Diego Mendes
Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição, no centro de Vassouras Diego Mendes

Volta ao passado nas fazendas históricas do Vale do Café

Casarões da época áurea do cultivo cafeeiro se transformaram em pousadas charmosas, restaurantes e áreas de lazer que parecem transportar os visitantes para o século 19

Liz Batista, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2019 | 07h00

Um cenário de trama de época. Quem visita as fazendas e os casarões das cidades do Vale do Café, no interior do Rio de Janeiro, é imediatamente tragado pela história impregnada em suas paredes. Subir as escadarias e passar pelas grandes portas de madeira, adornadas por pesadas dobradiças de ferro, despertam uma curiosa sensação de deslocamento no tempo, misturada a um envolvente encantamento. Aqueles lugares querem te contar algo, te ensinar, te transportar. 

Antes de mais nada, ignore o estranhamento de achar que seus trajes estão errados, como se para estar ali fosse necessário outro vestuário, outro linguajar, outro estado mental. Deixe-se levar. Você acaba de entrar nas residências daqueles que foram os poderosos barões do café no tempo do Brasil Império. Aprecie o som da pianola - imagine o alvoroço daqueles amplos salões em dias de baile. Permita-se, também, ouvir o choro, a dor, as canções de lamento que os escravos entoam das senzalas e a esperança que pulsa no batuque de seus tambores em dias de festa no terreiro. Abrace a viagem. Um pedaço do Brasil de hoje quer lhe contar como ele outrora foi. 

Situado na região do Vale do Paraíba, o Vale do Café já foi responsável por 75% de todo o café consumido no mundo. Apesar de carregar o grão no nome, a região não manteve a reputação de grande produtora. Seu apogeu foi no começo do século 19, durante o Segundo Reinado, entre as décadas de 1850 e 1860, tornando-se a mais rica do País. Mas o esgotamento do solo e a produção calcada na mão de obra escrava contribuíram para que tudo começasse a declinar  por volta de 1870. 

Hoje, porém, esse passado se transformou em matéria-prima turística para os 15 municípios que compõem o Vale do Café. Apoderando-se dele a partir de seus casarões antigos, de suas enormes fazendas preservadas (que hoje funcionam como pousadas, restaurantes e espaços artísticos) e das histórias que sobreviveram geração após geração, as cidades vivenciam um momento de pleno empreendedorismo. Dessa forma, mantiveram a identidade histórica do ciclo do café de forma integrada e articulada e, mais recentemente, atenta a questões atuais como a necessidade de se contar as narrativas a partir de ângulos diferentes, incluindo o de grupos sociais marginalizados à época. 

A região serrana consegue atender às mais diferentes expectativas. Oferece opções para quem procura arquitetura histórica, museus, música, gastronomia, ecoturismo, praticar esportes ao ar livre ou apenas relaxar em meio a uma paisagem verde e montanhosa, com lagos e rios que cortam trechos exuberantes de Mata Atlântica. Tudo isso emoldurado por um céu de um azul intenso que fica registrado na memória. Nosso roteiro de  seis dias incluiu Rio das Flores, Barra do Piraí e Vassouras.

A maneira ideal de explorar a região é de carro. As cidades são próximas e guardam uma distância média de 10 quilômetros entre si - dá para optar por ficar em uma pousada e fazer viagens curtas entre as atrações, ou dividir a estadia em mais de uma. Vai do gosto do viajante. A Rodovia Presidente Dutra é o melhor acesso para quem parte de São Paulo, e a viagem dura cerca de 4 horas. Já quem parte do Rio chega à região em 2 horas, também pela Dutra. Para os cariocas, portanto, o Vale do Café pode ser uma ótima opção para passar um fim de semana. Para os paulistas, pela distância, o ideal são quatro dias de  passeio.

É o suficiente para contemplar a paisagem, comer muito bem, quem sabe até se aventurar em uma trilha de bike. Mas, principalmente, aprender com a história que emana das paredes, dos casarões, dos relatos, dos museus.   

Bike e gastronomia

Quem disse que trilha de bike é sinônimo de comer só um lanchinho simples? Instalado em uma área repleta de trilhas de bicicleta em Miguel Pereira, o bistrô Le Vélo Montagne se inspira na cozinha francesa para criar pratos saborosos com produtos locais. É uma dica de parada tanto para quem vem de carro e só quer comer bem quanto para quem está em busca de contato com a natureza (e com a emoção das trilhas) - o local dispõe de vestiário e banheiros com chuveiros. 

Apaixonados por bicicleta e gastronomia, Daniel Guimarães e a mulher, Cláudia, decidiram montar o espaço em um local onde pudessem unir os dois conceitos. Inaugurado no ano passado, o bistrô serve delícias como o filé de tilápia da região ao pesto de castanha de caju com risoto de limão siciliano (R$ 57) e o cheesecake desconstruído de goiabada cascão (R$ 13). O restaurante fica na Avenida Marechal Rondon, 500, próximo ao Lago de Javary; abre às sextas-feiras e aos sábados para o almoço e jantar e, aos domingos, para almoço. 

VIAGEM A CONVITE DO GRUPO VALE DO CAFÉ RIO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Barra do Piraí: comida de fazenda, mas orgânica

Comida de fazenda, mas orgânica

Liz Batista, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2019 | 06h50

Acordar na Fazenda Aliança e observar o sol começando a iluminar o dia é perceber um quadro de rara beleza se revelar diante dos olhos. O cheiro de terra molhada invade a linda varanda do casarão, de onde é possível ver a névoa baixa que se levanta da grama do pasto depois do terreiro. Magníficos búfalos movem-se pelo cercado, a passos lentos, para não atrapalhar os observadores que perdem o olhar na imensidão verde que cobre até o ponto mais longe que a vista pode alcançar. A luz do sol começa a ganhar força e vaza por entre a folhagem alta das majestosas palmeiras imperiais.

Da sala, o aroma de café quente convida à primeira refeição. Na mesa, queijo fresco de búfala, geleias orgânicas, pães artesanais, ovos e leite produzidos no local, e sucos feitos com frutas colhidas na hora abrem o dia no campo. A proprietária, Josefina Durini, que adquiriu a Aliança em 2007, conta aos visitantes como retomou o cultivo do café na fazenda e diz ter planos de expandir sua produção. Enquanto guia os convidados na degustação da bebida, ela explica que seu café carrega um sabor fresco e frutado graças ao preciosismo que acompanha seu processo de cultura, colheita, secagem e torra. 

Durini foi aluna exemplar do programa realizado pelo Sebrae para retomar a cafeicultura na região. Com particular orgulho, a fazendeira mostra que manteve preservadas estruturas originais da propriedade, que data de meados do século 19  e pertenceu ao 3º Barão do Rio Bonito. Uma raridade mantida na fazenda histórica é o sistema original de transporte e separação dos grãos utilizando água, a tulha de beneficiamento e o terreiro da secagem, construídos por volta de 1863. 

Além de preservar e divulgar seu patrimônio histórico, a propriedade se tornou referência em produção orgânica. A extensa horta produz vegetais fresquinhos e funciona sob um sistema de “colha e pague”. A  fazenda recebe grupos fechados e, além de requintada hospedagem, oferece cardápios especiais para atender o gosto dos visitantes. 

Entre as outras atividades oferecidas no local, estão o banho de lago e a visita ao mirante com vista para as montanhas no topo do Morro dos Carneiros. O local é perfeito para assistir ao pôr do sol, mas desafia o preparo físico dos aventureiros que optarem por caminhar a subida de 4 quilômetros pela trilha que corta a mata - também é possível chegar ao mirante de carro. Visitas guiadas são uma possibilidade para quem quer conhecer a fazenda e desfrutar de suas delícias - o passeio pode incluir refeições, e custa entre R$ 80 e R$ 360 por pessoa.

Tudo o que sabemos sobre:
Rio de Janeiro [estado]

Encontrou algum erro? Entre em contato

Rio das Flores: da fazenda que pertenceu ao Visconde de Ouro Preto às cachaças artesanais

Da fazenda que pertenceu ao Visconde de Ouro Preto às cachaças artesanais

Liz Batista, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2019 | 06h50

Um pórtico pintado de amarelo e enfeitado com azulejos azuis e brancos de inspiração portuguesa dá as boas vindas a quem chega a Rio das Flores, cidade de apenas 8 mil habitantes. Em sua área mais rural, mais especificamente no quilômetro 25 da Estrada do Abarracamento (RJ-135), fica a Fazenda União, um verdadeiro retrato da pompa e riqueza em que viviam a nobreza e aristocracia brasileira no auge do ciclo do café no Vale do Paraíba, no século 19. Hospedar-se no magnífico casarão, de 1836, tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional, é reviver essa opulência. 

A fazenda, que pertenceu ao Visconde de Ouro Preto, um dos políticos mais importantes do Segundo Império (e próximo a  pessoas como D.Pedro II), serviu de locação para novelas e filmes de época. Além do rico museu de arte sacra com peças dos séculos 18, 19 e 20, o local mantém coleções de objetos antigos e mobiliário preservado, que remontam hábitos e costumes curiosos daquela época. A sala de jantar abriga uma extensa coleção de pratos brasonados que pertenceram a nobres famílias do Império. 

Xícaras de chá com divisórias que serviam para impedir que volumosos bigodes fossem mergulhados no líquido quente, perdendo seu penteado, estão expostas numa cristaleira. A qual, por sua vez, está bem próxima à sala onde esses mesmos cavalheiros se reuniam para conversar, mascar tabaco, fumar cachimbo ou charutos e encher escarradeiras com cusparadas para exibirem a boa saúde (em  tempos que a tuberculose fazia incontáveis vítimas, conhecer a saúde de um convidado era uma preocupação necessária). 

Enquanto isso, na luxuosa sala de jantar, uma peça dourada que lembra uma tesoura guarda a memória de uma época marcada pela religiosidade e superstição: o objeto era usado para cortar e apagar a chama das velas que iluminavam a sala. 

Do passado para o presente

O passado, contudo, encontra o presente nos 24 apartamentos da fazenda, onde conforto e modernidade são marcas registradas. Móveis antigos dão o tom da decoração aconchegante aos quartos, que contam com camas king ou queen, tevê, lareira digital e máquina de café expresso. Piscina, bar, sauna, sala de jogos, academia, um redário com vista para o lago, pedalinho, quadra de tênis, minigolfe e um playground estão entre as opções de lazer, além de uma cavalariça para equitação.

A mesa farta de café da manhã colonial e os deliciosos aromas que saem do forno à lenha do restaurante são um convite para se deliciar com sabores típicos da fazenda. Bolos fofinhos, acompanhados de geleias, queijos frescos e pães caseiros combinam com o café produzido no local. Aos sábados, a propriedade abre as portas para visitas guiadas que terminam em feijoada (R$ 145 por pessoa;  crianças de 6 a 12 anos pagam meia). É possível escolher entre diárias com café da manhã ou pensão completa; os preços começam em R$ 686 o casal.

Alambique

Além da fazenda, outra pedida em Rio das Flores é conhecer a produção da Cachaça Werneck. Eli Werneck, o proprietário, é o guia da visitação que mostra todo o processo produtivo do destilado, do plantio da cana-de-açúcar, passando pela destilação até o envelhecimento nos barris de diferentes madeiras, que ajudam na composição dos sabores. 

Werneck conta que toda sua produção é sustentável, a cana é tratada com processos naturais e sem uso de pesticidas. O reflexo do cuidado e rigor na produção está nos vários prêmios nacionais e internacionais conquistados - e também no preço das garrafas, que podem custar até R$ 415. A visita termina, é claro, com uma saborosa degustação. 

Tudo o que sabemos sobre:
Rio de Janeiro [estado]

Encontrou algum erro? Entre em contato

Uaná Etê: arte, natureza e atmosfera zen

Conhecido como 'Inhotim de Vassouras', Uaná Etê oferece uma experiência sensorial única

Liz Batista, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2019 | 06h50

Esqueça a realidade, o tempo, o unidimensional. O Uaná Etê é uma mistura de jardim ecológico, interativo, artístico, musical, esotérico, gastronômico e, por que não dizer, filosófico, entre as cidades de Vassouras e Miguel Pereira. Mais que um espaço cultural e de lazer, o local oferece uma experiência sensorial.

Uaná Etê em língua indígena franca significa "multidão de vagalumes". Mas o espaço já foi apelidado de “Inhotim de Vassouras” por sua proposta inovadora. Idealizado pelos proprietários Cristina Braga e Ricardo Medeiros, o jardim é capaz de fundir arte e natureza e transformar a música em obra visível e tátil.  É “uma ode à vida, à natureza e à arte”, como define Cristina. 

Musicista e cantora, ela atuou por mais de duas décadas como  primeira harpista do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Ricardo, seu marido, é compositor, arranjador e contrabaixista solista da Orquestra Sinfônica Nacional. A paixão que o casal tem pela arte está presente em cada uma das atrações distribuídas pelos 135 mil metros quadrados de terreno cuidadosamente cultivados e cercados pela rica vegetação da Mata Atlântica.

Entre as instalações mais impressionantes está o Labirinto da Música, projeto da paisagista Maritza Orleans e Bragança. Após subir uma escadaria em espiral, a obra é revelada. A entrada do labirinto convida a refletir sobre a existência, a expansão do som e da vida através do espaço e do tempo. Uma interpretação sonora e visual da teoria cosmológica do Big Bang (que explica a origem do universo). A experiência começa quando o visitante faz soar um gongo e começa a percorrer a construção tridimensional, acompanhando o som por ele iniciado. 

As instalações são sequenciais e interligadas: você transita de uma atração a outra observando as esculturas e brincando com as peças lúdicas das obras. Um pouco mais adiante fica o Jardim dos Cristais, onde diferentes minerais ficam dispostos ao redor de um amplo círculo de grama bem aparada, onde se pode praticar ioga e meditação sob a influência energizante das pedras. 

O local conta com outras atrações, como um redário, onde os visitantes podem se balançar sentindo o vento que sopra por entre as montanhas. Há também o Bosque dos Sinos; o jardim de cactos; as teias de cordas, onde dá para deitar, relaxar e observar a copa das árvores; e um teatro com capacidade para 2 mil pessoas. A instalação chamada Árvore das Infinitas Possibilidades é ideal para finalizar o passeio. No topo de uma montanha fica uma frondosa árvore adornada por fitas coloridas. Os visitantes escrevem pedidos nos pedaços de tecido e os amarram aos galhos - as fitas custam R$ 2 e podem ser adquiridas na entrada. Além das atrações fixas, o local conta com uma agenda intensa de eventos culturais. 

Comer e dormir

Uma refeição no Bistrô Uana Etê  complementa o passeio. Com pratos originais feitos com ingredientes locais e sazonais, o chef Cesar da Costa surpreende pela criatividade com que mistura os sabores da região. Vale provar o amuse bouche de tartare em chips de banana da terra. A torta de café é uma sobremesa leve e doce na medida certa. Queijos, cachaças e cervejas artesanais produzidos no Vale são uma boa opção para acompanhar a refeição. O cardápio muda toda semana; entradas custam entre R$ 17 e R$ 26 e pratos principais, entre R$ 35 e R$ 45. 

Também é possível se hospedar no local - são apenas cinco quartos e dois chalés, com diárias que começam em R$ 195, além de uma casa-spa. O Uaná Etê fica entre as cidades de Vassouras (a 15 minutos de carro) e Miguel Pereira (a 20 minutos), numa área rural conhecida como Sacra Família do Tinguá, no pequeno município de Engenheiro Paulo de Frontin.

Tudo o que sabemos sobre:
Vassouras [RJ]

Encontrou algum erro? Entre em contato

Vassouras: o charme da 'princesinha do café'

Nos casarões preservados da principal cidade do Vale do Café estão os resquícios de uma época áurea

Liz Batista, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2019 | 06h50

Para os aficionados por história e amantes da arquitetura, Vassouras é a joia da coroa no Vale do Café. A cidade floresceu durante os anos de glória do ciclo cafeeiro: ali, barões, viscondes, fazendeiros, intermediários e outros comerciantes fizeram fortuna e ergueram fabulosos casarões, que guardam até hoje características originais do século 19.

Muitas dessas construções foram tombadas e passam por processos de restauro e preservação. Contemplada pelo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) das Cidades Históricas, Vassouras hoje assiste a prédios (como o Palacete do Barão do Ribeirão, onde funcionou o antigo Fórum da cidade) passarem por um meticuloso trabalho coordenado pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). 

Coração e cartão-postal da cidade, a Praça Barão do Campo Belo é um ótimo local para iniciar o city tour. No alto está a Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição, construída em 1828 com toques de barroco e rococó. Antes de o café se transformar na principal fonte impulsionadora da economia local, Vassouras era conhecida por ser ponto de parada para quem transportava ouro de Minas Gerais até o Rio de Janeiro

Esse intercâmbio fica evidente quando observamos as palmeiras imperiais que circundam a praça e o enorme chafariz central, que servia como bebedouro para os animais de carga. Todo o centro histórico desperta lembranças de cenários encontrados em Ouro Preto (MG) e Petrópolis (RJ). 

A influência mineira é também deliciosamente sentida à mesa. Tutu de feijão, farofa temperada, couve refogada na manteiga, banana frita, torresmo crocante e linguiças das mais variadas são clássicos dos cardápios locais. O restaurante Relíquia, que fica na praça, é um bom local para desfrutar dessa culinária. Sentar-se à sombra das figueiras de sua calçada para apreciar a beleza do centro histórico, enquanto se saboreia uma caneca da cervejaria local, a Orbital, é programa certeiro para uma tarde prazerosa. O restaurante oferece um bufê ao preço de R$ 42,90 o quilo ou pratos feitos por R$ 14,90 no almoço. 

Casarões e famílias de outros tempos

Seguindo a rua que desce a partir da Igreja  encontra-se o Centro Cultural Cazuza. O casarão de 1845 pertenceu à família da avó (materna) do artista, e a mãe dele, Lucinha Araújo, nasceu na residência. A instituição passou por uma restauração completa financiada pela Sociedade Viva Cazuza e hoje funciona como um polo cultural da cidade, oferecendo aulas de música gratuitas e apresentações de música, teatro e ópera.

No segundo andar fica uma exposição permanente em homenagem ao cantor. Os visitantes podem ver itens que pertenceram ao roqueiro, rascunho de escritos,  fotos, sua máquina de escrever e uma garrafa de uísque aberta deixada sobre a escrivaninha. Abre de segunda à sexta, das 9h às 17h; aos sábados, das 9h às 16h; e aos domingos, das 9h às 14h. A entrada é gratuita. 

Outro lugar que merece destaque é o Museu Casa da Hera, que fica na chácara que pertenceu a Eufrásia Teixeira Leite (1850-1930). Benfeitora da cidade de Vassouras e figura feminina emblemática, Eufrásia tem uma biografia fascinante. Foi namorada do político e  abolicionista Joaquim Nabuco durante anos, mas nunca se casou. Independente, após receber uma gorda herança deixada pelos pais, foi viver em Paris. Fora do Brasil, investiu dinheiro na bolsa e fez sua fortuna crescer. 

No casarão construído em 1830 estão expostos alguns dos pertences deixados por Eufrásia. Toda a parede da fachada é coberta por uma hera verde cuidadosamente aparada para não tampar as incontáveis janelas responsáveis por iluminar cada um dos 22 cômodos. Na época, o vidro era um item caro e feito sob medida. Assim, as numerosas janelas também serviam como um espelho da riqueza dos proprietários. 

A instituição, vinculada ao Ibram (Instituto Brasileiros de Museus), abriga um valioso acervo de móveis, livros, cartas, quadros e até roupas do século 19. E,  em sua parte externa, é possível passear por um bucólico jardim, onde um túnel formado por bambus carrega a promessa de trazer sorte para a vida amorosa de quem o cruza.

Heróis negros

Também nos jardins é possível observar uma exposição que remonta um quilombo. No centro da montagem estão duas esculturas que representam heróis negros, Mariana Crioula e o marido, Manuel Congo, líderes do maior levante de negros escravizados  registrado no Rio de Janeiro no século 19. 

 A história conta que 300 negros escravizados participaram da rebelião em 1838. A obra reflete a lembrança de que a riqueza ostentada pelos barões do café está estreitamente ligada ao sistema escravocrata que existiu no Brasil até a assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888. Os historiadores calculam que,  no Vale do Café, a posse de escravos chegava a representar até 70% do patrimônio das famílias mais ricas. Mas famílias menos abastadas também movimentavam o comércio escravo na região, com dois ou mais  escravos para serviços domésticos e outros trabalhos.

Outra maneira de conhecer melhor a história dos negros escravizados é participar das apresentações conduzidas pela guia e turismóloga Andréa Pit - Pit de “pit stop de informação”, tamanho é seu conhecimento sobre Vassouras. Vestida com roupas brancas, turbante e colares de contas, Andréa interpreta Mariana Crioula e interage com os turistas, dividindo preciosos conhecimentos da história local. Cantando jongo e chamando os ouvintes de “sinhazinha garbosa” e “sinhozinho bem apanhado”,  ela usa e abusa da linguagem típica do período para envolver o público em suas narrativas - e, por que não, criar um desconforto que faz pensar.  

Em Vassouras, hotéis, pousadas e até um eco resort atendem os mais diferentes gostos e orçamentos de hospedagm. Um dos mais tradicionais hotéis da cidade, o Santa Amália, que foi no passado um convento, oferece quartos para casais e família, tem serviço de pensão completa e uma ampla área de lazer com uma agradável piscina que serve de ambientação para festas temáticas. Ali, à noite, é possível tomar um drinque e observar o céu estrelado. Diárias no fim de semana a partir de R$ 306 o casal, com café da manhã.

Tudo o que sabemos sobre:
Rio de Janeiro [estado]

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Vale do Café nas páginas da história

O Estadão Acervo reúne relatos sobre a época áurea na região; confira as imagens

Liz Batista, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2019 | 06h50

O Acervo do jornal O Estado de S. Paulo guarda em suas antigas edições (hoje digitalizadas e acessíveis para pesquisa online) alguns dos processo históricos que marcaram o declínio do cultivo de café no Vale do Paraíba. Criado por fazendeiros de café da região de Campinas (SP), o próprio surgimento do jornal mostra o redirecionamento do poder político e econômico no final da Monarquia  e início da República. Confira algumas notícias da época: 

 

Tudo o que sabemos sobre:
Vassouras [RJ]

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.