Você encararia? Vila na Antártida tem escola, banco e Correios

Pertencente ao Chile, Villa Las Estrellas foi criada por Pinochet para reforçar reivindicações territoriais nos tempos de Pinochet e conta com 200 moradores

Simon Romero/Villa Las Estrellas, Antártida, THE NEW YORK TIMES

21 Janeiro 2016 | 02h59

As crianças aqui na escola estudam sob um retrato de Bernardo O’Higgins, líder da independência do Chile. O gerente do banco recebe depósitos em pesos chilenos. O serviço de celular da companhia telefônica chilena Entel é tão poderoso que aplicativos do iPhone são baixados como em um passe de mágica. Os habitantes dizem que ela poderia ser uma cidadezinha chilena. Mas Villa Las Estrellas fica na Antártida.

Menos de 200 pessoas moram neste posto avançado, fundado em 1984 durante a ditadura do General Augusto Pinochet, quando o Chile tentava reforçar suas reivindicações territoriais na Antártida. Desde então, o pequeno vilarejo está no centro de uma das experiências mais marcantes da região: expor famílias inteiras ao isolamento e a condições extremas na tentativa de simular uma vida normal na parte mais meridional do planeta.

“O inverno aqui é um tanto rigoroso”, disse José Luis Carillán, de 40 anos, que se mudou para Villa Las Estrellas há três anos com sua mulher e dois filhos para ser professor da escola pública. Ele descreveu desafios como caminhadas em meio a tempestades de vento para chegar à escola escondida por paredes de neve e suportar longos períodos com apenas algumas horas de luz do sol por dia. “Mas este lugar é único. Poucas pessoas na Terra já pisaram na Antártida e menos gente ainda vive aqui por longos períodos.”

Os Estados Unidos, a China, a Rússia e a maioria das outras nações com estações de pesquisa na Antártica relutam em trazer pessoas que não sejam pesquisadores e integrantes de equipes de apoio para o continente mais frio e mais ventoso do planeta, mas o Chile e sua vizinha na América do Sul, a Argentina, tomaram a rara atitude de se estabelecer aqui, incentivando pequenos assentamentos que incluem famílias com crianças.

A Argentina fundou seu posto avançado em 1953. O assentamento, em Graham Land, no extremo norte da Península Antártica, se chama Base Esperanza. Também há uma escola, um cemitério e até mesmo um grupo de escoteiros que diz ser o mais meridional do mundo. O lema da Base Esperanza resume o que é se mudar para a Antártida: “Permanência, um ato de sacrifício”.

Centro de pesquisas

Villa Las Estrellas, nas Ilhas Shetland do Sul, na ponta da Península Antártica, é hoje um centro cobiçado para onde voam várias nações que querem reforçar suas pesquisas científicas.

A força aérea chilena transporta pesquisadores de vários países em aviões militares Hercules C-130 que fazem a viagem de três horas para Punta Arenas, cidade de cerca de 125 mil habitantes no extremo sul do Chile, várias vezes por mês. Uma placa na base aérea perto de Villa Las Estrellas diz que a cidade de Iquique, no norte do Chile, fica apenas a 4.675 quilômetros de distância.

Os alunos da pequena vila, que normalmente não chegam a uma dúzia, são filhos de oficiais da força aérea que operam na base; alguns dos pais dizem que a experiência de isolamento fortalece os laços familiares. O fato de Villa Las Estrellas ser tão remota – seu nome remete à ausência de luz artificial, o que ajuda a ver as estrelas – é algo bom para muitos que vivem aqui.

“As pessoas no resto do Chile têm tanto medo de ladrões que construíram muros ao redor de suas casas. Aqui na Antártida, não. Este é um dos lugares mais seguros do mundo”, disse Paul Robledo, 40 anos, eletricista de Iquique.

Terra sem cães

Porém, o que Villa Las Estrellas ganha como santuário contra o crime perde em alguns outros confortos.

Animais como os pinguins-de-adélia e elefantes-marinhos podem ser encontrados ao redor da aldeia, mas quem está acostumado com a companhia de um cachorro não tem muita sorte. Todos os cães foram banidos para que não passassem doenças caninas para a vida selvagem.

As famílias da força aérea vivem em pequenas casas e os pesquisadores ficam em uma instalação espartana, operada pelo Instituto Antártico Chileno, dormindo em beliches parecidos com os de um porta-aviões. A mesa de pingue-pongue da sala oferece um pouco de diversão. Todos fazem suas refeições juntos em uma cantina lotada.

Recentemente, o almoço foi um prato de purê de batatas, frango e carne moída acompanhado de Fanta laranja. E o jantar do mesmo dia: idem, embora a Fanta tenha sido substituída por coca-cola.

Depois que um cientista chileno sugeriu que um nutricionista pudesse ser necessário aqui, Enrique Nicoman, de 59 anos, o cozinheiro de Villa Las Estrellas, deixou claro que esse tipo de comentário não era bem-vindo.

“Não existe um mercado nas proximidades com legumes frescos. Quer dizer, estamos na Antártica, onde tudo precisa vir de avião ou navio”, disse Nicoman, que trabalhou durante anos como cozinheiro da Marinha chilena antes de se mudar para cá.

Apesar dos desafios, muitos chilenos ainda cobiçam a chance de viver em Villa Las Estrellas. “Esta é uma das últimas fronteiras do mundo”, disse Macarena Marcotti Murua, 25 anos, veterinária que chegou em novembro para trabalhar nos Correios.

Alguns são atraídos por um senso de aventura, outros por salários mais elevados do que os pagos no Chile. Os moradores de Villa Las Estrellas parecem ter suas próprias razões para vir para a Antártida.

“Vejo como um período de férias”, disse Robinson Montejo, de 59 anos, gerente e único empregado da agência do Banco de Crédito e Inversiones chileno. Normalmente, ele passa muito tempo sozinho, esperando algum cliente entrar por causa do frio. “Este é o lugar perfeito para um pouco de paz e sossego.”

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