Viver faz mal para a saúde

Nosso adorável correspondente, que não informou por onde anda nesta semana, tem recebido muitas questões relacionadas à cidade de Pequim, em função da aproximação dos Jogos Olímpicos. Abaixo, a resposta a uma delas: Querido mr. Miles: antes de mais nada, minha admiração pela coluna da semana passada. Estava uma poesia. Agora, a pergunta: vou a Pequim para ver a Olimpíada e estou preocupada com a culinária local e o ar poluído. O senhor acha que, em vez de me divertir, posso voltar adoentada? Márcia Cury Seme, por e-mail ''Well, my dear, se o ditado não existe, vou criá-lo agora: viver faz mal para a saúde. This kind of warning, que costuma vir nas embalagens de cigarro, aplica-se, of course, a qualquer atividade humana, mas apenas os estraga-prazeres e os que vêem a vida de forma invertida costumam usá-lo com prazer. Um prazer quase sádico, eu diria. Há duas maneiras de encarar a vida, darling. Uma delas é comemorar a passagem do tempo e saber utilizá-lo com prazer e sabedoria. A outra, however, é levar a vida calculando o tempo que resta. Os infelizes de plantão estão sempre pensando no que lhes pode causar algum mal e, não contentes com sua própria mofinagem, comprazem-se em aterrorizar e advertir seus semelhantes. Don''t worry, Márcia: você não terá de comer escaravelhos em Pequim - se bem que a experiência talvez valesse a pena. Há ótimos lugares para provar patos laqueados, jiaozi (um pastelzinho recheado de carne, that is delicious) ou lamian (o spaguetti original). Se você preferir, a velha capital imperial tem um bairro inteiro, Sanlitun, com restaurantes elegantes e ocidentais, inclusive com receitas brasileiras. Isn''t it amazing? Quanto à atmosfera, não há muito o que fazer, I agree. Não suponha, porém, que você estará respirando muito pior do que em São Paulo numa tarde de inversão térmica. Besides, se até os maratonistas vão enfrentar o monóxido de carbono, não será você, en promenade, que voltará adoentada. Meu velho amigo Xi Sendo, um mestre do caoshu - a arte de produzir textos em caligrafia cursiva, transformando-os em delicados desenhos sobre papel-arroz -, contou-me que as ainda mui indelicadas autoridades locais estão tentando ensinar ''bons modos ocidentais'' aos pequineses, de modo a passar uma boa (e falsa) imagem da cidade. ''Não vai dar certo, mr. Miles'', disse-me ele. ''Nem mestre Mao conseguiria resultados em tão pouco tempo''. Ou seja, darling: esteja preparada para o que consideramos descortesias. Gente que não respeita filas. Senhores e senhoras que usam, skilfully, os cotovelos para abrir espaços. E, last but not least, eméritos cuspidores, lançando bombas molhadas pelas ruas. Isso não significa, however, hostilidade ou falta de educação. São apenas hábitos diferentes dos nossos, praticados por cidadãos usualmente gentis e donos de uma sabedoria milenar. Tenho certeza de que os infelizes de plantão vão adverti-la para evitar essa convivência. In fact, empurrões e cusparadas podem fazer mal para a saúde. Mas conviver com a diferença - oh, my God - faz um bem extraordinário para a vida. Don''t you agree?'' * Mr. Miles é o homem mais viajado do mundo. Ele já esteve em 132 países e 7 territórios ultramarinos. É colunista e conselheiro editorial da revista ''Próxima Viagem''

O Estado de S.Paulo

10 Junho 2008 | 03h08

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