freguesia de Santana, com sua igreja de 1843 sob um magnífico coqueiro.

 

Canto especial

Talvez seja o isolamento - são três horas de caminhada na mata cerrada desde Dois Rios, ou seis a partir do Abraão. A quase insignificante presença humana - oficialmente, apenas seis pessoas moram ali. A exuberância natural. O fato é que a Praia da Parnaioca é um dos cantos mais especiais da Ilha Grande.

Eram mais de mil moradores 50 anos atrás, gente que vivia em fazendas de café. Mas, hoje, fora de temporada, é fácil se sentir Tom Hanks em O Náufrago. Há uma igrejinha e um cemitério, e só. O resto é areia, mar transparente e muito verde. Nos costões é possível fazer snorkeling com tartarugas. No canto direito da praia, um rio forma uma piscina natural. Rumo à mata há uma pequena cachoeira.

A vila tem duas vantagens em relação a Dois Rios. A primeira é o pôr do sol de cair o queixo. A outra é que o pernoite é permitido em dois campings. O da Janete (janetebjfarias@yahoo.com.br) cobra R$ 15 por pessoa por noite e serve boas refeições. Sem falar nos papos com Seu João e Dona Zaira, pais da proprietária.

Da Parnaioca até a Praia do Aventureiro é proibido seguir a pé - a Reserva Biológica Estadual da Praia do Sul, controlada pelo Instituto Estadual do Ambiente, é de total proteção e nem vale a visita. Ao reservar o camping, já combine o traslado de barco.  

 

Vista estrelada

O centro gastronômico da Ilha Grande funciona nas encostas à beira desta quase lagoa, que se comunica com o mar aberto por uma única e estreita entrada. O lugar, um imenso espelho d'água, é lindíssimo e honra a fama com bons restaurantes de frutos do mar, como o Reis & Magos (reisemagos.com.br) e o Coqueiro Verde (coqueiroverdepousada.com.br).

Ambos possuem deques próprios e aceitam reservas - é sempre bom garantir, especialmente na alta temporada, quando o vaivém de turistas na ilha aumenta bastante.

O Saco do Céu é adorado por casais e também pelos velejadores. Entre as praias que ficam em suas margens, as mais procuradas são a do Galo, de Dentro e do Amor.

E se quiser entender o porquê do nome do lugar, é preciso ficar até mais tarde, de preferência em uma noite de céu aberto, para ver as estrelas refletidas nas águas.

 

Longe de tudo

Longe de tudo e cercada por enormes morros, deve seu nome à dificuldade de acesso - que fazia dela um lugar exclusivo para os mais ousados. Belíssima e pequena nos seus escassos 470 metros, tem piscinas naturais e excelentes ondas para o surfe. Além de uma pequena comunidade de simpáticos e acolhedores moradores.

Hamilton e Laís, do Camping do Ruben, são bons de prosa e de panelas. O badejo frito com cenouras à provençal (R$ 15) é uma maravilha. Leve para casa uma garrafinha do tradicional vinagre de banana produzido no Aventureiro. Delicioso no tempero de saladas.

A infraestrutura é básica - campings e poucos restaurantes - e o acesso, controlado pela associação de moradores. Podem pernoitar, no máximo, 500 pessoas na vila. Para conseguir autorização é necessário fazer cadastro na TurisAngra (Avenida Ayrton Senna, 580, em Angra dos Reis, tel.: 24-3367-7826).

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