Voltar faz parte da viagem

Nosso aguerrido correspondente britânico anuncia que está perambulando pela Jamaica, a caminho do Goldeneye Resort, de Chris Blackwell, um bom e velho amigo. Mr. Miles vai na companhia de Trashie, sua raposa das estepes siberianas. Para quem não sabe, Blackwell (e sua gravadora Island Records) foi o primeiro a gravar Bob Marley e toda uma geração que consagrou o reggae ao redor do mundo. Foi Blackwell, também, quem lançou uma certa banda chamada U2, "mas, neste caso, graças a um empurrãozinho meu", confessa Mr. Miles. O resort mencionado é a antiga propriedade onde Ian Fleming concebeu o personagem James Bond e escreveu quase todas as suas histórias.

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

21 Abril 2015 | 02h04

A seguir, a pergunta da semana:

Mr. Miles: que o senhor viaja muito nós já sabemos. Mas não chega uma hora em que dá vontade de voltar?

Simone Aranada, por e-mail

"Well, my dear, this is a nice question! Voltar, of course, faz parte da viagem, assim como todo o resto, do primeiro sonho à própria jornada em si. Não existe uma regra única para isso. Alguns querem voltar mais rapidamente que os outros. Há os que alongam suas viagens porque ainda não lhes veio a ânsia de retornar e, entre os que abreviam suas andanças, há os que sentem, de fato, um acúmulo tão grande de sensações que só entre seus velhos móveis da sala - na companhia confortável de tudo e todos que há muito não podem surpreendê-los -, só aí, então, terão como digerir o que passaram, como cobras que engoliram grandes presas.

Na maior parte das vezes, however, as pessoas voltam porque querem a sensação de triunfo proporcionada pela saída do portão do aeroporto, queridos e amados de braços abertos, prontos a recebê-los como a verdadeiros ungidos, seres que ousaram ir além dos limites e, agora, ressurgem como se isso jamais fosse possível.

Mas o mais importante, dear Simone, é a possibilidade de compartilhar certas histórias e descobertas com gente que ainda não chegou a fazê-lo. Espalhar conhecimento, provocar 'ohs' de admiração e, why not?, desfrutar de uma certa momentânea soberba.

Um velho amigo meu já falecido, arquiteto de renome internacional, explicou-me como funciona esse fenômeno. Obrigado a viajar muitas vezes para um mesmo destino em função de um de seus trabalhos, ele acabou conhecendo, a bordo da aeronave, a linda esposa de um diplomata muito conhecido. Os encontros se repetiram até que, um dia, o mencionado amigo convidou-a para passar a noite em seu apartamento. A mulher negou. Os pedidos foram refeitos mais duas ou três vezes e a mulher continuou negando. Até que, mais por insistência do que por capacidade de sedução, a mulher cedeu, mas apresentou-lhe uma única condição: 'Ninguém pode saber de nada a respeito!'. O arquiteto protestou: 'Mas qual será a graça se eu não puder contar nada a ninguém?'.

E acabou-se o ainda não iniciado romance.

Viajar sem voltar é um pouco como essa historieta. E voltar sem contar é perder a chance de reviver a jornada. Tantas vezes quanto for possível. Ao longo dos tempos. Depurando o relato. Acrescentando-lhe cacos. Até que um novo sonho germine numa nova viagem e, ao voltar, você passe a ter mais histórias para contar. Assim como esse modesto viajante, que ousa contá-las todas as semanas.

E se faço dessa maneira, darling, é porque estou sempre de volta - exceto quando descubro novos destinos. Ainda assim, quase em todos os lugares em que desembarco há algum velho amigo ou compadre a me esperar e oferecer os ouvidos para novos relatos."

* É o homem mais viajado do mundo. Ele esteve em 183 países e 16 territórios ultramarinos

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