Ilustração: Carlinhos Müller/AE
Ilustração: Carlinhos Müller/AE

Vizinhos da poltrona

Nosso viajante está de partida para Gudvangen, na Noruega, onde será padrinho de casamento de Peer e Kaila, ele filho de sua velha amiga Nia, ex-companheira de caminhadas no gelo do Ártico. É, ao que tudo indica, promessa de novas histórias. A carta da semana:

Mr. Miles, o homem mais viajado do mundo,

15 Setembro 2009 | 03h14

Mr. Miles: viajo muito sozinho e gosto de privacidade. Várias vezes, porém, sou brindado com a companhia de vizinhos que puxam conversa e contam histórias o tempo inteiro. O que faço para livrar-me dos inconvenientes?

Otávio Arguello, por e-mail

"Well, my friend: uma longa viagem de avião é, always, um período de estranhas convivências. Exceto nas raras vezes em que a aeronave tem lugares vazios, somos colocados na companhia de alguém com quem, de uma forma ou outra, desenvolveremos enorme proximidade física - sobretudo nos assentos cada vez mais estreitos dos aviões. É desejável e very polite que, ao menos, se cumprimente o vizinho de infortúnio. Essa simples medida evitará, for instance, que, como dois seres primitivos, ambos disputem a cotoveladas o exíguo apoio de braços que os separa (ou une?).

O restante é uma questão de convenção. Há os que, como você, preferem uma quase utópica privacidade. Há, as well, os que buscam um contato verbal civilizado - e você ficaria surpreso, fellow, se soubesse quantas boas amizades podem nascer em tais ocasiões. Existem também, of course, os parlapatões. Essa espécie, I agree, pode ser mais inconveniente que uma noite de turbulências. Nesses casos, I'm afraid, só nos resta lamentar a má sorte ou, em caso de apuro, recorrer à solução do sonífero na bebida alheia, providência que, envergonhadamente, já tomei certa feita.

Entre passageiros educados, a senha para abortar uma conversação é abrir um livro. Raras vezes não funciona. Utilizo-a apenas quando estou very tired. Agrada-me trocar ideias com alguém que está compartilhando de meu destino. A prática, however, me ensinou a distinguir até onde pode ir um relacionamento tão fortuito como os que ocorrem em aviões. Os latinos, de forma geral, serão loquazes e emocionais. Houve uma ocasião em que minha vizinha venezuelana abriu-se a tal ponto que, no meio do Atlântico, fui forçado a dissuadi-la do suicídio. Fi-la ver que Pedro, afinal, era um cafajeste, matar-se era dar valor demasiado a um pústula, and so on. As cartas que recebi depois comprovaram que fui convincente.

Europeus serão, often, mais reservados. Mas não lhes deem muita bebida, my God! Já quando viajo ao lado de orientais - sobretudo japoneses - procuro ser apenas cortês. Embora os costumes venham mudando, nunca foi de bom tom enchê-los de perguntas. Minha saudosa amiga Pearl (N.da R.: Pearl S. Buck, escritora americana, Nobel de Literatura) contou-me que, na casa de uma amiga sua perto de Tóquio, notou a presença de uma mulher silenciosa dividindo a sala com ambas. Com sua curiosidade de autora, inquiriu a amiga sobre a mulher. "É minha irmã. Casou-se há 24 dias e depois voltou para casa." "O que houve?", insistiu Pearl. "Não sei. Jamais perguntamos." Uma dessas seria a sua vizinha de voo ideal, não, dear Otávio?"

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Mr. Miles

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