Vulcão Eyjafjallajökull: de culpado pelo caos a estrela turística

Eyjafjallajökull. Não conseguiu ler? Então pode chamar apenas de "o vulcão de 2010" e todo mundo vai entender. Este sujeito foi o responsável pela maior paralisação do tráfego aéreo da história recente. Por ao menos cinco dias no mês de abril daquele ano, ele interditou a maior parte do céu europeu em função das cinzas, provocou o cancelamento de 104 mil voos e causou um prejuízo de 1,7 bilhão às companhias aéreas.

REYKJAVIK, O Estado de S.Paulo

07 Outubro 2014 | 02h06

Ironicamente, tornou-se o maior divulgador da ilha desde a crise de 2008. Gente do mundo todo desembarcou para ver a natureza selvagem do país, moradores do entorno do vulcão transformaram casas em pontos turísticos e um dos souvenirs mais populares das lojas de Reykjavik passou a ser a camiseta que ensina a pronunciar o nome "ay-uh-fyat-luh-yoe-kuutl-uh".

Com cerca de 20 vulcões ativos e boa parte do seu solo coberto por lava petrificada de grandes erupções recentes, a Islândia se acostumou aos pequenos terremotos que sofre no dia a dia. Tanta atividade vulcânica decorre do fato de sua superfície estar muito próxima do interior quente da Terra e por se localizar no ponto de fissura entre duas das grandes placas tectônicas do planeta, a americana e a da Eurásia. O calor no interior do solo tem sido transformado em energia geotermal que garante o aquecimento das casas para um povo que enfrenta temperaturas médias de zero grau no inverno.

Deliciosos poços e cachoeiras de água quente se espalham do campo até as cidades. A 15 quilômetros do aeroporto estão as famosas piscinas da Blue Lagoon (bluelagoon.com), que se transformou no mais disputado destino turístico da ilha e vive com banhistas lambuzando a cara de lama terapêutica.

A região que sofreu com a erupção do Eyjafjallajökull também virou atração. Na fazenda transformada em centro de visitantes (icelanderupts.is), o turista assiste a um vídeo e a uma exposição fotográfica que mostram imagens como a da estupenda cascata de 200 metros de lava líquida descendo da montanha. Os mais aventureiros podem contratar guias para fazer um trekking no que restou do glaciar e do antigo lago sobre o vulcão com nome de palavrão.

Força feminina. Curiosamente, na língua islandesa os vulcões são substantivos femininos. Uma que acordou atacada em 16 de agosto de 2014 foi a Bardarbunga. Bem maior e de nome muito mais fácil que sua prima brava que deu show em 2010, Bardarbunga deflagrou um movimento sísmico recorde, com nada menos que 20 mil pequenos terremotos.

Abafada pelo glaciar que a cobre, ela acabou contagiando a vizinha Holuhraun, que passou a cuspir fogo por sua cratera. "Se a Bardarbunga originar outra erupção, mas dessa vez rompendo a Vatnajöekull, maior geleira da Europa, pode gerar um volume de cinzas maior que o do vulcão de 2010", diz Gudjon Valberg, diretor da agência de turismo local Luxury Adventures (lux.is), que viu a procura por tours nas áreas vulcânicas da Islândia, como as aventuras de snowmobile, disparar desde 2010.

Em setembro último, a fumaça e os gases tóxicos gerados pela lava que explodia da cratera de Holuhraun podiam ser observados do alto em tours de helicóptero e pequenos aviões que rodeavam o vulcão em sobrevoos - um mimo para viajantes que não existia quatro anos atrás. O voo de 1h15 que fiz em um avião de cinco lugares foi espetacular. Além de presenciar o jorro vermelho incandescente em meio à imensidão branca do glaciar, pude entender melhor a fascinante geografia da ilha.

Do alto se nota: ao longo dos vales entre as lindas montanhas cobertas de neve descem línguas de gelo em forma de glaciares. Seu derretimento se espalha em um labirinto de rios e lagos que parecem veias e são povoados de icebergs. A água escura desce em meio ao solo de lava negra endurecida coberta por um carpete de musgos quase fluorescentes. Árvores praticamente não existem na Islândia, vitimadas pelos vulcões e pela colonização predatória. Ao fim do entrelaçar artístico dessa neve derretida, ela encontra os abismos e praias do Oceano Atlântico. / D.N.G.

Para quem não voa em teco-tecos, outros cenários parecidos podem ser vistos em filmes como os exibidos em Reykjavik, tanto no subsolo do centro de convenções Harpa quanto no cinema Volcano House (volcanohouse.is), à beira do porto. Entre maio e setembro, pode-se ter inclusive a rara experiência de descer de elevador os 120 metros de profundidade da câmara interna do vulcão Thrihnukagigur (insidethevolcano.com).

Chegar ao topo de sua cratera, no entanto, requer 40 minutos de caminhada. Uma vez lá dentro, curta o deslumbramento. Afinal, segundo consta, Thrihnukagigur dorme um sono profundo. De qualquer forma, é bom não irritá-lo. / D.N.G.

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