Viena, um essencial ponto de encontro

Capital austríaca não apenas recebeu alguns dos maiores compositores da história como sugere relações entre música, literatura e artes plásticas

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

26 Outubro 2010 | 09h00

 

VIENA  - Mozart foi categórico: "Não há no mundo lugar melhor para o meu métier". Beethoven, por sua vez, em uma das primeiras cartas enviadas do novo endereço, mostrava cautela: "Aqui, várias pessoas foram presas. Se você ousar levantar a voz, a polícia pode levá-lo sob custódia."

 

Os compositores falavam de Viena, mas descreviam cidades diferentes. Mozart aqui chegou em março de 1781; quase doze anos depois, quando Beethoven ali se instalou, as crenças inspiradas pela Revolução Francesa já haviam feito José II reforçar a vigilância sobre os cidadãos.

 

Uma coisa, no entanto, não havia mudado: Viena era ainda a cidade para a qual qualquer músico em busca de fama, reconhecimento e boa formação deveria seguir. E a ida para lá significou para os dois compositores um momento importante de mudança. Os últimos dez anos de vida de Mozart, passados na cidade, mostram o prodígio refinando sua arte, que começa a esboçar uma linguagem mais pessoal e introvertida. Beethoven, após encantar a aristocracia com seu talento ao piano, começava a firmar os primeiros contratos como compositor.

 

Também em Viena Mozart é presença assídua em faixas, cartazes, vitrines e souvenirs. O ponto central do culto é a casa da Domgasse, perto da Catedral de Santo Estevão, no coração da cidade. Ali, conta a história que o compositor viveria alguns de seus anos mais felizes ao lado da mulher, Constanze. Para quem gosta de ópera, a curtição é poder visitar o estúdio em que o compositor trabalhou ao lado do libretista Lorenzo Da Ponte na composição de As Bodas de Fígaro, uma das parcerias mais bem sucedidas da história da música.

 

Traçar os passos de Beethoven é um pouco mais complicado. Registros indicam que o compositor mudou-se de endereço dezenas de vezes ao longo dos anos em que viveu na cidade. Alguns dos prédios mantêm em suas fachadas placas com os dizeres "Beethoven morou aqui". A certa altura, buscando se isolar do agito da cidade, ele passaria a ocupar casas próximas a zonas rurais em localidades como Dobling, Modling, Heiligenstadt, Eisenstadt e Baden. Em Heligenstadt, ele começou a trabalhar na Nona Sinfonia. Nos jardins do Palácio Schonbrunn, onde os dois se apresentaram, Beethoven costumava se sentar sob árvores e trabalhar em suas composições.

 

Outros. Qualquer roteiro musical em Viena, mesmo que parta de Mozart e Beethoven, não precisa se limitar a eles. Schubert, Brahms, Strauss, Wagner - muitos outros compositores passaram pela cidade, que ainda hoje tem uma das vidas musicais mais intensas da Europa. A Filarmônica de Viena é, para muitos, a maior orquestra do mundo e divide seu tempo entre a Staatsoper (Ópera Estatal) e o Musikverein, sala de concertos que recebe também conjuntos e artistas de todas as partes do mundo.

 

 Os museus da capital, por sua vez, sugerem um avanço no tempo e nos levam em direção à passagem do século 19 para o 20. Nos quadros de artistas como Egon Schiele está a transcrição de um mundo em transformação, que viu o surgimento da psicanálise e descobriu o inconsciente - o mesmo mundo retratado em música por Gustav Mahler ou Arnold Schoenberg.

 

Alguns acervos, como o do Kunstshistorichesmuseum, exploram as relações entre literatura, música e arte plástica, oferecendo olhar sobre um dos momentos mais estimulantes da história da arte. Caminhando pela cidade, após visitar uma dessas mostras, você também tem a sensação, como tiveram Beethoven e Mozart, de estar no centro do mundo.

 

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